






 Um marido contratado
  Hired husband
  Rebecca Brandewyne
  Famlia Fortune 1


Sempre-Lendo, o melhor grupo de troca de livros da Internet!


   Nicolai Valkov  o tipo de homem que qualquer mulher inteligente no quer por perto. Seus perturbadores olhos negros desvendam qualquer segredo, por mais escondido
que esteja. Mas, por fora das circunstncias, a esnobe Caroline Fortune  obrigada a se casar com Nicolai. Afinal, o destino da famlia Fortune dependia totalmente
dele e tambm de sua mente brilhante. Apesar disso, a educao refinada de Caroline no a preparou para saber lidar com um marido to intenso. E nem ambos estavam
prontos para os desafios que seu casamento teria de enfrentar.


   Eu sou Kate Fortune  matriarca da Famlia Fortune.

   Meu saudoso marido Ben e eu comeamos do nada e fundamos o imprio da Cosmticos Fortune, hoje uma das maiores referncias do mundo em produtos de beleza. Mas
fama e fortuna no so tudo. Minha famlia vem sempre em primeiro lugar. A felicidade de meus filhos e netos  o mais importante para mim. Fao qualquer coisa que
for necessria, at mesmo dou um empurrzinho, para assegurar que todos estejam sempre com os dois ps bem presos no cho. Por isso nada  nem ningum  me impedir
de fazer aquilo que eu achar ser o melhor para todos...


   Liz Jones

   A Colunista N 1 das Celebridades

   Kate Fortune, presidente da Cosmticos Fortune, viajava a negcios quando seu avio sofreu uma pane e caiu. A famlia Fortune se recusa a fazer declaraes, mas
h rumores de que Kate esteja desaparecida... e, possivelmente, morta!
   A fabulosa famlia Fortune tem sido vtima dos mais terrveis boatos nos ltimos dias. E um deles  de que no houve acidente. Na semana passada, um empregado
de alta confiana da Cosmticos Fortune foi ameaado de deportao. Em seguida, houve uma exploso suspeita no laboratrio da empresa.
   Estaria algum tentando arruinar a famlia Fortune? Ser que eles sobrevivero aos escndalos que os tm ameaado ultimamente? Eu soube de fontes seguras que
os Fortune esto preocupados com a segurana de suas vidas.

Prlogo

   Washington, D.C.

   ? Bem, Duckie ? dizia a voz baixa e rouca, ao telefone. ? Eu sei que, com todos os seus contatos, voc deve ter algum amigo no Servio de Imigrao. E, realmente,
o que estou pedindo  um favor to pequeno que no envolve nenhum risco para voc ou para qualquer pessoa na Imigrao. Afinal, quem poderia se importar se um russo
tivesse seu visto de permanncia revogado? Voc pode dizer que recebeu a dica de um informante annimo que o levou a acreditar que o Dr. Nicolai Valkov  um antigo
agente da KGB ou est ligado com a Mfia russa ou algo assim. Qualquer coisa. Desde que ele seja visto como um estrangeiro indesejvel e seja deportado. O Servio
de Imigrao no vai questionar... a palavra de um dos senadores mais poderosos do Capitlio, Duckie. Ento, eu acho que voc pode fazer isso... que pode se livrar
de Nick Valkov por mim. E,  claro, no preciso dizer que eu ficaria muito... grata a voc. To grata, na verdade, que at faria uma viagem especial a Washington
s para v-lo, Duckie. Teremos nossa prpria comemorao particular, somente ns dois. Vou levar champanhe... e aquele conjuntinho de lingerie preto que voc gosta
tanto...
   Enquanto se recostava na cadeira de couro da Borgonha diante da mesa antiga de carvalho macio, o senador Donald Devane fechou os olhos com as imagens evocadas
pela voz rouca do outro lado da linha. Sua respirao era spera e difcil. O corao martelava de excitao e a virilha se apertava de uma maneira insuportvel
quando ele lembrava da ltima "comemorao" ? e da roupa preta. A palma de sua mo suava em profuso enquanto ele fazia uma longa tentativa de limpar a garganta,
engasgado pela expectativa e pela excitao. Finalmente, ele conseguiu falar.
   ? Eu... sim, de fato tenho alguns amigos no Servio de Imigrao. No vejo por que no poderia fazer uns arranjos. Uma conversa casual aqui ou ali. No, no deve
haver problema algum. Considere Nick Valkov num avio de volta para a Rssia neste exato momento.
   ? Ah, Duckie, eu sabia que minha confiana em voc no era  toa. Me ligue assim que voc tiver tudo combinado com o Servio de Imigrao, e eu estarei no prximo
avio para Washington, prometo. At l, mantenha meu lado da cama aquecido e tenha doces sonhos comigo... como eu terei com voc. Nos vemos em breve, Duckie. ? Um
riso suave, sedutor, ecoava do telefone antes que a ligao casse, deixando um sinal de ocupado no ouvido do senador.
   Depois de retomar o controle da respirao e dos batimentos cardacos, Donald Devane apertou um dos botes do telefone, mandando que a secretria o ligasse com
o escritrio do Servio de Imigrao e Naturalizao (SIN).
   Alguns minutos depois, um computador do SIN iniciava o processo que revogaria o visto de permanncia de um certo Dr. Nicolai Valkov, atual diretor de pesquisa
e desenvolvimento da Cosmticos Fortune ? e, por isso mesmo, sem que ele soubesse, uma pedra no sapato de algum.


   Captulo 1

   Minepolis, Minnesota

   Ao entrar com seu Volvo azul-escuro no estacionamento subterrneo da torre de ao e vidro onde se situava a sede global da Cosmticos Fortune, Caroline Fortune
deu uma olhada ansiosa em seu relgio de pulso Piaget. Um acidente na estrada coberta de neve fizera com que o trnsito naquele horrio se transformasse em um pesadelo
aquela manh. Por isso, ela poderia se atrasar para a reunio das nove da manh ? e se havia algo que sua av, Kate Winfield Fortune, no podia suportar era um comportamento
indolente e no-profissional no trabalho.
   E um atraso era sinal de uma agenda desleixada e desorganizada.
   Involuntariamente, Caroline estremeceu ao pensar na fria de sua av despejada sobre ela. Sabia que a repreenso seria dura e contundente, e que a av a faria
com as sobrancelhas erguidas e no tom de arrogante e fria soberba com que no passado havia reduzido muitos executivos da Cosmticos Fortune ? mesmo os do sexo masculino
? no apenas a um humilde pedido de desculpas, mas at mesmo a lgrimas. Caroline j tinha visto isso mais de uma vez, embora, para sua gratido e alvio, ela raramente
fosse alvo da raiva de sua av.
   E tampouco seria naquela manh, se pudesse evitar. Seria uma forma desastrosa de iniciar o Ano Novo.
   Agarrando a bolsa Louis Vuitton e a pasta de couro preto no banco do carona, Caroline saiu com leveza e graa do Volvo, batendo a porta. Os saltos de seus sapatos
Maud Frizon batiam rpido no cho de concreto enquanto ela corria ao hall de elevadores que a conduziriam pelo arranha-cu de propriedade de sua famlia. Apertou
o boto, contendo um resmungo  medida que os minutos passavam at que soou uma campainha e as portas do elevador se abriram.
   Ao chegar, correu pelos corredores longos e acarpetados, mais silenciosos que o normal, em direo  sala onde seria a reunio.
   Caroline tinha sua pasta aberta e folheava apressadamente o contedo, revisando as notas que havia preparado para sua apresentao. Por isso, ela no viu o Dr.
Nicolai Valkov, literalmente correndo de encontro a ele. Da mesma forma que ela, ele tinha a cabea inclinada e olhava sua prpria pasta, sem perceber para onde
estava indo; quando os dois colidiram, tanto as pastas quanto os papis em seu interior voaram.
   Com o impacto, Caroline perdeu o equilbrio, tropeou, e teria cado se as mos fortes e confiantes de Nick no a tivessem agarrado at que ela estivesse firme
e de p. Ela arquejou, num sobressalto, ao se deparar com o peito largo, a cintura magra e as coxas retesadas, seu rosto a apenas alguns centmetros de distncia
do dele, como se fossem amantes prontos a se beijar.
   Caroline nunca estivera to perto de Nick Valkov, e estava totalmente consciente dele, no como o companheiro de trabalho da Cosmticos Fortune, mas tambm como
homem. Consciente de como ele era alto, atraente e bonito, vestindo um terno preto elegante, de risca de giz, cortado  moda europia, uma camisa branca impecvel,
uma echarpe no pescoo e um par de mocassins Cole Haan. De como seu cabelo grosso e brilhante era escuro, como seus olhos eram emoldurados por sobrancelhas to escuras
que eram quase negras, apesar das luzes fluorescentes que brilhavam forte no teto. Da brancura de seus dentes bem-feitos contra a pele bronzeada  medida que um
sorriso aberto e debochado lentamente se formava em sua boca larga e sensual.
   ? Na verdade, eu estava desejando um po doce esta manh, mas... mas ouso dizer que voc teria um sabor ainda mais agradvel, senhorita Fortune ? Nick falava
arrastado, impertinente, com uma voz baixa, sedosa, de leve sotaque, j que o russo, e no o ingls, era sua lngua materna.
   Caroline ruborizou de constrangimento e irritao. Se havia uma pessoa que ela sempre tentava evitar na Cosmticos Fortune, era Nick Valkov.
   Aps a diviso da Unio Sovitica, ele havia emigrado para os Estados Unidos, onde a av de Caroline o havia contratado para dirigir o departamento de pesquisa
e desenvolvimento da empresa. Desde ento, Nick vinha demonstrando suas tendncias do Velho Mundo, que a levavam a acreditar que ele no somente ignorava direitos
iguais, mas teria prazer em voltar o relgio vrios sculos no que se referia s mulheres. Ela achou o comentrio dele tpico de sua atitude com as mulheres: insolente,
arrogante e dominador. O homem era simplesmente insuportvel! Caroline no conseguia imaginar o que havia levado sua av a contrat-lo ? e com um salrio bastante
generoso ? a no ser por Nick Valkov ser considerado um dos principais qumicos em qualquer parte do planeta. No fundo, Caroline sabia que, no importa como ele
se comportasse, a Cosmticos Fortune tinha uma sorte tremenda em t-lo como funcionrio. Ainda assim, aquilo no lhe dava o direito de insult-la!
   ? Asseguro que me acharia mais amarga do que uma xcara de caf preto muito forte, Dr. Valkov ? ela insistiu, tentando, sem sucesso, livrar seu corpo, que tremia,
da pegada firme do rapaz, que continuava a segur-la to perto que ela podia sentir o corao dele bater forte no peito e sabia que ele devia estar igualmente sentindo
o martelar imprevisvel do corao dela.
   ? Prefiro apostar que tem mais acar e creme do que imagina, senhorita Fortune ? para seu total constrangimento, ela sentiu uma das mos de Nick deslizar insidiosamente
por suas costas e pela nuca at a massa opulenta de seu cabelo negro, arrumada num coque estiloso. ? Voc conhece tanto sobre moda ? ele murmurou, olhando para ela,
atento e determinado, ignorando sua indignao e esforos para escapar dele. ? Ento, por que sempre usa seu cabelo assim... to apertado e srio? Eu nunca o vi
solto.  a maneira como se deve us-lo, voc sabe... suave, solto em volta do seu rosto. Do jeito que est, seu cabelo est pedindo que um homem tire os grampos
para ver o quanto  longo. Ele vai abaixo dos ombros? ? Ele ergueu uma sobrancelha, inquisitivo, com um sorriso debochado ainda nos lbios, para que ela soubesse
que ele curtia seu visvel desconforto. ? Voc no vai me contar, vai? Porque aposto que  bem longo... e gostaria de saber se estou certo. E estes culos ? ele
apontou para a armao grande e quadrada, de tartaruga, repousando em seu nariz fino e clssico. ? Acho que voc os usa mais para se esconder do que para enxergar.
Aposto que voc nem precisa deles.
   Caroline sentiu o rubor que lhe coloria o rosto e um calor que parecia se espalhar por todo o seu corpo. Dane-se esse homem! Por que tinha que enfurec-la tanto
com sua audcia? Porque o que Nick suspeitava era verdade: seu cabelo realmente vinha abaixo dos ombros e o grau de suas lentes era mesmo to pequeno que dispensava
seu uso. Ela usava o coque e os culos apenas porque sentia que eles lhe davam uma aparncia mais executiva, a imagem sria que ela cultivava com determinao para
esconder seu interior romntico, vulnervel, do resto do mundo... especialmente dos homens.
   ? Dr. Valkov ? disse Caroline, fria, forando-se a controlar-se e a se recompor ? no somente eu no estou nem remotamente interessada no que voc pensa, como
nenhum de ns tem tempo para ficar aqui conversando... a no ser que voc queira levar uma bronca de minha av. Eu, no entanto, no quero. Por isso, agradeo-lhe
se me soltar para que eu possa pelo menos chegar a tempo para nossa reunio das nove horas. Temos menos de cinco minutos.
   ? A reunio ? Nick comeou a falar, ao lembrar-se. ? Acredita que me fez esquecer completamente, senhorita Fortune? ? Ele a soltou, ajoelhando-se para ajud-la
a catar e guardar os papis que haviam se espalhado das duas pastas.
   Quando conseguiram arrumar tudo, entraram juntos na sala de reunio, onde Caroline ficou sem graa ao observar que ela e Nick eram os ltimos a chegar. Sua av
estava sentada  cabeceira da enorme mesa de reunio em mogno de Honduras. Ao lado dela estava o pai de Caroline, Jacob Fortune, filho mais velho de Kate e presidente
da Cosmticos Fortune, e Sterling Foster, advogado e melhor amigo de Kate. Esparramado de lado em uma cadeira e parecendo que se recuperava de uma tremenda ressaca
estava o primo playboy de Caroline, Kyle, com o palet pendurado na cadeira, o colarinho e gravata afrouxados, apesar de ainda ser to cedo.
   Aos setenta anos, Kate Winfield Fortune no tinha nada de velha ou decrpita. O rosto era marcante, quase sem rugas, devido a uma excelente estrutura ssea e
aos melhores cosmticos que o dinheiro podia comprar. Como de costume, seu cabelo encorpado, de cor vinho, com alguns fios grisalhos, estava arrumado ao estilo da
mulher ideal do incio do sculo XX, acentuando seus maxilares altos e a pele macia e sem manchas que a prpria Caroline havia herdado.
   Embora Kate fosse magra e baixa, sua personalidade determinada e dinmica fazia com que dominasse tudo  volta. Seus olhos azuis, brilhantes e vidos era uma
prova de que sua vivacidade e energia eram de uma mulher com metade de sua idade e que sua mente ainda era afiada como uma navalha. Ningum passava Kate Winfield
Fortune para trs.
   Ela era a CEO de todo o complexo Fortune, o que inclua no somente a Cosmticos Fortune, uma empresa que ela mesma fundara anos atrs, mas tambm uma companhia
mundial de construo e desenvolvimento, e a participao em negcios de petrleo e fazendas. Caroline amava sua av mais do que qualquer um em toda a famlia Fortune.
Queria ser exatamente igual a ela.
   Mas no fundo do corao, Caroline sabia que infelizmente no tinha a vivacidade, o esprito e o astral da av, seu entusiasmo pela vida e busca de aventura. Se
Caroline alguma vez possura aqueles atributos, eles haviam sido aniquilados alguns anos atrs por um noivado desastroso.
   Ela era to jovem e to apaixonada por Paul Andersen, seu colega na Cosmticos Fortune. Ficou arrasada quando, por um truque cruel do destino, compreendeu que
no era a ela que Paul amava, mas sua parte na riqueza da famlia.
   Desde ento, ferida e amargurada, Caroline resolvera se afastar dos homens, concentrando-se na carreira e tentando seguir o exemplo da av em perspiccia, ambio
e jeito para moda. Com inteligncia, conhecimento prtico, dedicao e pura determinao, Caroline havia ascendido na empresa at se tornar diretora de marketing
da Cosmticos Fortune.
   Sabia que era boa em seu trabalho, que havia merecido o cargo. Porque sua av no acreditava em dar nada de bandeja a ningum, nem mesmo  famlia.
   ? Bom dia para todos. ? Caroline rapidamente tirou as luvas caras de couro e o elegante casaco de l de camelo, deixando-o de lado, tentando acalmar a batida
violenta de seu corao, o tremor agitado de seu corpo, enquanto os olhos escuros de Nick a admiravam de cima a baixo. ? Espero que no estejam esperando h muito
tempo. A neve provocou um acidente na estrada hoje de manh, o que parou o trnsito, seno eu teria chegado mais cedo.
   ? Sem contar que a senhorita Fortune e eu tivemos uma pequena coliso no corredor ? Nick tinha uma expresso de ironia no canto dos lbios ao examinar Caroline,
e balanou a cabea, imperceptivelmente, para que ela soubesse que ele censurava no somente o cabelo e os culos dela, mas tambm o terno Chanel de corte clssico
e a blusa de seda creme.
   Ela tinha a horrvel e desconcertante impresso de que ele mentalmente a despia, de que sabia exatamente como ela era nua; para esconder o rubor que sentiu lhe
subir pelo corpo mais uma vez, ela se curvou sobre a pasta que abrira sobre a mesa. Foi tomada por um desejo enorme de dar um tapa na cara de Nick, tirar-lhe aquele
sorriso sarcstico do rosto.
   Qual seria o problema com ela naquela manh? Em geral ela era tranqila, controlada e competente. No era comum que ficasse perturbada e irritada, especialmente
por um homem. A terrvel confuso do trnsito devia ter mexido com ela mais do que suspeitava. Era melhor que se controlasse depressa, seno sua apresentao de
marketing seria prejudicada, em especial agora que Kyle parecia ter cado no sono em sua cadeira.
   Ao v-lo, Caroline amaldioou em silncio o impulso generoso que a fizera promov-lo, meses antes, a seu assistente. Mesmo sendo um de seus primos favoritos,
ele era exatamente como qualquer homem que ela havia conhecido: um completo intil, ela reconhecia agora.
   ? Bem, apesar de todos os contratempos, ainda estamos dentro do horrio. Ento, j que estamos todos reunidos, podemos comear? ? perguntou Kate depressa. ? Kyle.
Kyle! Voc se importa de acordar e se juntar a ns? ? Franzindo as sobrancelhas, ela olhou fixo para o neto irresponsvel quando ele foi chamado  ateno por um
discreto tapa nas costas, de Sterling Foster. ? De certa forma, Kyle, no acho que voc esteja apto para a Cosmticos Fortune ? Kate observou, seca, assim que ele
despertou. ? Acredito que voc deva estar em algum lugar onde seja forado a acordar de madrugada, respirar muito ar puro e trabalhar to duro o dia inteiro que
fique cansado demais para a vida noturna... Mais ainda do que a vida desregrada que parece deix-lo em to mau estado esses dias.
   ? Cus, vov. No consigo pensar em nada menos atraente do que nascer do sol e ar fresco. ? Bocejando e levantando-se, Kyle caminhou despreocupado at a mesinha
ao longo da parede do corredor, onde se serviu de uma xcara de caf preto da cafeteira automtica ao lado da jarra de cristal Bacar com suco de laranja recm-espremido
e uma bandeja de prata de lei com uma variedade de frutas e pes. ? Alm do mais, trabalhei at tarde ontem  noite.
   Kate suspirou, sem acreditar nas palavras do neto, mas preferiu no prolongar o assunto. Em vez disso, apontou, com autoridade:
   ? Nick, por que no comeamos por voc? Como est progredindo minha frmula secreta de juventude?
   ? Muito bem ? Nick levantou-se, confiante, caminhando em volta da mesa de reunio at o equipamento para a apresentao em vdeo, no qual inseriu um disquete.
Depois de alguns momentos, o enorme monitor foi preenchido por um diagrama complexo e equaes qumicas que Caroline no conseguia entender. Com uma caneta com ponta
de laser, Nick comeou a explicar: ? Todos vocs sabem, pelas reunies anteriores, dos passos que j demos at agora. Hoje, tenho o prazer de relatar que, depois
de anos de pesquisa, a frmula secreta est quase completa. Esta  a matriz da frmula. Quando combinada  epiderme, isto  o que acontece, de acordo com nossos
testes.
   Um clique no mouse ps a grande tela em movimento. Em seguida, um vdeo de trinta minutos detalhou em termos simples o efeito da frmula sobre a pele. A demonstrao
detalhada terminou com uma remontagem da matriz original.
   ? Agora ? prosseguiu Nick -, vocs percebero que a matriz no est completamente formada. A quebra que vem nesta cadeia molecular ? ele acendeu a ponta de laser
sobre o monitor ?  o que eu chamo de ingrediente X, que significa que temos certeza de que precisamos de um ltimo elemento para terminar a frmula. No sabemos
ainda que elemento  esse, embora nos ltimos meses tenhamos conseguido limitar consideravelmente a gama de possibilidades. Meu palpite  que em pouco tempo conseguiremos
isolar e identificar o ingrediente X, e nesse momento a frmula estar pronta para o mercado. Alguma pergunta?
   ? Ento, o que voc est dizendo ? Jacob Fortune, conhecido por todos como Jake, falou ?  que a frmula secreta utiliza propriedades semelhantes s encontradas
em retino-A e cido saliclico, bem como alfa-hidrxidos e cido gliclico? Mas que a frmula da Cosmticos Fortune vai alm desses produtos... e ir, realmente,
revolucionar o mercado de cosmticos? Que ser semelhante a uma camada de pele qumica, o que levava antigamente os consumidores a um cirurgio plstico ou a um
dermatologista. A diferena agora  que eles sero capazes de fazer tudo isso sozinhos, com segurana e a um custo relativamente baixo, na privacidade de seus prprios
lares? E ainda que os efeitos da frmula da Cosmticos Fortune sero cumulativos? Ou seja, quanto mais a frmula for usada, melhor se provaro os benefcios?
   ? Exatamente ? Nick concordou, com os olhos escuros cintilando de excitao. ? Com o uso adequado e regular, a frmula da Cosmticos Fortune restaurar, em questo
de meses, at mesmo a pele mais deteriorada em textura, elasticidade etc, que se exibe no final da adolescncia at uns vinte e poucos anos... sem acne,  claro.
? A observao causou uma rodada de risos satisfeitos. ? Alm disso, uma vez que o consumidor atinja um estgio de juventude, o uso consistente do produto algumas
vezes por semana manter a pele naquele nvel... o que significa,  claro, que a maioria dos consumidores se tornaro regulares.
   ? Uma vez que a frmula  essencialmente uma camada de pele qumica, exigir aprovao da FDA. No entanto, todos os testes nos levaram a acreditar que no haver
problema. Como vocs sabem, trabalhamos junto ao FDA o tempo todo, tanto para garantir a conformidade com todas as regras e regulamentos quanto para mant-los informados
sobre os resultados dos nossos testes. Sterling pode dar esclarecimentos sobre todas essas questes legais. Sem dvida, nos sero concedidas vrias patentes, e a
tendncia ser frear nossos competidores por um bom tempo. Espero que, como resultado, nossa parcela no mercado cresa substancialmente. ? Nick deu um sorriso largo
e malicioso, fazendo com que a expresso no rosto de Caroline se tornasse carrancuda enquanto o observava.
   No parecia correto que um homem fosse to atraente, ela pensou, especialmente quando aquela beleza era acompanhada por uma inteligncia inegvel e uma atitude
imperiosa. O homem era brilhante; ela tinha que dar-lhe crdito por isso.
   Abrindo a pasta, Nick retirou vrios relatrios idnticos, que foi distribuindo pela mesa de reunies enquanto falava:
   ? Preparei,  claro, resumos completos de minha apresentao para todos vocs.
   ? Excelente ? Kate declarou sua aprovao com entusiasmo. ? Voc fez um trabalho excepcional, Nick! Estou bastante confiante de que voc vai descobrir em breve
o ingrediente X que est faltando. Sei que falo por todos ns da Cosmticos Fortune quando digo o quanto aprecio profundamente sua dedicao e todas as contribuies
que voc fez  empresa desde que se juntou a ns. Continue fazendo um bom trabalho! E mantenha-me informada sobre seus progressos, est bem? Agora, falando sobre
nossa parcela no mercado... Caroline, sua campanha publicitria est pronta para o lanamento de nossa frmula?
   ? Sim, vov, est sim. ? Ajeitando a camisa, Caroline levantou-se para se aproximar do equipamento de apresentao em vdeo enquanto Nick pressionava o boto
no drive para liberar seu disquete, que enfiou na pasta. Passou, ento pela mesa do corredor.
   ? Ah... pes doces! ? exclamou, examinando Caroline com os olhos quase fechados.
   Para sua irritao, ela sentiu novamente que a fria a fazia enrubescer, tal como havia acontecido antes, no corredor. Seus dedos tornaram-se de repente to desajeitados
que ela deixou cair no cho o disquete que estava tentando inserir. Quando inclinou-se para recuper-lo, derrubou acidentalmente a pasta da mesa de reunio, mandando
os papis pelos ares mais uma vez. Murmurando um palavro, ela lanou a Nick um olhar mortal, fazendo com que ele abrisse um largo sorriso.
   ? Deixe que eu ajudo, senhorita Fortune ? ele ajoelhou a seu lado para catar os papis cados. Entre os dentes, ele agora agarrava um dos pes doces da bandeja
de prata de lei na mesa do corredor.
   Era tudo o que Caroline podia fazer para evitar enfiar o po doce pela garganta dele. Percebeu, constrangida, a presena da av, do pai, do primo e de Sterling
observando a ela e a Nick com curiosidade, claramente perguntando-se o que havia entre aqueles dois.
   Embora a Cosmticos Fortune no tivesse uma poltica contrria ao envolvimento entre funcionrios, Caroline no podia deixar de se lembrar do que acontecera com
Paul Andersen e de como sua av e seu pai ficaram decepcionados com seu julgamento. Seu erro com Paul fizera com que, meses depois, eles fossem mais cuidadosos com
o que ela fazia, checando minuciosamente as decises que ela tomava no trabalho.
   Mesmo agora, ser que, sentados ali, eles saberiam ? como souberam sobre Paul ? que Nick Valkov era outro caa-dotes ou inadequado por qualquer outra razo? Ser
que estariam mesmo agora questionando de novo seu julgamento?
   O pensamento enfureceu Caroline, lembrando-lhe por que sempre havia evitado Nick... e qualquer outro homem na Cosmticos Fortune.
   De uma ponta da mesa, ela olhava furiosa para Nick. Em resposta, ele partiu o po doce, oferecendo a ela, enquanto saboreava seu prprio pedao com prazer. Mesmo
sem querer, ela sentia seus olhos voltados para a boca sensual dele, a lngua que lambia o glac grudado em seus dedos longos e elegantes. Uma imagem sbita de Nick,
fazendo-lhe coisas selvagens e sensuais com aqueles lbios e lngua, veio-lhe espontaneamente  cabea, constrangendo-a e fazendo sua pulsao disparar.
   Com um balanar brusco de cabea, em negativa pelo po oferecido, ela abaixou-se sobre os papis espalhados, sentindo seu rubor aprofundar-se e espalhar-se pelo
rosto, abalada pela suspeita irritante de que Nick houvesse, de algum modo, visto a imagem mental que ela tivera dos dois juntos.
   Por baixo dos clios longos e grossos, ela deu uma olhada discreta para ele. Nick no sorria mais, o que devia t-la aliviado, no fosse pelo fato de que seus
olhos escuros brilhavam especulativos enquanto ele a encarava como se nunca houvesse realmente olhado para ela e, de repente, tivesse visto algo que lhe despertara
grande interesse.
   ? Seus papis, senhorita Fortune ? disse Nick, suavemente, entregando-os a ela. Uma mo magra e forte se estendeu, segurando-lhe o brao. Sobressaltada e aflita
pelo contato fsico entre eles, Caroline apenas esquivou-se quando ele tentou auxili-la a levantar.
   ? Obrigado, Dr. Valkov ? respondeu, o mais friamente que pde, amaldioando o fato de sua mo tremer enquanto ela enfiava o disquete no drive. Limpou a garganta,
nervosa. Determinada a ignorar Nick, iniciou sua apresentao. ? Como todos sabem, j consideramos vrios nomes para a frmula. Com base na campanha de marketing
que meu departamento desenvolveu, no entanto, este  o nome que sugerimos que vocs aprovem.
   Um clique no mouse trouxe sua apresentao ao monitor e, sobrepondo-se ao logotipo da Cosmticos Fortune, as palavras Rosto Fabuloso brilharam na tela.
   Instantes depois, o vdeo comeou a rodar, explicando o conceito da campanha de marketing e depois concentrando-se na propaganda pela mdia impressa e pela televiso.
O comercial de TV proposto comeava com um dose da irm de Caroline, Allison, top model da Cosmticos Fortune, enquanto uma voz baixa e sedutora perguntava: "Qual
o seu segredo?"
   Seguia-se ento a narrao descrevendo o novo produto enquanto mulheres de vrias idades e nacionalidades, modelos bonitas e de aparncia jovem, apareciam em
diversos cenrios, no trabalho e em situaes de lazer. Mais de uma delas tinha um homem alto e bonito a seu lado.
   Discretamente inserida em cada cena, aparecia a imagem do prprio produto, na embalagem atraente de vidro pesado, no estilo que trazia a assinatura da Cosmticos
Fortune.
   Sessenta segundos depois, o comercial terminava com uma voz, em off, anunciando: "Agora que j sabe o segredo dela, voc tambm pode ser um dos Rostos Fabulosos
da Fortune."
   Para deleite de Caroline, ao terminar o vdeo, a sala irrompeu em aplausos.
   ?  maravilhoso! ? Kate gritava, exultante. ? Precisamente o que queremos transmitir ao consumidor... que qualquer mulher que use nossa frmula pode ter um rosto
fabuloso!  isso!  exatamente como vamos chamar: Rosto Fabuloso! Sterling, anote a para registrar o nome imediatamente. Ah,  um comercial de televiso inteligente,
Caroline. Bonito, um pouco misterioso, nada clnico, embora voc consiga transmitir os pontos principais do produto... E os layouts para revista que voc projetou
so glamourosos e ao mesmo tempo p-no-cho. No vo fazer a mulher mdia sentir que um rosto fabuloso est fora de seu alcance. Estou absolutamente maravilhada...
e to orgulhosa de voc, Caroline! Um trabalho excelente! Continue assim!
   Mais ainda que o elogio da av, Caroline vibrou ao ouvir os cumprimentos do pai quando ele juntou-se ao coro, exultante. Jake tinha muita conscincia de sua funo,
tanto na famlia como na Cosmticos Fortune. Sabia que ele havia desistido de seus prprios sonhos para tomar conta da empresa, dedicando-se, resoluto, ao longo
dos anos, a fazer dela um tremendo sucesso. Como resultado, ele era exigente, tinha expectativas que, com freqncia, eram quase impossveis de cumprir. Caroline
entendia que ela sempre ocupara um segundo lugar no corao dele; era seu irmo mais velho, Adam, que Jake teria preferido ver na Cosmticos Fortune, sendo preparado
para ser o herdeiro.
   Mas Adam sempre fora diferente do pai e nunca quisera nada com os negcios da famlia. Aos dezoito anos, o irmo havia se rebelado e se tornado independente,
seguindo carreira militar. Aquilo havia sido uma amarga decepo para Jake. Desde ento, embora Caroline sempre tenha lutado para compensar a desero de Adam e
ganhar a aprovao do pai, hoje era a primeira vez que ela sentia que realmente tivera sucesso. Mais do que qualquer outra pessoa na empresa, ela pensava, Jake percebia
o quanto na frmula secreta da juventude provaria a culminao de tudo que Kate havia esperado conquistar na vida.
   Mais alguns minutos e a reunio foi encerrada, todos concordando que o novo produto estava sendo maravilhosamente tratado e muito prximo de se tornar realidade.
   ? Antes que saiam, quero lembrar-lhes que tudo que for associado  frmula da juventude deve permanecer estritamente confidencial ? Kate insistiu ao juntar as
cpias dos relatrios de apresentao de Nick e Caroline. ? Todos sabemos dos perigos da espionagem industrial e eu no quero que nenhum de nossos concorrentes oua
falar do Rosto Fabuloso at que ele entre no mercado. Com nossa descoberta, vamos acabar com eles! Posso sentir nos meus ossos. Ah, como eu adoraria ver a cara dos
concorrentes quando descobrirem! Eles vo ficar malucos! ? Kate deu uma risada e saiu da sala, seguida por Sterling e Jake.
   ? Kyle, preciso que voc venha ao meu escritrio por alguns minutos ? Caroline pediu depressa, evitando ser deixada sozinha com Nick Valkov. Mesmo assim, seu
corao se apertou ao pensar no que diria ao primo cabeudo. Ao longo dos anos, ela havia se habituado a ler nas entrelinhas das palavras da av. E, com pesar, Caroline
havia compreendido que as observaes aparentemente inocentes de Kate sobre Kyle haviam, na verdade, sido o modo sutil da av instru-la a demitir o primo.
   No fundo do corao, Caroline sabia que o que Kate dissera era verdade: Kyle no se ajustava  Cosmticos Fortune, no estava apto para o competitivo mundo corporativo.
Ele no apenas brincava mais do que trabalhava, mas tambm tivera vrias aventuras de uma noite com mais de uma das supermodelos que assinavam contratos exclusivos
e multimilionrios com a empresa.
   Recentemente, uma delas, Danielle Duvalier ? que competia at mesmo com a irm de Caroline, Allison, pelo reconhecimento de seu rosto e nome no mercado ? tinha
ficado to arrasada por seu rompimento com Kyle que quase sofrer um ataque de nervos. Caroline havia sido forada a envi-la para as Bahamas para se recuperar.
   O fato de Kyle ter adormecido na reunio daquela manh fora a gota d'gua. Assim, por mais que parecesse cruel para Caroline, ela percebia que tinha que se livrar
do primo. Agora que ela e Kyle entravam juntos no escritrio, ela se preparou para a tarefa desagradvel. Odiava demitir algum.
   ? Feche a porta e sente-se, Kyle ? ordenou enquanto pendurava o casaco no closet do luxuoso escritrio, cujas janelas amplas davam vista para as Cidades Gmeas
e o rio Missssippi, que separava Minepolis e Saint Paul, na confluncia com o rio Minnesota. Enquanto Kyle acomodava o palet e se sentava em uma das duas cadeiras
felpudas diante da mesa elegante, de cerejeira, em estilo Queen Anne, Caroline se sentava do outro lado da mesa, respirando fundo antes de falar. ? Kyle, voc sabe
que  um de meus primos preferidos ? ela comeou, e ele logo interrompeu com um sorriso largo e irnico.
   ? Mas no estou de acordo com suas expectativas, no ? Eu a decepcionei de diversas formas, especialmente dormindo na sala de reunio hoje cedo, e agora voc
tem que me demitir. No fique com esse ar de surpresa e constrangimento, Caro. Voc no  a nica que tem que lidar com vov e com o que ela quis dizer esta manh
com suas observaes sobre o meu carter. Para dizer a verdade, sabia que esse dia estava chegando. De certa forma, estou contente e aliviado. Poupou-me de pedir
demisso.
   Kyle fez uma breve pausa, passando a mo pelo cabelo queimado de sol, com um sorriso pesaroso, mas os olhos azuis srios.
   ? Sei que voc me deu uma chance, Caro, e, por voc, lamento que no tenha dado certo. Mas infelizmente vov estava certa. Eu no perteno mesmo  Cosmticos
Fortune. Estou comeando a acreditar que no perteno a lugar nenhum! Com franqueza, o fascnio por minha vida de luxo comeou a perder a graa algum tempo atrs.
Mas no consigo encontrar alguma coisa que valha mais a pena para substitu-la. Se voc quer saber a verdade, estou insatisfeito e entediado. Sinceramente, boa parte
do tempo eu tenho vontade de desistir de tudo e me esconder em algum lugar na selva, tomar-me um homem da montanha, algo assim.
   ? Bem, ento por que no faz isso? ? perguntou Caroline, as sobrancelhas franzidas de preocupao. ? O simples fato de ter dinheiro no significa que tenha que
ser um playboy a vida inteira, Kyle.
   ? Eu sei disso, Caro. Mas sei como ns, os Fortune, somos. Comeando pela vov, somos todos um bando de mimados, teimosos, cada um a sua prpria maneira determinado
a seguir o prprio caminho, por mais tolo que seja. Veja Adam, fugindo para entrar para o exrcito. Veja voc, escondendo-se atrs de culos de que no precisa e
se esquivando dos homens por causa daquele intil do Paul Andersen. Ah, no me leve a mal. No a estou criticando, Caro. Estou sendo solidrio. Deus sabe que tambm
no fui bem-sucedido no departamento amoroso ? Kyle falou, triste. ? Preciso sair menos, e voc precisa sair mais;  fato. Percebi que Nick Valkov pareceu estar
bem a fim de voc.
   Ao ouvir as palavras de Kyle, Caroline sentiu-se enrubescer mais uma vez. Censurou o primo com o olhar.
   ? Isto  ridculo! Ora, ele  to playboy quanto voc, Kyle. E podia ter a mulher que quisesse. Por que estaria interessado em mim?
   ? Bem, se voc tirar esses culos estpidos, soltar o cabelo e se olhar no espelho de vez em quando, Caro, voc saber.  to bonita quanto Allie! Voc bem poderia
ser um dos Rostos Fabulosos da Fortune.
   ? Ah!  muita delicadeza sua dizer isso, Kyle. Mas sabe que no  verdade.
   ? Ora, se voc no fosse minha prima, eu mesmo cairia na tentao. ? Ele lanou a ela o sorriso devastador que havia encantado e quebrado tantos coraes. ? H
sempre alguma coisa em torno de uma dama de gelo que faz com que um homem queira derret-la. Acredite, em mim. Nick Valkov no  exceo. Conheo os sinais. Ele
est interessado no desafio ? Kyle levantou-se, jogando displicente o palet sobre o ombro e enfiando uma das mos no bolso da cala. Debruou-se sobre a mesa para
beijar-lhe o rosto. ? Ento, por que voc no d uma chance ao homem. E no se sinta mal em me demitir. Voc me fez um favor. Nos vemos por a.
   Assobiando, Kyle saiu do escritrio, deixando Caroline a observ-lo enquanto refletia sobre suas palavras. Aps um longo momento, ela balanou a cabea, forando-se
a sair daquele devaneio. Kyle estava maluco. Nick Valkov tinha sido deliberadamente sarcstico com ela naquela manh. Ele no tinha qualquer interesse nela.
   Absolutamente nenhum.


   Captulo 2

   J havia escurecido quando Nick Valkov chegou  garagem de sua casa grande e elegante, situada num dos belos lagos alm dos limites da cidade de Minepolis. Apertou
o boto do controle remoto para abrir um dos portes e estacionou o Mercedes-Benz na garagem. Entrou em casa, levando consigo uma pasta executiva. Continha papis
do escritrio e a correspondncia que ele retirara momentos antes da caixa de correio.
   No salo, cujas janelas iam do cho ao teto e tinham uma vista panormica do lago, Nick tirou o pesado casaco de l, as luvas de couro, o palet e a gravata,
arremessando-os sobre uma cadeira. Em seguida, afrouxou o colarinho e serviu-se de uma dose de vodca Stolichnaya da garrafa de cristal Waterford no bar. Tomando
um gole, ele se acomodou em uma das cadeiras estofadas e abriu a pasta. Retirou a correspondncia e comeou a separ-la, largando para um lado o que era lixo e colocando
o resto em uma pilha.
   Ao se deparar com um envelope com o endereo do Servio de Imigrao e Naturalizao, ele parou por um instante e o abriu, para ler o que estava escrito. Surpreso,
no acreditou no que estava lendo. Xingou baixinho.
   ? No, isto no pode estar certo! Deve haver um erro em algum lugar! ? insistiu para si mesmo. Raiva e medo se debatiam dentro dele enquanto ele via todas as
suas esperanas, sonhos e planos para o futuro sumirem em fumaa, como se nunca houvessem existido.
   Ele havia sido considerado um estrangeiro indesejvel e seria deportado dos Estados Unidos! Enviado de volta  Rssia! Tinha que se apresentar ao escritrio do
SIN mais prximo, levando o passaporte e o visto de permanncia. As instrues eram acompanhadas de duras advertncias sobre as medidas legais que seriam tomadas
caso desobedecesse.
   Nick estava arrasado. Embora a carta no explicitasse nem dissesse claramente, dava a entender que ele havia sido identificado como um antigo agente da KGB. A
prpria idia era ridcula! Ele era um qumico, por sinal muito bom, e no um espio! Ainda assim, se permanecesse nos Estados Unidos, ele no tinha dvida de que,
na melhor das hipteses, enfrentaria uma batalha legal dispendiosa e demorada para provar sua inocncia.
   A idia de retornar a seu pas no o atraa de jeito nenhum. Desde a diviso da Unio Sovitica, a Rssia passava por um turbilho poltico. Apesar disso, Nick
sentia falta de sua terra natal, o que fizera com que Minnesota, com seus lagos congelados no inverno e um interior cheio de neve, o tivesse levado a se estabelecer
na rea das Cidades Gmeas. Mas ele no sentia nenhuma falta das constantes mudanas, fruto das lutas ideolgicas dos lderes do governo russo.
   Nick estendeu o brao, pegou o telefone e discou, ansioso, o nmero da linha particular de Kate Fortune no escritrio. Deixou o telefone tocar sem parar, mas,
no havendo resposta, tentou encontr-la em casa. Quando ela atendeu, ele mostrou-se aliviado.
   ? Kate? Aqui  Nick Valkov. Sinto muito incomod-la, mas aconteceu algo importante, e achei que voc gostaria de saber.  uma boa hora para conversar... ou voc
tem planos para esta noite?
   ? Na verdade, Sterling e eu amos ter um jantar tranqilo em casa, mas se for necessrio, posso pedir para que a empregada deixe para mais tarde ? ela fez uma
pausa, para logo em seguida continuar: ? Espere um momento, Nick, vou avisar Sterling, para que ele d as instrues  senhora Brant. ? Ela abafou o bocal do telefone
enquanto chamava Sterling. Ento falou de novo com Nick. ? Pois no, conte o que est acontecendo.
   Ele explicou-lhe sobre a carta do SIN:
   ? Nem preciso dizer que estou muito chateado com isso, Kate... Sem contar que estou totalmente desconcertado. No consigo imaginar de onde o SIN tirou essa idia
de que sou um antigo agente da KGB!  claro que eu fiz pesquisa para o governo... mas nunca nada de natureza sensvel. Naquela poca eu era, e ainda sou, firmemente
contra armas qumicas, e nunca ajudei nem vou ajudar qualquer governo a desenvolver qualquer coisa desse tipo. Mesmo assim, suponho que seja possvel que algum
tenha uma noo equivocada de que eu ajudei meu pas nessa rea, confundindo meu trabalho com alguma operao secreta da KGB. De qualquer forma, por causa de meu
envolvimento com Rosto Fabuloso e pela importncia que isso tem para voc, achei que seria melhor inform-la imediatamente. -Nick suspirou forte enquanto estendia-se
para alcanar o palet e retirava do bolso interno um mao de cigarros Player. Sacudindo-o para tirar um, ele o acendeu, dando uma tragada forte, soprando em seguida
uma nuvem de fumaa no ar.
   ? Pensei que voc fosse parar de fumar ? repreendeu-o Kate como uma me protetora ao ouvir o som de sua respirao ofegante.
   ? Bem, eu ia. Quero dizer... eu vou. Mas dane-se, Kate! A carta do SIN me deixou tenso. No quero voltar para a Rssia... e certamente no quero perder meu cargo
na Cosmticos Fortune por estar to envolvido numa batalha judicial que no consiga fazer meu trabalho!
   ? Voc no precisa se preocupar com isso, Nick. Est to perto de concluir minha frmula secreta que pode ter certeza de que no tenho inteno de deix-lo escapar.
Temos apenas que encontrar uma forma de driblar o SIN, s isso.
   Abafando o fone com a mo novamente, Kate chamou:
   ? Sterling! Pegue a extenso para acompanhar nossa conversa. O SIN acha que Nick  um antigo agente da KGB e esto tentando deport-lo... Mas no vou perder meu
principal qumico. No somente ele  muito valioso para a empresa, como tambm no posso deixar que ele escape com todo o conhecimento que tem sobre o Rosto Fabuloso
? declarou Kate, tirando a mo do bocal. ? Algum governo estrangeiro pode agarr-lo e roubar minha frmula e transform-la num creme para envelhecer. Ento, mulheres
no mundo inteiro vo ver a pele enrugando em vez de suavizando... o que certamente desencadearia a Terceira Guerra Mundial! Nick acabou rindo.
   ? Est certo, Kate ? ele concordou. ? E tudo uma trama diablica. E por isso que no tenho esposa nem namorada firme. Estou planejando ser um dos homens de sorte
que sobrevivem ao ataque dessas mulheres enfurecidas.
   ? Mas,  claro,  exatamente disso que voc precisa, Nick ? Sterling falou na extenso, incluindo-se na conversa. ? No de uma mulher enraivecida, mas de uma
esposa. Seria a soluo para todos os seus problemas.
   ? Uma esposa! ? exclamou Nick. ? Ora, por que eu iria querer uma, Sterling?
   ? Porque casado com uma cidad americana, mesmo se voc fosse um espio da KGB, o SIN no poderia fazer nada contra voc. Ficaria legalmente no pas, no precisaria
de um carto de residente, e eles no poderiam deport-lo. Esta  a lei ? esclarecia o advogado.
   ? E da? Ser que tenho que pegar uma mulher na rua e pedi-la em casamento? ? ironizou Nick. ? Certamente voc no imagina que o SIN vai acreditar que, aps receber
uma carta deles, eu me apaixonei de repente e encontrei uma esposa. Vo saber que  armao.
   ? Concordo ? disse Kate, as engrenagens de sua mente trabalhando furiosamente. ? E por isso que precisamos tratar disso com muito cuidado e mant-lo em segredo
tanto quanto possvel... Deixar s em famlia, por assim dizer.
   ? No que voc est pensando, Kate ? ? indagou Sterling, desconfiado. Ele a conhecia h muitos anos, e sabia como sua mente funcionava; assim, ao fazer a pergunta,
j tinha uma pista de onde ela estava com a cabea.
   ? Estou pensando que temos vrias belas netas, muitas delas solteiras... E que pelo menos duas, Caroline e Allison, trabalham para a Cosmticos Fortune. Bem,
Allison no  muito discreta, ento no acho que seja uma boa opo. Mas Caroline... Caroline sempre foi avessa  publicidade. Ela , como vocs sabem, diretora
de marketing na Cosmticos Fortune... e intimamente envolvida no desenvolvimento do Rosto Fabuloso. No  casada. E hoje de manh no me pareceu que voc tivesse
algo contra ela, Nick.
   Nick no sabia o que dizer. Sentiu como se estivesse sonhando. Chegou a balanar a cabea para afastar o sonho, mas no acordou. A idia de se casar com Caroline
Fortune, e com a bno de Kate, parecia to fantstica que no podia ser real.
   Aquela manh no havia sido a primeira vez que ele reparava em Caroline. Mas, como fizera hoje, ela sempre havia rejeitado suas tentativas de galanteio, evitando
que ele fosse alm.
   Nos corredores do prdio da Cosmticos Fortune, ela era conhecida pelas costas como Dama de Gelo. Representava um desafio para qualquer homem. Desde seu caso
desastroso com Paul Andersen, ela no deixara nenhum homem aproximar-se.
   ? Nick ? a voz de Kate o trouxe de volta do devaneio. ? Voc no disse nada. Acha a idia de casar-se com minha neta Caroline to desagradvel que no consegue
responder, com medo de me deixar ofendida?
   Ele limpou a garganta, deu uma longa tragada no cigarro.
   -No... bem... No, Kate. Entre outras coisas, Caroline  adorvel, criativa, inteligente... E a maioria dos homens se sentiria sortudo em t-la como mulher.
Mas... bem, o relacionamento dela com Paul Andersen no passado  conhecido por todos na empresa, bem como o fato de que, desde ento, ela mantm os homens a uma
considervel distncia. No consigo imaginar que ela concorde com essa idia louca.
   ? Bom, no saberemos se no perguntarmos a ela. O importante no momento  saber se voc est disposto a considerar a hiptese, Nick. Usando suas prprias palavras
sobre Caroline, voc  bonito, criativo, inteligente... E a maioria das mulheres se consideraria sortuda em ter voc. Mas, pelo que ouo, voc no pra muito com
uma mulher s. E,  claro, isto deixar de ser uma opo se voc se casar com minha neta. ? O tom agradvel, mas firme de Kate deixou claro que ela esperava que
Nick tratasse Caroline com todo respeito e considerao devidos a uma esposa, mesmo que seu casamento fosse por convenincia, e no por amor.
   ? Claro. Se eu concordasse em me casar com Caroline, faria isso com toda a inteno de me estabelecer e fazer o que  certo, Kate. ? Nick ficou indignado que
ela pensasse que seria diferente. ? Eu apenas no sei se  uma boa idia, s isso. Caroline e eu quase no nos conhecemos, o que  uma pena.
   ? Bem, por que voc no pensa um pouco, Nick? Pense sobre o assunto e me informe sobre sua deciso amanh de manh. Nesse meio tempo, vou pedir que Sterling verifique
as diversas questes legais envolvidas. Afinal, no faz sentido considerar a idia se o SIN puder depois declarar que o casamento  uma farsa e deport-lo de qualquer
maneira. Tambm falarei com Jake, para que ele saiba o que est acontecendo. A primeira coisa que eu quero que voc faa quando chegar ao escritrio amanh de manh,
Nick,  cancelar sua agenda para encontrar-se com Sterling e comigo, e possivelmente tambm com Jake e Caroline.
   ? timo. Acho que est bem ? respondeu Nick, embora gemesse por dentro, achando aquilo tudo um "esquema leviano". Como podia pedir a Caroline Fortune que se casasse
com ele somente para salvar sua permanncia nos Estados Unidos? Lembrou-se do ar gelado com que ela olhara para ele aquela manh, e como tranqilamente tentara coloc-lo
em seu devido lugar. Ela nunca aceitaria.
   Nem em um milho de anos.


   Captulo 3

   Caroline no conseguia acreditar na conversa que estava tendo no luxuoso escritrio da av na cobertura do prdio da Cosmticos Fortune. Achou que s podia estar
imaginando estar ali ouvindo Kate tranqilamente explicar os problemas de Nick Valkov com o SIN bem como o que parecia para todos ser a nica soluo prtica ? para
todos, menos para ela.
   Caroline pensou, consternada, que sua av estava se tornando senil, que certamente estava perdendo a razo. A idia de que ela, Caroline Fortune, se casaria com
Nick Valkov era ridcula. Ela estava surpresa e constrangida que sua av tivesse sugerido isso. A expresso e o tom de Kate, indicando claramente que ela esperava
que Caroline colaborasse, a encheram de pnico.
   Por baixo dos longos e grossos clios negros, Caroline deu uma olhada discreta em Nick. Para sua surpresa e alvio, ela viu que pelo menos ele no estava sentado
ali com um sorriso largo, zombando dela, como havia feito na manh anterior. Agora, ele parecia to pouco  vontade quanto ela. Caroline no sabia se demonstrava
solidariedade ou indignao ao perceber que ele nitidamente no estava entusiasmado com a idia de tornar-se seu marido. Apesar da certeza de no querer ser sua
esposa, ela sentiu um mal-estar ao ver que ele no queria se casar com ela, embora, como incentivo para que ele concordasse com o esquema, o pai dela tivesse oferecido
um generoso aumento de salrio e um bnus de seis dgitos no dia do casamento.
   O dia do casamento, pensou Caroline, com uma pitada de amargura. O acordo de casamento, era o mais adequado. Porque era exatamente isso: um acordo comercial,
puro e simples. A av e o pai dela estavam pagando Nick Valkov para se casar com ela, para que ele no se envolvesse numa longa batalha judicial com o SIN e no final
fosse deportado, sem conseguir concluir a frmula da juventude, que era de importncia vital para a Cosmticos Fortune.
   Ora, de certa forma, era pior do que se tivesse se casado com Paul Andersen! ? dizia Caroline a si mesma. Pelo menos Paul tinha algum sentimento por ela, preocupara-se
com ela, tanto quanto era capaz disso, mesmo que realmente tivesse amado mais o dinheiro do que a ela.
   ? Caroline... Voc quase no disse nada ? observou Kate, no sem um tom de afeto e compaixo na voz.
   Ela sabia que devia ser difcil para a neta ser colocada numa posio to desagradvel. Ainda assim, Kate pretendia continuar pressionando-a para aceitar o casamento
proposto. No havia escapado  percepo da velha senhora o quanto sua neta se recolhera socialmente aps o rompimento de seu noivado com Paul Andersen, e como ela
tinha, como uma vingana feroz e determinada, se lanado ao trabalho, afastando-se de todos os homens.
   Caroline tinha agora vinte e nove anos... e no ia ficar mais jovem, pensava Kate com ironia, ao mesmo tempo ansiosa e exasperada com a idia de que sua neta
estava perdendo tudo o que a vida tinha a oferecer. No que a velha senhora quisesse se intrometer nos assuntos da jovem, mas ela sentia que Caroline poderia fazer
um esforo na direo certa ? assim como Nick Valkov. Ele estava em sua melhor forma e devia estar pensando em ter uma esposa e filhos.
   Kate queria que todos a sua volta fossem felizes como ela era; e para ela, felicidade inclua ter um parceiro com quem dividir todos os altos e baixos da vida.
   ? Caroline? ? disse, esperanosa.
   ? Perdoe-me, vov ? Caroline saa, nervosa, de seu devaneio. Ela queria poder falar com sua me, mas Erika Fortune estava fora da cidade pelo resto da semana.
? Acho que no falei muito porque francamente estou perdida demais para saber o que dizer.  claro que eu sinto muito pelas dificuldades de Nick com o SIN. Mas no
posso acreditar que no haja outra soluo para o problema dele.
   ? O problema  que realmente no h, Caroline ? dizia o pai, Jake, ponderado. ? Caso contrrio, eu no teria concordado com essa idia de casamento de mame e
de Sterling porque  a idia mais maluca que eu j ouvi. Mas voc pode entender como a deportao de Nick, a essa altura, afetaria a Cosmticos Fortune, Caro. Investimos
anos e milhes de dlares na pesquisa dessa frmula. Perder Nick agora que estamos to perto de ter o produto seria um golpe devastador. E,  claro, estamos falando
em casamento somente no papel. Uma vez que tenha passado tempo suficiente e o SIN tenha perdido interesse em Nick, voc e ele podem se divorciar, e ser o fim de
tudo isso.
   Ao sentir que lhe subia um rubor pelo rosto ? e no pela primeira vez ? , Caroline xingou-se em silncio pelo fato de enrubescer to facilmente. As palavras do
pai sobre um casamento com Nick s no papel criavam, inadvertidamente, imagens opostas em sua mente. Ela se imaginava com Nick, nus e fazendo amor. Tinha esperana
de que ele no pudesse ver dentro de seu crebro. Mas, pelo brilho sbito e especulativo nos olhos dele, suspeitou que ele soubesse no que ela havia pensado. E,
pior, suspeitou que ele houvesse pensado a mesma coisa.
   Porque, naquele momento, como se realmente tivesse lido seus pensamentos, Nick perguntou:
   ? Bem, senhorita Fortune, o que voc diz? Ser responsvel por me enviarem de volta  Rssia ou no? Tudo o que eu preciso  de uma resposta simples. Voc se
casa comigo? Sim ou no? E ento poderemos todos voltar ao trabalho... E, uma vez que eu possa no ter tanto tempo quanto imaginei para terminar Rosto Fabuloso,
isso parece muito til nas atuais circunstncias.
   Caroline engoliu em seco, o corao aos pulos, a palma da mo suando. Todos esperavam v-la concordar em se casar com Nick.
   ? Sterling, no existe realmente outra maneira? ? perguntou ela, hesitante, umedecendo os lbios secos com a lngua.
   ? No, no que eu consiga ver ? o advogado respondeu, balanando a cabea, solidrio, os olhos cheios de compreenso.
   ? Bem, ento, suponho que, com tudo o que est em jogo, no tenho alternativa seno dizer sim a esse esquema maluco ? respondeu Caroline, devagar. ? Sei, vov,
o quanto a frmula da juventude significa, tanto para voc quanto para papai e para a Cosmticos Fortune. Certamente no quero ver todo o rduo trabalho de vocs
desperdiado. E, afinal de contas, no  como se fosse um casamento mesmo... Quero dizer, no no sentido verdadeiro da palavra ? a voz dela foi sumindo, confusa.
   ? Muito obrigado, Caroline. Eu sabia que podia contar com voc ? Kate sorriu e abraou a neta com ternura, antes de se virar para os demais na sala. ? Sterling,
Jake, por que no vamos ns trs a outro lugar para discutir todos os arranjos necessrios? ? ela sugeriu cautelosa. ? Assim damos a Caroline e Nick um tempo a ss.
Sei que eles devem ter coisas a discutir entre eles. ? Ela olhou pensativa para o casal, agora oficialmente comprometido. ? Veremos os dois mais tarde.
   Momentos depois, Caroline e Nick estavam sozinhos no escritrio, ela mexendo na saia, nervosa, incapaz de olhar nos olhos dele, incapaz mesmo de acreditar que
aquilo tudo estava acontecendo, que era real.
   Nick se tomaria seu marido. Ela pensou que s podia estar louca em consentir num plano daqueles. Vises repentinas da noite do casamento lhe vinham  mente, e
uma dvida lhe causava ansiedade. Afinal, o que ela realmente sabia sobre Nick Valkov, a no ser que ele era um qumico brilhante?
   Embora a Cosmticos Fortune procedesse a uma verificao minuciosa no passado de seus executivos, e se o SIN estivesse certo e ele realmente fosse um antigo agente
da KGB? E se, uma vez que pusesse a aliana no dedo dela e o bnus em dinheiro em sua conta bancria, ele decidisse no manter sua parte no acordo, decidisse que
queria exercer seus direitos de marido?
   A imaginao de Caroline era frtil, provocando uma contuso em suas emoes.
   ? Eu... sei que isto no deve estar sendo fcil para voc, senhorita Fortune ? disse Nick, quebrando o silncio que se formava, pesado, entre eles. ? E eu quero
aproveitar a oportunidade para lhe agradecer por ter concordado em ajudar com minhas dificuldades.
   ? Caroline... meu nome  Caroline ? ela lembrou, com suavidade. ? Se vamos nos casar, voc no pode continuar me chamando de senhorita Fortune. Seno, o SIN saber
que h algo errado, que nosso casamento  uma farsa... E a ter sido tudo em vo, no  mesmo?
   ? Sim, claro, voc tem toda razo. Caroline, ento. E eu sou Nick ? ele interrompeu-se por um instante, como se precisasse organizar os pensamentos. Em seguida,
continuou: ? Sejamos inteiramente honestos um com o outro. Isso no  o que nenhum de ns dois deseja e  uma situao muito constrangedora para ambos. Mas existem
meios de facilitar as coisas.
   ? Por exemplo?
   ? Bem, para comear, podemos tirar um tempinho para nos conhecermos melhor. Seremos marido e mulher, e, embora no sejamos amantes, gostaria de pensar que podemos
ser pelo menos amigos enquanto durar o nosso casamento. Segundo, existem algumas questes que devemos logo levar em conta. Gostaria que nos casssemos ainda esta
semana, j que, por razes bvias, tenho pressa e no posso me dar ao luxo de esperar enquanto planejamos um grande casamento que sair em todos os jornais e acabar
por atrair a ateno do SIN. Tenho certeza de que uma ida rpida ao cartrio no  o que voc imaginava para o seu casamento, mas, dadas as circunstncias, sei que
vai concordar que  o melhor. Tambm temos que pensar onde vamos morar, se voc deve se mudar para a minha casa ou eu para a sua.
   ? Tudo est acontecendo to de repente, de modo to inesperado que eu... eu realmente no pensei em nada -confessou Caroline, levantando-se da cadeira e dirigindo-se
s janelas. Olhou cegamente para fora, ainda tomada por uma sensao de irrealidade. ? Claro que acho que devamos pelo menos tentar ficar amigos e sim, o cartrio
e esse... esse fim de semana... ser... bom, creio eu. No havia... no havia me dado conta de que nos casaramos to cedo, mas suponho que  melhor para assegurar
sua posio contra o SIN. Quanto a... morar juntos, tenho um apartamento na cidade, que no  longe da Cosmticos Fortune. No  grande, mas  bem conveniente.
   ? Por voc, acho que deveramos considerar privacidade e no proximidade. Sugiro que voc se mude para a minha casa ? respondeu Nick, levantando-se e aproximando-se
dela nas janelas. ? Tem bastante espao, ento no ficaremos um em cima do outro. Alm do mais, se o SIN decidir investigar nosso casamento, provavelmente ter mais
credibilidade se dissermos que mantivemos seu apartamento porque ambos trabalhamos at tarde na Cosmticos Fortune e precisvamos de um lugar para passar a noite
na cidade em certas ocasies do que se dissermos que mantivemos a minha casa como um retiro para o fim de semana.
   ? Tudo bem ? Caroline finalmente conseguiu coragem suficiente para se virar e olh-lo nos olhos. ? Dr. Valkov... Nick, tenho que me desculpar com voc. Tenho
estado to ocupada pensando em mim mesma que somente agora me dei conta de que no deve ser mais fcil para voc do que para mim. No entanto, voc procurou me deixar
 vontade, e eu lhe sou grata por isso. Quero que saiba que no vou interferir em sua vida mais do que o necessrio, e espero que faa o mesmo por mim.
   ? Combinado ? ele sorriu para ela, mas o sorriso no alcanava seus olhos escuros, que, para surpresa de Caroline, estavam cheios de preocupao por ela. ? No
entanto, para enganar o SIN, realmente precisamos apresentar uma fachada slida e criar uma histria de como nos apaixonamos aqui no trabalho at ficarmos juntos.
Graas aos cus voc  uma mulher to sensata, prudente e reservada, Caroline. Talvez possamos sugerir que voc no queria muita ostentao nem a ateno que um
casamento da alta sociedade atrai, e por isso escolhemos nos casar no cartrio.
   Inesperadamente, ela sentiu uma sensao incmoda com a descrio de Nick de sua personalidade. Tentou dizer a si mesma que no era importante o que ele pensava
sobre ela. Mas, de certa maneira, no conseguiu controlar.
   Sensata. Prudente. Reservada. Era mesmo daquela maneira que ele a via? Era daquela maneira que todo mundo a via?, Caroline se perguntava, aflita.  claro que
sim. Ela sabia que, pelas suas costas, os empregados da Cosmticos Fortune se referiam a ela como a Dama de Gelo.
   No pela primeira vez, ela constatou que certamente isso no a fazia parecer divertida, o tipo de mulher que um homem gostaria de ter com ele. Antes, ela no
se importava; no queria um homem em sua vida. Mas agora, gostasse ou no, ela seria a esposa de Nick.
   ? Eu... suponho que no sou mesmo o tipo de mulher por quem voc normalmente se sente atrado.
   ? Na verdade, eu a acho muito atraente, Caroline ? declarou Nick, tranqilo. ? S acho que  um pouco retrada. No entanto, tenho certeza de que no  nada com
que eu no possa conviver, que no possamos lidar com isso juntos. Afinal, somos ambos adultos, e como disse antes, minha casa tem espao suficiente para ns dois.
Ento, por que no damos uma passada l mais tarde? Assim, voc pode dar uma olhada, decidir que quarto prefere. Da podemos comear a fazer a mudana.
   ? Isto est acontecendo realmente, no est? Ns vamos mesmo nos casar? ? Caroline sorriu, tentando aclarar a questo. ? De certa forma, fico esperando acordar
e descobrir que  tudo um sonho.
   ? Eu sei. Sinto a mesma coisa ? admitiu Nick, passando a mo pelo cabelo. ? Mas, sim,  real, e juntos teremos que fazer tudo da melhor maneira. E vamos fazer,
Caroline. Prometo ? ele parou por um instante, respirou fundo, e em seguida sorriu de novo para ela. Desta vez, um sorriso largo e brincalho que, sem que ela pudesse
controlar, conseguiu disparar-lhe o corao. ? E agora suponho que o melhor que fazemos  trabalhar. Tenho uma tonelada de coisas a fazer no laboratrio para tornar
a frmula de sua av um sucesso.
   ? Se no se importa, Nick, gostaria de ficar sozinha um pouco para me acostumar melhor  situao, ter uma perspectiva. Ento, continue. E quando estiver pronto
para voltar para casa, d um toque no meu escritrio. Mandarei a secretria cancelar minha agenda pelo resto do dia, ento ficarei  sua disposio.
   ? Bem, tenho que admitir que gosto da idia ? disse ele, impertinente, mais uma vez com um sorriso largo e malicioso, sem se importar com a sbita irritao e
o rubor de constrangimento da moa. ? Mas que diabo! nimo, Caro. Afinal, no  todo dia que uma pessoa fica noiva. Alm do mais, poderia ser pior. O SIN poderia
estar tentando deportar Otto! ? Otto Mueller era seu assistente no laboratrio, aptico, atarracado. Ento, antes que Caroline percebesse o que Nick pretendia, ele
inclinou a cabea para esfregar os lbios dela rapidamente em seus prprios lbios. ? Desculpe. No pude resistir. Tinha que saber se voc tinha ou no gosto de
po doce! ? ele insistiu, antes de agarrar sua pasta e sair do escritrio.
   Caroline ficou ali olhando fixamente para ele, perplexa, mordendo a lngua para conter a pergunta que saa involuntariamente: "Bem, e tenho?" Sem querer, levou
a mo at a boca. Seus lbios estavam quentes pelo beijo dele. Ao perceber aquilo, ela balanou a cabea, resoluta, para clare-la.
   O que ela estava pensando? Realmente, ele era um homem impossvel! Qualquer preocupao ou solidariedade que ela achasse que ele poderia sentir por ela era obviamente
uma tentativa de esconder seu verdadeiro carter, para que ela concordasse em se casar com ele.
   Como poderia levar adiante esse casamento?, Caroline se perguntava, dividida. E como poderia no prosseguir com ele? Sua av, seu pai e a Cosmticos Fortune contavam
todos com ela. Ela no podia deix-los na mo, no poderia virar-lhes as costas e se mostrar uma decepo, como o irmo dela, Adam, havia feito.
   No; gostasse ou no, ela no tinha alternativa seno casar-se com Nick Valkov. Suspirou com fora. Esse no era o casamento de seus sonhos, o que ela havia imaginado
para si desde que era uma garotinha. Havia desejado um marido amoroso, filhos.
   Seus olhos se perdiam no elegante pedestal de mrmore num canto do escritrio da av. Da coluna, erguia-se um pequeno e esbelto brao de alabastro. Em seu pulso
havia um bracelete de prata, herana da famlia, composto por minsculas contas e um corao delicado. Era bastante valioso e acreditava-se ter pertencido a uma
das grandes rainhas da Histria. Mas no era por esse motivo que Caroline sempre havia amado aquela pea. Era porque, para ela, aquilo de alguma maneira simbolizava
tudo que a vida devia ser: a construo do conhecido lar feliz com lareira, a passagem da tocha de uma gerao para a prxima.
   Ela tinha vinte e nove anos... e ouvia o relgio biolgico batendo. Quanto tempo perderia casando-se com Nick Valkov, tempo que poderia usar procurando um marido
de verdade, que a amasse e lhe desse filhos? Quanto tempo ela j havia desperdiado, enterrando-se no trabalho e afastando-se de todos os homens? Havia sido uma
tola, Caroline se dava conta agora. Mas era tarde demais para voltar atrs; ela no podia reviver o passado.
   Tinha que ter feito como o pai dela, deixado de lado os prprios sonhos para o bem da famlia. Resoluta, ela endireitou os ombros com determinao e saiu do escritrio
da av.


   Captulo 4

   Quando, mais tarde, Nick ligou para o escritrio dela, Caroline ficou aliviada. Estivera apreensiva e ao mesmo tempo ansiosa pela ligao dele o dia inteiro e
quase no conseguira se concentrar no trabalho. Por conta disso, resolvera muito pouca coisa, e sabia que no fazia sentido continuar a perder tempo  mesa de trabalho.
   ? Estou indo busc-la em seu escritrio ? disse Nick. -Acho que precisamos ser vistos juntos porque se o SIN comear a sondar por aqui, interrogando empregados,
pelo menos descobriro alguns sinais de que vimos tendo um caso discreto... e talvez acreditem que estamos to excitados que vamos nos casar. Ento, certifique-se
de que sua secretria esteja a.
   ? Est bem ? Caroline concordou, sabendo que o plano dele era lgico, mas ainda relutante em adot-lo. Ela havia sido objeto de fofocas na Cosmticos Fortune
durante todo seu relacionamento com Paul Andersen e odiava pensar em s-lo novamente. Havia feito o que podia para deixar o passado para trs. ? Nos vemos em alguns
minutos ? em vez de desligar o telefone, ela discou o ramal da secretria. ? Mary, tenho aqui umas cartas que precisavam da minha assinatura, por favor venha busc-las.
   ? Certo. J estou indo ? respondeu a secretria, jovem e empolgada.
   Alguns momentos depois, Mary apareceu  porta. Em vez de entregar-lhe as cartas imediatamente, Caroline fingiu que estava separando alguns papis na mesa desarrumada,
conversando com a secretria e sentindo-se uma boba por engan-la, atrasando-a at que Nick chegasse. Caroline ficou feliz quando ele finalmente apareceu.
   ? Caro, meu benzinho... Ah, no sabia que voc no estava sozinha, senhorita Fortune ? disse ele, constrangido, ao enfiar a cabea pela porta, fingindo-se confuso
e desconfortvel.
   Ele o fez to bem, e parecia ter tanta prtica em subterfgios que, por um instante, Caroline no pde evitar de se perguntar se o SIN no estava certo e Nick
realmente era um antigo agente da KGB. Logo deu-se conta de como a idia era ridcula.
   Porque se fosse, certamente no teria vindo para os Estados Unidos e aceitado um emprego como qumico numa empresa de cosmticos. Ele teria procurado um cargo
em algo como uma empresa de eletrnicos ou de aviao, ou como funcionrio do governo ou poltico, para ter acesso ao tipo de informao que seria valioso para governos
estrangeiros e terroristas no mercado aberto.
   As indstrias de cosmticos concorrentes podiam estar interessadas em descobrir que a Cosmticos Fortune chamaria seu novo tom de batom e esmalte de unhas vermelhos
de Cerejas Marasquino, mas Caroline no podia imaginar que mais algum pagaria caro por aquela informao, ou que isso atrasse a ateno de um agente secreto.
   Respirando fundo, ela se forou a jogar o mesmo jogo que Nick havia inventado, muito consciente do sbito interesse nos olhos brilhantes de Mary ao olhar para
os dois.
   ? Nick... Dr. Valkov, j estou indo ? entregando a Mary as cartas, Caroline prosseguiu sem precisar fingir a expresso de constrangimento em seu rosto: ? Obrigado,
Mary. No tem mais nada
   ? Sim, senhorita Fortune ? a jovem secretria se retirou, fechando com firmeza a porta, embora no sem antes lanar por sob os clios um olhar adorvel e convidativo
de flerte para Nick. Como se ele fosse alguma estrela de cinema rico, bonito e famoso, Caroline pensou, desgostosa e irritada.
   ? Bem, acho que voc no precisa se preocupar de seu plano no dar certo, Nick ? declarou, cida, como uma forma de cumprimento. ? Tenho certeza de que, at amanh
 tarde, Mary ter espalhado por todo o prdio o boato de que eu e voc estamos tendo um caso! Sinceramente, voc tem que me chamar de "Caro, meu benzinho"?
   ?  claro ? um sorriso desrespeitoso marcava-lhe o rosto, provocando estranhas reaes em Caroline. ? Seria assim que a chamaria se voc e eu estivssemos envolvidos.
Quero dizer, ouvi Kyle e Allie se referindo a voc pelo apelido, Caro. Na verdade, eu gosto... e acho que combinaria bem se voc se soltasse mais... no sentido figurado
e no literal! ? Seus olhos danavam, ao examin-la. Ento, balanando a cabea e mostrando indiferena ao olhar reprovador que ela lhe dava em resposta, ele continuou:
? Alm do mais, que mal faz um pouco mais de lenha na fogueira? Ainda est no ar o burburinho por voc ter demitido Kyle ontem. No  verdade?
   ? Sim... e eu aposto que, com o que Mary dir amanh de manh, logo todos estaro dizendo que a sada de Kyle de alguma maneira est ligada ao nosso relacionamento!
-A idia causava uma irritao sem limites em Caroline. ? E a verdade  que vov estava certa. Ele no estava mesmo apto a uma vida na empresa. E se estamos fazendo
esse casamento para salvar seu trabalho, devo insistir que pare de fazer essas observaes negativas sobre minha aparncia pessoal e meu carter. S porque prefiro
no me vestir como uma extravagante roqueira punk e me comportar como uma Poliana socivel e animada, isso no significa que sou a Dama de Gelo arredia como todo
mundo fala pelas minhas costas!
   Caroline estava to alterada que praticamente gritava... Ela, que nunca levantava a voz, que sempre lidava com todos e com tudo de forma to tranqila. Ela no
conseguia acreditar naquilo. No sabia, qual era o seu problema, como havia chegado a ponto de perder tanto o controle no espao de poucos minutos.
   Alm do constrangimento e do choque, havia o fato de Nick no parecer nem um pouco perturbado com a exploso dela. Em vez disso, os olhos dele brilhavam de entusiasmo,
e sua boca esboava um sorriso que estranhamente parecia de satisfao.
   Pela segunda vez em poucos dias, ela conteve a nsia de lhe dar um tapa e arrancar-lhe aquele ar de sarcasmo.
   ? Bem, parece que realmente existe fogo por baixo do gelo ? ele falou, de um modo desconcertante. ? E pensar que todo esse tempo eu achei que voc tivesse um
fusvel de combusto lenta, Caro. Dou a mo  palmatria ? dirigindo-se ao closet do escritrio, ele abriu a porta e retirou o casaco, entregando-o a ela. ? Vamos,
minha furiosa futura noiva?
   Irritada e nervosa, Caroline abriu a boca para fazer um comentrio custico, mas em seguida fechou-a com esforo, sabendo, por instinto, que nada do que dissesse
poderia sequer arranhar a armadura de Nick. Ele era um mestre no duelo de inteligncia entre homem e mulher... E ela, no mais que uma novata. No podia esperar
competir com ele nessa arena.
   Perceber isso deixou-a perturbada. Ela estava acostumada a ser melhor do que a maioria, no importa no que se propusesse. Era irritante pensar que, em Nick Valkov,
talvez tivesse encontrado algum  altura.
   Virou as costas para ele bruscamente e comeou a enfiar o casaco, mas ele envolveu-a com os braos para ajud-la a vesti-lo. Por um instante, apesar do quanto
tentava se desviar dele, Nick a manteve de encontro a seu corpo duro e magro. Contra a vontade dela, o contato fsico e o calor dele fizeram seu corao disparar.
Ele inclinou a cabea sobre a nuca dela, inalando profundamente.
   ? Appassionato ? ele identificou corretamente o perfume caro da Fortune que ela usava. ? Uma frmula feita de jasmim, gardnia, lrio, rosa, vetiver, almscar
e algumas outras essncias inebriantes, garantia certa de enfeitiar uma besta selvagem ? a voz dele era baixa e rouca no ouvido dela.
   ? Voc quer dizer "amansar uma besta selvagem"? -Caroline perguntou.
   ? No, no quero. ? Ele a soltou e deslizou a mo sob o cotovelo dela para acompanh-la pela sada do escritrio. ? Ainda  cedo. Se nos apressarmos, no pegaremos
o trnsito da hora do rush ? comentou ele enquanto passavam por Mary, que os observava discretamente de sua mesa, at entrarem num dos elevadores que os levaria
at a garagem. ? Iremos no meu carro ? anunciou Nick, imperioso.
   ? No, no h necessidade ? protestou Caroline. -Posso segui-lo no meu prprio carro. Isto lhe poupa o trabalho de ter que voltar  cidade sem necessidade.
   ? Eu no me importo. Alm do mais, essa volta de carro nos dar uma chance de comearmos a nos conhecer melhor ? Nick destrancou o carro e abriu a porta do carona
de seu Mercedes-Benz lustroso, ajudando-a a entrar. Ento, reclinando-se sobre ela, apertou o cinto de segurana. ? No quero que lhe acontea nada ? ele explicou,
petulante. -Esposas no nascem em rvores, voc sabe... E eu tenho medo de pensar que terminar com algum como Agnes Grimsby me faria agradecer ao SIN por me deportar!
   Agnes Grimsby trabalhava no refeitrio da empresa e era o equivalente feminino de Otto Mueller. Caroline no pde conter o riso com a imagem de Agnes e Nick juntos.
   ? Na verdade, acho que voc e Agnes fariam um casal adorvel ? insistiu ela, fazendo o melhor que podia para manter uma expresso firme quando, aps abrir sua
prpria porta, Nick deslizou para o assento ao lado. ? Eu teria prazer em dizer a ela que voc est interessado...
   ? Nem pense nisso, ou eu farei questo de ver voc com o velho Otto, seguindo-a como um cozinho fiel. ? Enfiando a chave na ignio, Nick ligou o carro, tirando-o
da vaga que lhe era reservada. Alguns minutos depois, o Mercedes-Benz seguia pela estrada, dirigindo-se a oeste da cidade. Nick ligou o rdio e msica clssica comeou
suavemente a sair dos alto-falantes. ? Ento... qual a sua cor preferida? ? ele perguntou.
   ? Lils, por qu?
   ? Porque esta pode ser uma das coisas que o SIN ir nos perguntar se decidirem investigar nosso casamento. Maridos e esposas geralmente sabem pequenos detalhes
como esse. A propsito, minha cor preferida  azul. Eu fumo cigarros Player. Bebo Stoly... vodca Stolichnaya ? ele esclareceu ao ver o olhar de dvida da moa. ?
Gosto de bale, invernos com neve, caminhadas  luz da lua pelo lago e, como voc provavelmente j adivinhou, msica clssica. Quando o assunto  laboratrios e qumicos,
eu sou o famoso garoto-prodgio. Tenho trinta e quatro anos de idade, um metro e oitenta e quatro e uns noventa quilos... a maior parte msculo slido, porque eu
vou  academia pelo menos cinco vezes por semana. Acha que consegue se lembrar disso tudo?
   ? Vou tentar. Mas sinceramente, Nick, devo dizer que para mim isso soa como se voc estivesse me dando um dossi, me preparando para uma espcie de misso de
espionagem. Voc tem certeza de que no  um antigo agente da KGB? ? Caroline estava parcialmente brincando.
   ? Sim, tenho certeza. Quando se  criado da forma que eu fui, atrs da Cortina de Ferro, a gente leva a poltica muito a srio. Meu pas passou por um longo caminho
nos ltimos anos, e ainda tem um longo caminho a percorrer. Meu trabalho l era estritamente de natureza civil. Posso garantir-lhe mais uma vez: no precisa se preocupar
em estar embarcando em uma enrascada de filme de James Bond, Caro. ? A voz de Nick parecia animada, mas um tanto decepcionada.
   ? Desculpe. Mas... no podia deixar de questionar. Quero dizer, deve haver alguma razo para o SIN ter chegado a uma concluso to equivocada sobre voc, que
o leve a querer deport-lo, Nick.
   ? Voc no acha que eu pensei sobre isso? Na verdade, no pensei em mais nada desde que abri aquela droga de carta do SIN. Sei que sou inocente dessas alegaes
contra mim, ento tenho que acreditar que existe alguma coisa a mais no fundo dessa questo.
   ? Como o qu?
   ? Talvez, apesar de nossas precaues, tenha vazado algo sobre nossa frmula secreta. Embora seja estritamente confidencial na Cosmticos Fortune, deve haver
um certo nmero de pessoas com acesso a essa informao, incluindo assistentes e secretrias. O que me pergunto agora  se algum de nossos concorrentes ficou sabendo...
Por menor que fosse a dica, que tenham descoberto de alguma forma que, removendo um elemento chave, ou seja, eu, isso poderia representar um grande baque para a
Cosmticos Fortune.
   ? Ah, Nick! ? exclamou Caroline, abalada. ? Nunca aconteceu nada parecido comigo! No posso imaginar que algum na empresa possa ter sido to falso. Na verdade,
at este momento, sempre achei que vov exagerava um pouco em seu medo de espionagem industrial. Mas agora... no sei o que pensar. E se voc estiver certo? Como
podemos descobrir? O que podemos fazer para tentar nos proteger deste tipo de coisa no futuro? E se nosso casamento apenas levar quem estiver por trs disso a escolher
outra pessoa da Cosmticos Fortune como alvo?
   ? Bem, ento pelo menos teremos algum tipo de resposta, no ? ? Nick respondeu, com seriedade. ? No entanto, eu no me preocuparia com isso no momento, Caro.
A no ser pelo que aconteceu comigo, no h um motivo real para suspeitarmos de espionagem industrial. Mencionei isso porque acho que devamos ter em mente essa
possibilidade.
   Ele entrou numa estradinha isolada e sinuosa entre fileiras de rvores em volta do lago, e parou minutos depois diante de uma casa grande, rstica, e bonita.
Para Caroline, ela parecia parte do cenrio em volta, levemente coberta de gelo e neve, reluzindo no entardecer como um palcio encantado na floresta.
   ? Aqui estamos. Em casa. Voc gostou, Caro? ? perguntou Nick, sem entender por que havia parado no meio da estrada para que ela pudesse ver a casa inteira antes
de entrar, por que de repente era to importante para ele que ela a achasse agradvel.
   ? Sim... muito.  adorvel... uma casa dos sonhos... mas, francamente, no  o que eu esperava, Nick. Pensei que voc tivesse algo... bem, no sei... mais elegante
e sofisticado, como seu carro, sei l.
   ? Ah, sim. Mas, entenda, aquilo  apenas minha pessoa pblica ? ele afirmou, sorrindo. ? Eu sou muito diferente na minha vida privada.
   ?  mesmo?
   ? Sim. Isso  uma das coisas que voc vai descobrir sobre mim... com o tempo. ? Ele deu partida no Mercedes-Benz e seguiu pela entrada de carros at a garagem.
Pouco depois, conduziu Caroline at o interior da casa, acendendo as luzes  medida que passavam.
   O interior a surpreendeu bem mais do que o exterior. O salo grande elevava-se at o pesado telhado de vigas, e em uma parede inteira no havia nada alm das
janelas que permitiam uma magnfica vista do lago. Um tapete branco como a neve se estendia pelo cho at a lareira de pedra, com uma enorme soleira e galhos de
carvalho empilhados no nicho. De ambos os lados do salo, escadas levavam at a varanda do andar superior. Cadeiras e sofs estofados contemporneos se misturavam
a armrios e mesas de antiqurio, nos quais havia luminrias Tiffany e vasos Lalique. Nos vasos, misturavam-se flores frescas que, Caroline sabia, em pleno inverno,
s podiam ter vindo de um florista.
   O salo inteiro conseguia ser sofisticado e, ao mesmo tempo, confortvel e convidativo. Na verdade, ela pensou, atnita, era realmente muito parecido com seu
prprio apartamento, muito parecido com a forma como ela sempre imaginava que seria uma casa realmente dela.
   Estranhamente, naquele momento, achou difcil acreditar que ela e Nick no iam se casar no sentido verdadeiro da palavra, que no iam construir ali uma vida juntos,
fazer filhos juntos.
   Comporte-se, Caro!, disse, severa, a si mesma quando se deu conta da direo que seus pensamentos haviam tomado. Isto  somente um arranjo comercial, ento no
v se enganar, comeando a achar que seja outra coisa. Oh, cus! Ontem de manh, voc sequer gostava de Nick Valkov!
   ? Deixe-me tirar seu casaco e eu lhe mostrarei a casa. ? Suavemente, ele tirou-lhe o casaco dos ombros antes de conduzi-la a um tour pelas dependncias.
   Dependncias que incluam uma cozinha grande e rstica, calorosa e aconchegante, com muitas plantas, cestas e panelas de cobre, um estdio onde Nick visivelmente
trabalhava quando estava em casa, uma biblioteca cheia de livros do cho at o teto, e quatro quartos no andar superior, um dos quais o dele.
   Era um quarto totalmente masculino, dominado por uma pesada cama de dossel, um armrio e uma cmoda, outra grande lareira e obras de arte russa. Caroline desviou
rpido o olhar da cama, depois de ver a imagem dela e Nick juntos, deitados nus, envoltos num cobertor de penas de ganso.
   Como se tivesse lido o pensamento dela, Nick disse:
   ? Claro que voc pode dormir aqui, se desejar.
   ? Nosso casamento  apenas no papel ? lembrou Caroline, sabendo que enrubescia novamente e feliz pela lmpada fosca, que ela esperava que ocultasse suas faces
vermelhas.
   ? E claro ? ele respondeu tranqilo, embora ela pensasse, para sua surpresa, ter visto um olhar de desapontamento nos olhos dele. Afinal, essa manh ele no parecera
to entusiasmado em t-la como esposa. ? Ainda assim, voc no pode culpar um homem por tentar, no ? Qual dos outros quartos voc prefere ento?
   ? Vou ficar com aquele do outro lado do corredor ? o olhar nervoso de Caroline voltou-se para os olhos dele, que brilhavam debochados, enquanto sua boca esboava
um sorriso divertido.
   ? Naturalmente ? disse ele, seco. ? Vou deix-lo pronto para voc amanh. Gostaria tambm que eu instalasse uma fechadura na porta?
   ? Na verdade ? respondeu, tranqila, olhando de novo para ele com ar severo, para que ele soubesse que ela estava falando srio ? eu estava esperando que voc
se mostrasse cavalheiro o suficiente a ponto de eu no precisar pedir, Nick.
   ? Eu sou, infelizmente. Voc no precisa se preocupar que, depois que nos casarmos, eu no cumpra minha parte no acordo. Caro. Nem que eu v cair sobre voc como
uma besta selvagem numa noite quando voc menos esperar. No vou... a menos que voc queira ? ele acrescentou, insolente, sorrindo novamente. E, como novamente Caroline
tinha o rosto vermelho, ele observou: ? Voc no est acostumada a ser provocada por um homem, est? De certa forma, acho isso bastante intrigante e muito esclarecedor.
Estou comeando a perceber que voc na verdade no  nem um pouco parecida com a mulher que eu sempre imaginei que fosse. Vamos voltar l para baixo agora, fazer
uma pequena ceia e tomar uma saideira antes que eu a leve de volta ao escritrio para pegar seu carro?
   ? Ah, no. No  necessrio ? ela recusou rpido, com o corao batendo forte no peito depois das observaes de Nick a seu respeito. Ele era perspicaz. Caroline
percebeu que teria que se defender. Seno, ele logo estaria cavando o caminho sob as defesas que ela havia erguido to cuidadosamente ao seu redor, as barreiras
que protegiam seu corao. ? Realmente. Est ficando tarde, e voc ainda ter que voltar para c depois de me dar carona. Posso comer alguma coisa rpida no caminho
para casa.
   ? O qu? Um hambrguer gorduroso em alguma lanchonete? Acho que no. Perdoe-me por ser to direto, mas um corpo como o seu merece coisa melhor. ? O olhar de Nick
passeava sobre Caroline, apreciativo. Ele fez um som de aprovao com a boca. ? Confesso que j estou achando que posso me arrepender desse nosso casamento de olhe-mas-no-toque.
Muito bem. Imagino que terei que aprender a conviver com isso. Vamos l. Meu estrogonofe de carne  de comer chorando.
   Ele no se gabava  toa, como Caroline percebeu depois que eles desceram at a cozinha. O que deveria ter sido "uma pequena refeio" tornou-se uma produo demorada,
como se Nick no tivesse nenhuma pressa em se livrar dela. De fato, Caroline pensou, confusa, ele estava se comportando como se tivessem um encontro amoroso de verdade
e ele estivesse dando o melhor de si para merecer-lhe a aprovao. Quanto mais ele exercia seu charme, mais o pulso dela disparava e mais ela se sentia presa num
indefinvel sentimento de pnico.
   Caroline tentava se lembrar que esse era o mesmo homem que por muito tempo ela achara de uma enorme arrogncia, dominador e intolervel, um homem de tendncias
conservadoras do Velho Mundo. Mas isso no ajudou muito.
   O jeito esperto de Nick, suas provocaes despreocupadas e deliberadamente maliciosas, sua conversa inteligente... tudo contribua para que Caroline sentisse
que estava sendo sugada por um perigoso turbilho, do qual no havia escapatria. A despeito de seu histrico de famlia sofisticada, experiente, ela se sentia desnorteada
nesse meio, refletiu, sem-graa. Ela no tivera experincia suficiente com homens para saber como lidar com um como Nick Valkov.
   Caroline se perguntava o que motivava sua atitude em relao a ela; se sua vontade de agradar e flertar eram uma forma de tentar seduzi-la. Ele tinha uma certa
reputao de playboy na Cosmticos Fortune. Teria ele decidido que a perspectiva de um prolongado perodo de celibato no era atraente? Incapaz de continuar reprimindo
sua curiosidade, ela perguntou-lhe por que aparentemente estava procurando causar-lhe boa impresso.
   ? Achei que tivesse sido claro com voc mais cedo, Caro. ? Com um pegador, ele mexeu com destreza a salada que estava preparando, com molho russo,  claro, como
ela reparou. ? Dependendo da posio que o SIN tomar em relao ao nosso casamento, podemos ser marido e mulher por um ano... ou at por mais tempo. Eu, pessoalmente,
no gosto da idia de passar tanto tempo da minha vida numa verdadeira zona de guerra. Conhece o velho ditado que diz que o lar de um homem  o seu castelo? Bem,
 verdade. E eu quero o meu em paz... e no cheio de hostilidades. Ento, claro que estou tentando fazer o melhor para deix-la  vontade. Pareceu ser a nica coisa
sensata a fazer... At agora, eu me gabava de ter um certo trato com as mulheres. No entanto, por suas palavras, parece que, pelos menos com voc, estou fracassando
miseravelmente.
   ? No... no  isso. No  isso mesmo. Estou apenas... confusa, s isso.
   ? De que forma?
   ? Bem, voc nunca pareceu to... Ah, no sei explicar. Voc sempre me passou a impresso de ser muito...
   ? Orgulhoso, egocntrico, impaciente, exigente e um homem que no se deixa controlar por uma mulher? ? ele deu uma risada suave ao v-la surpresa. ? Como v,
conheo meus prprios defeitos, Caro... O maior deles  que eu no tenho pacincia quando me fazem de bobo ? pegou a panela com o estrogonofe de carne e a ps em
cima da mesa, que j havia arrumado. ? Mas voc no  boba. Na verdade, provavelmente voc  uma das mulheres mais espertas que eu j tive o prazer de conhecer,
e, se voc concorda ou no, eu respeito.
   ? Preferiria que eu fosse burra?
   ? No, na verdade no. Prefiro mulheres inteligentes. Mas mulheres inteligentes em geral so tambm fortes, teimosas, ambiciosas, independentes, sem tolerncia
nem respeito por homens fracos. Diga a verdade, Caro ? ele provocava, puxando uma cadeira para ela. ? Voc acha melhor se casar com algum como eu do que com algum
coitado idiota como Ernie Thompkins, da sala de correspondncia?
   ? Ernie  um cara muito legal ? Caroline se esquivou da pergunta, com destreza.
   ? Sim, bem, e todos ns sabemos onde eles vo parar, no ? ? Por um instante, ela viu um brilho metlico nos olhos de Nick e soube que com certeza ele nunca
terminaria no ltimo lugar. Ele era esperto e determinado demais para isso. ? E no pense que no percebi sua habilidade de desviar da pergunta. Percebi, sim. Ento,
fique alerta... Voc ainda tem muito que aprender se quiser me passar para trs, Caro.
   ? Por que eu iria querer isso? No sou de enganar ningum, Nick, e se existe uma coisa em que acredito,  em honestidade no relacionamento. Tenho certeza de que
voc sabe o porqu disso.
   ? Sim, comentaram muito pela empresa sobre voc e Paul Andersen ? Nick colocou a salada, o estrogonofe de carne e um crocante po francs que havia preparado
em travessas, e depois ps um prato para ela. Abriu uma garrafa de Beaujolais de sua pequena adega e serviu-lhe uma taa. ? Isto deve ter ferido seu orgulho, magoado
seu corao... saber que o rapaz s estava casando com voc por dinheiro.
   ? Mas esse no  um dos motivos por que voc concordou em se casar comigo?
   Nick olhou-a firme, com os olhos quase fechados.
   ? E diferente. Nosso casamento  arranjado, um acordo comercial. Eu nunca enganei voc, fingi que a amava para lev-la ao altar. Acho desprezvel o que Andersen
fez. Agora, coma. Voc no  Allie, sua irm supermodelo, ainda bem. No precisa sair por a parecendo uma refugiada esqulida, que acabou de sair da ilha de Robinson
Cruso.
   ? Como voc pode dizer isso? Allie  linda!
   ? Voc tambm , Caro ? afirmou Nick, suave, embora seus olhos mostrassem uma estranha seriedade. ? Mas estou comeando a entender que voc no percebe isso.
E que, desde seu caso desastroso com Andersen, voc nunca mais teve noo de seu valor como mulher.
   Caroline no sabia como responder quilo. Ela no estava acostumada a ouvir um homem bonito dizer que ela era atraente. Geralmente, ela intimidava os homens.
Ou suspeitava que eles estavam interessados apenas na parte dela da riqueza dos Fortune.
   Nick, no entanto, no parecia nem um pouco intimidado por ela, e, embora fosse verdade que ele receberia uma boa quantia para casar-se com ela, ele no teria
acesso  sua riqueza pessoal. Ento no precisava lhe fazer elogios.
   Para esconder que estava confusa, ela deu uma garfada no estrogonofe de carne e achou delicioso.
   ? Est maravilhoso! Onde voc aprendeu a cozinhar?
   ? Bem, quando se  um homem solteiro que aprecia uma boa comida, ou voc come fora com freqncia ou aprende a cozinhar por conta prpria. Eu escolhi a segunda
opo.
   ? Ento, voc nunca foi casado? ? Caroline perguntou, curiosa.
   ? No. Ser a primeira vez para mim.
   ? Para mim tambm. Acho que  por isso, alm das prprias circunstncias, que tudo parece to confuso e desanimador, to irreal.
   ? Quando estiver mais acostumada com a idia, esses sentimentos vo passar, Caro. Da voc, com certeza, vai se tornar uma resmungona, que sabe usar um rolo de
macarro de mais de uma forma. E provavelmente quando eu chegar tarde  noite, voc vai me golpear a cabea, por sair para beber com os amigos.
   ? No, no vou ? Caroline declarou com firmeza. ? J disse a voc que planejo interferir o mnimo possvel em sua vida, Nick.
   ? Bem, o tempo dir, no  mesmo? ? ele retrucou, enigmtico.
   Depois de comer, Caroline insistiu em ajudar a lavar os pratos e limpar a cozinha. Quando estava tudo quase pronto, Nick deixou-a terminando enquanto voltava
ao salo para acender a lareira. O fogo ardia, festivo, no momento em que ela se juntou a ele, e dos alto-falantes saam baixinho os acordes de A bela adormecida,
de Tchaikovsky.
   O prprio Nick estava sentado no cho, perto da grande mesa de centro quadrada, em frente  lareira, encostado em um dos sofs geminados. Duas das luminrias
Tiffany estavam acesas e duas taas de vinho descansavam na mesinha de centro. Era a cena de seduo tpica de diversos filmes, pensou Caroline, engolindo em seco.
E ele estava mais do que qualificado para o papel do protagonista.
   Mais cedo, antes de preparar o jantar, ele havia tirado o palet e a gravata, afrouxado o colarinho e arregaado as mangas da camisa. Agora, vendo-o parado no
cho, com as pernas longas e fortes estendidas  frente, ela era forada a admitir que, no importa o que pensasse sobre ele como pessoa, achava-o terrivelmente
atraente.
   Ele tinha a cabea encostada no sof; os olhos estavam fechados, e ele fumava um cigarro, visivelmente apreciando a msica. Por intuio, ela sabia que era assim
que ele passava muitas noites longas de inverno, quando no estava ocupado com outra coisa.
   ? Nick, est ficando tarde. Eu devo ir para casa ? disse ela.
   ? Sim, eu sei que  isso o que voc quer, Caroline ? A voz dele era baixa, sedosa, como o ronronar satisfeito de uma pantera predadora, e ele nem sequer se incomodara
em abrir os olhos para olhar para ela enquanto falava. -Mas temo que voc ser obrigada a passar a noite aqui comigo.
   Aquele anncio inesperado, tudo que Caroline pde fazer foi arregalar os olhos para ele, horrorizada, em pnico, o corao querendo sair pela garganta, as palmas
das mos suadas. Com aquele tamanho e localizao, a casa de Nick tinha que estar em pelo menos uns dois acres de terra, pensou, assim no havia vizinhos prximos
a quem ela pudesse recorrer para socorr-la. E, como ele havia insistido em lhe dar carona, ela no viera em seu prprio carro. Caroline pensou que ele devia ter
planejado aquilo desde o comeo, para que ela ficasse ali presa, sozinha com ele, sem chance de escapar.
   No, com certeza, ele no podia estar falando srio quanto a mant-la ali, tentou tranqilizar-se. Com certeza, ele devia saber que existiam leis contra estupro
nos Estados Unidos. Mas Nick era russo, de um pas onde as mulheres no tinham tantos direitos e liberdades, tanta proteo legal como na Amrica, seja l o que
valesse isso. Porque, mesmo aqui, as estatsticas de estupros eram terrveis, pior ainda do que os nmeros registrados oficialmente, j que muitas mulheres, por
medo ou vergonha, optavam por no denunciar o crime brutal de que haviam sido vtimas. Talvez por isso, Nick achasse que no seria punido se a coagisse.
   Caroline no sabia o que dizer nem o que fazer. Ao observ-lo esparramado descuidadamente, os braos e pernas musculosos, ela sabia que no tinha como lutar contra
ele. Mesmo se corresse escada acima e se trancasse em um dos quartos, no havia nada que o impedisse de arrombar a porta para chegar at ela.
   ? Nick, voc no pode honestamente querer me manter aqui contra a vontade, ou me forar a nada ? ela conseguiu proferir a frase com dificuldade, os punhos j
fechados, como se comeasse a se preparar para lutar com ele.
   Aquelas palavras, os olhos dele se arregalaram, seu olhar fixou-se no rosto cinzento de Caroline, nos olhos que mais pareciam pires, cheios de apreenso. Nick
resmungou, rspido, o que ela suspeitou que fosse um palavro, embora no pudesse ter certeza, porque ele falou em russo. Em seguida, ele se ps de p num pulo e
aproximou-se dela determinado, o rosto duro, um msculo latejando em sua mandbula retesada.
   Horrorizada, Caroline gritou e se virou para fugir. Mas ele a agarrou antes que ela estivesse na metade do caminho at a porta. Frentica, ela comeou a bater
nele, descontrolada, socando com os punhos seu peito largo, arfando e soluando protestos, enquanto ele agarrava firme seus antebraos, recusando-se a solt-la e
repreendendo-a, furioso, em russo.
   Depois de vrios minutos, longos e horrveis, Nick finalmente percebeu que, no calor do momento, havia comeado a falar sua lngua materna, e que ela no podia
entend-lo. Bruscamente, voltou a falar ingls.
   ? Caroline, pare! Pare com isso! Pare de brigar comigo! ? disse, irritado, sacudindo-a enquanto ela batia em seu peito mais uma vez. ? Eu no vou machuc-la,
droga. Meu Deus! Que diabo de homem voc pensa que eu sou, afinal? Quis apenas dizer que, mesmo se voc me ameaasse com uma arma na cabea, eu no poderia lev-la
de volta para a cidade esta noite. Voc j deu uma olhada l fora?
   Ela olhou ento pela enorme fileira de janelas e engasgou com a viso que seus olhos amedrontados e cheios de lgrimas captaram. Estava nevando, e muito, j h
algum tempo. Era provvel que a longa e sinuosa entrada de carros da casa estivesse soterrada.
   ? No posso sair com meu limpa-neve at amanh de manh, quando haver luz suficiente para ver o que estou fazendo ? disse ele.
   ? Oh, Nick, sinto muito ? falou Caroline, mortificada e constrangida. ? Eu me sinto uma boba... to envergonhada. Pensei... pensei...
   ? Eu sei o que voc pensou, ora! O motivo para voc ter pensado  o que me deixa to furioso! E isso mesmo que voc pensa de mim, Caroline? Que sou o tipo de
homem que a estupraria? Pelo amor de Deus!
   ? No... no, claro que no. Mas  que... bem, voc  grande e forte, extremamente viril e... estrangeiro... com o que ns sempre chamamos de padres de pensamento
conservador do Velho Mundo. Ento, quando voc disse aquilo, eu... tirei uma concluso precipitada...  isso. Sinto muito.
   A voz dela foi sumindo, e ela mordeu o lbio inferior, incapaz de olhar nos olhos dele, e seus prprios olhos se enchendo de lgrimas novamente. Depois de um
instante, ela continuou, mais tranqila.
   ? Voc no sabe, Nick... voc no pode saber porque eu nunca contei a ningum... mas na noite em que confrontei Paul com o fato de querer se casar comigo por
dinheiro, ele enlouqueceu e... me atacou. Ele havia bebido muito naquela noite, ento no sei o que ele estava pensando. Quero dizer, no era como se ns... no
tivssemos dormido juntos antes, ou que forar uma barra comigo me faria mudar de idia e casar com ele. De qualquer forma, se ele no estivesse to bbado, eu no
teria sido capaz de me defender. Mas mesmo tendo conseguido tir-lo do meu apartamento, eu ainda me sentia to estpida e humilhada por ter sido enganada por ele
que... eu no conseguia me forar a confiar em qualquer homem o suficiente para deix-lo se aproximar de mim.
   ? Shhh. Tudo bem, Caro. Mesmo. Eu entendo ? murmurava Nick, consolando-a, enquanto as lgrimas caram dos olhos de Caroline.
   Ele a tomou nos braos, apertando-a de encontro a seu corpo definido. Durante a briga, o cabelo dela havia se soltado do coque elegante e agora Nick delicadamente
tirava o resto dos grampos, ajeitando com os dedos o cabelo que caa pelos ombros dela como uma massa grossa e negra. Ele conseguiu retirar-lhe tambm os culos
de casco de tartaruga, colocando-os em uma mesa ao lado.
   Buscando conforto e consolo, Caroline no se ops. Perdida na dor de seu passado, ela nem mesmo se dava conta. Mas pouco tempo depois, ela passou a ter plena
conscincia de como estava apertada contra o corpo duro e quente de Nick, da batida forte e firme do corao dele contra seu ouvido, de como ele acariciava seu cabelo
desfeito e suas costas de um modo reconfortante, e do fato que, embora quisesse realmente apenas oferecer consolo, ele ficava excitado pela proximidade dela.
   Involuntariamente, Caroline olhou para ele, os olhos castanhos atnitos e confusos, a boca se separando num pequeno arquejo de surpresa. Quando os olhos quase
negros de Nick se encontraram com os seus, tomaram-se ainda mais escuros, reluzindo como rocha vulcnica enquanto ele olhava para ela. Ele praguejou, e, antes que
ela se desse conta, os lbios dele capturaram os seus.
   No comeo, o beijo dele foi hesitante, carinhoso. Mas como, apanhada de surpresa, Caroline no reagiu, a boca de Nick tornou-se mais dura, mais faminta, mais
exigente. A lngua dele passeou pelo contorno de seus lbios antes de for-los a separar-se e invadir sua boca, provando e explorando. Involuntariamente, Caroline
sentiu uma onda repentina de desejo e excitao subir por seu corpo, deixando-a em chamas. Contra sua prpria vontade, os seus braos se estenderam para envolver-lhe
o pescoo, enquanto os braos dele apertaram-se em volta dela, as mos se enroscando em seu cabelo.
   Em algum canto de sua mente desorientada, ela pensava vagamente que ele havia escolhido a profisso certa; porque havia mesmo uma qumica muito forte entre eles...
agitando-se como um lquido combustvel num bquer aquecido sobre um bico de Bunsen, a ponto de explodir. Mas quele pensamento, Caroline reconhecia que, ao no
protestar, ao deixar que Nick a beijasse e a acariciasse daquele jeito, ela, sem dvida, estava dando a ele a impresso errada: que ela era dele por merecimento,
tanto naquela noite como enquanto durasse o casamento deles.
   Bruscamente, afastou-se, tremendo pela nsia que ele havia despertado nela, os joelhos to fracos de repente que ela foi forada a apoiar-se numa mesa prxima
para manter o equilbrio. Levou a outra mo  boca, mida e aquecida pelos beijos dele.
   ? Nick, est ficando tarde, ento, se no se importa, eu gostaria de ir para a cama agora ? disse ela, sem flego, e vermelha de raiva ao perceber o que acabara
de dizer, o duplo sentido no intencional de suas palavras.
   ? Hummm. Me parece realmente uma boa idia ? ele arrastou as palavras, em resposta, os olhos sonolentos sob plpebras semicerradas, um sorriso enigmtico se esboando
em seus lbios.
   ? No foi o que eu quis dizer... e voc sabe disso!
   ? Sei, benzinho? E voc tem certeza de que no teve inteno? ? Os olhos dele tinham um brilho malicioso e seu sorriso se alargava enquanto ela balanava a cabea,
sria, antes de ajoelhar-se para catar os grampos espalhados pelo cho, levantando-se em seguida para pegar os culos de cima da mesa. ? Muito bem. Nunca deixe ningum
dizer que eu no sei aceitar uma derrota com elegncia. Acho que vou ter que me consolar com o fato de que pelo menos consegui v-la com o cabelo solto e sem os
culos... De certa forma foi um prmio de consolao.
   Ele a acompanhou pelas escadas at o quarto que ela havia escolhido e lhe deu uma de suas camisas para ela dormir. Como sabia que s precisaria usar novamente
seu terno de l branco na manh seguinte, Caroline o pendurou no closet com cuidado depois de despi-lo. Tomou um banho de banheira no banheiro anexo ao quarto e
lavou sua lingerie na pia, estendendo-a no descanso de toalhas para secar. A camisa de Nick ficava muito grande nela, chegando-lhe quase aos joelhos, as mangas to
longas que ela teve que arrega-las.
   Estava se ajeitando para ir para a cama quando ele bateu, delicadamente na porta fechada do quarto. Ao atender, Caroline abriu-a somente um pouquinho, desconfortvel
e consciente do fato de que estava nua em plo sob a camisa dele. O olhar de Nick passeou por todo o corpo dela, admirando-a, demorando-se por suas pernas longas
e nuas, e em seguida pelo colarinho aberto que mostrava boa parte de sua pele ? sem contar a pulsao disparada, irregular, na cavidade de sua garganta ? antes de
descansar no rosto dela.
   ? Eu... bem... queria apenas verificar se voc precisa de mais alguma coisa antes de ir para a cama ? ele explicou.
   ? No, obrigada. Estou bem. ? Sem graa, Caro fechou o colarinho da camisa, perguntando-se, ansiosa, se, com o abajur aceso, ele podia ver seu corpo nu atravs
do fino tecido branco.
   ? timo. Bem, se acontecer de voc mudar de idia, j sabe onde me encontrar ? disse Nick, e ambos sabiam muito bem que aquelas palavras tinham duplo sentido.
? Boa noto, Caro. Tenha bons sonhos.
   ? Boa noite, Nick.
   Caroline fechou a porta com firmeza, consciente do fato de que ele ainda estava parado no corredor, esperando para ver se ela trancaria a porta. Se o fizesse,
ele saberia que ela no confiava na palavra dele. Mas se no o fizesse, ele poderia perceber aquilo como um convite, pensou. Dividida, ela no sabia o que fazer.
Para seu alvio, depois de um tempo, ouviu-o rir suavemente, entendendo seu dilema.
   ? Tranque, Caro, se isso vai lhe fazer sentir-se melhor. ? Ento ele saiu, silencioso, pelo corredor.
   Caroline deitou-se na cama, mas apesar de exausta pelo dia desgastante, no conseguia dormir, permanecendo acordada at altas horas, revolvendo-se na cama, sem
descanso.
   Lembrou-se da sensao da boca de Nick sobre a sua, a reao intensa que ele havia lhe provocado. E disse a si mesma, num mpeto, que, se tivesse um mnimo de
bom senso, escaparia daquele casamento arranjado na primeira oportunidade, amanh... antes que fosse tarde demais.


   Captulo 5

   Naquela manh, Caroline descobriu que era tarde demais para mudar de idia, que sua chance de cancelar o casamento j havia sido perdida... se  que realmente
houve uma.
   Ela achou que talvez no tivesse tido chance. Sua conscincia e lealdade  famlia sempre haviam ditado seus atos, e aquela situao no era exceo. Assim, aps
vestir-se e arrumar-se, desceu as escadas resolvida a dizer a Nick que no levaria adiante o casamento; no entanto, as palavras morreram em seus lbios quando o
viu.
   Ele vestia um elegante terno Armani preto; o palet e a gravata estavam atirados sobre uma das cadeiras em volta  mesa da cozinha, sobre a qual havia um par
de abotoaduras de ouro Cartier. O colarinho de sua fina camisa branca Turnbull & Asser estava aberto, e as mangas arregaadas mostravam antebraos fortes e um Rolex
de ouro em torno de seu pulso esquerdo. O cabelo grosso e escuro, penteado para trs, brilhava como se tivesse acabado de ser lavado e ainda estivesse mido.
   Ao v-lo, Caroline sentiu o corao dar reviravoltas no peito e pensou que ningum devia ser to bonito logo de manh.
   Ela percebeu que Nick devia ter se levantado pelo menos duas horas antes dela porque, ao olhar pela fileira ampla de janelas, observou que haviam acabado de limpar
a neve da passagem de carros. Ele tambm preparara o caf da manh, que a esperava na mesa da cozinha: omeletes, bacon canadense, frutas, croissants e caf quente.
   ? Bom dia, Caro. ? Ele a cumprimentou com um sorriso e, tomando-a de surpresa como fizera na noite anterior, abaixou-se para tocar-lhe os lbios com os seus,
como se j fossem marido e mulher e aquele fosse o habitual ritual matutino. ? Voc dormiu bem?
   ? Sim ? mentiu, pois no queria que ele soubesse que ficara acordada at altas horas, revirando-se agitada na cama e pensando nele. Devia lhe contar logo, sem
rodeios, que havia decidido no levar adiante o casamento, dizia Caroline a si mesma. Mas, para seu prprio desnimo, quando olhava para ele, as palavras entalavam
na garganta.
   ? Sente-se, querida ? jogando um pano de prato de qualquer maneira sobre o ombro, Nick puxou uma cadeira para ela. ? Voc est com fome?
   ? Estou, sim. ? Para sua surpresa, Caroline descobriu que realmente estava, apesar de no comer muito no caf da manh. ? Mas voc no precisava preparar tudo
isso, Nick. Em geral, de manh, eu s tomo uma xcara de caf e como uma torrada.
   ? Foi o que suspeitei ? ele respondeu. ? Entretanto, comida  como um vinho fino ou uma boa mulher. Deve ser aproveitada e apreciada. Por isso, faremos o possvel
para evitar tomar um caf da manh apressado em nossa casa.
   Caroline ficou to perplexa com esse ltimo comentrio que no sabia como responder. Por outro lado, ele parecia, mesmo que agradavelmente, estar exercendo um
comando ditatorial, esperando que, por ser homem ? e, sem dvida, o chefe da casa ? suas palavras fossem obedecidas como lei. Perceber aquilo a encheu de indignao.
   Por outro lado, ela tambm no deixou de reparar que seu discurso continha expresses como ns e nossa casa. Embora insistisse consigo mesma que aquilo no significava
nada, que eram apenas figuras de linguagem, Caroline no podia reprimir o estranho e inesperado tremor que subia por seu corpo, a esperana sbita e selvagem que
saltava em seu peito.
   Ser que ele estava procurando deixar pistas de que pretendia que o casamento fosse real? Ela no sabia e tinha medo de perguntar. Afinal, dividida entre seus
princpios e seus desejos, e sem querer comear uma briga  mesa de caf da manh, ela se contentou em responder "sim, Nick", perguntando-se, desconfortvel, se,
com essas duas palavras simples, acabava de trair todo o pensamento feminista no mundo inteiro.
   A essa sensao de conflito somava-se o fato de que, ao ouvir sua resposta, Nick sorriu-lhe em aprovao, satisfeito como se ela fosse um cachorrinho que tivesse
seguido, com sucesso, o comando do dono. Caroline quase esperou que ele se aproximasse e lhe desse um tapinha na cabea. E pensou que, se ele o fizesse, levaria
um ovo no rosto. Felizmente ? e ela tinha uma sensao muito estranha de que de alguma forma ele lia seu pensamento -, ele no fez nada to desagradvel e diligentemente
ps-se a comer.
   ? Voc planeja continuar cozinhando depois que nos casarmos, Nick? ? Caroline perguntou, curiosa, enquanto ela tambm atacava seu prato.
   ? No. J que ambos trabalhamos, achei que fssemos dividir as tarefas domsticas. S no vou esperar que voc corte a grama no vero ou limpe a neve no inverno.
   ? Bem, muito generoso de sua parte ? ela comentou, seca.
   ? Sim, eu pensei que fosse ? Nick abriu um sorriso largo ao ver a cara irritada dela. ? Sabe quantas mulheres cultivam os campos da Rssia?
   ? Muitas, sem dvida... j que os maridos provavelmente esto cados em algum canto, dormindo sob os efeitos da vodca!
   Nick riu alto com o comentrio.
   ? No precisa se preocupar, benzinho. Gosto de me exceder em algumas coisas, mas a vodca no  uma delas. ? Os olhos dele a examinaram licenciosamente, deixando
claro o que ele queria dizer e fazendo o pulso dela disparar. Ela sentia o calor lhe subindo s faces. ? Quer manteiga ou gelia no seu croissant?
   ? Manteiga ? Caroline achou que seria mais sensato no tentar competir com ele. Parecia que ele estava sempre um passo  frente dela. E, em sua opinio, aquilo
era raro para um homem. Somente Paul havia conseguido engan-la porque ela o amava. Ela no podia cometer o mesmo erro com Nick; devia permanecer alerta e no permitir
que as emoes se sobrepusessem ao seu bom julgamento. ? Por que continua me chamando assim: benzinho?
   ? Porque  isso que voc ser esta manh: benzinho.
   ? No estou entendendo...
   ? Bem, ento, vou explicar a voc. Vamos nos casar hoje, antes de chegar ao escritrio. ? De forma casual, Nick passou manteiga no croissant dela, como se no
tivesse conscincia do efeito que suas palavras haviam causado.
   ? O qu? ? ela gritou, abalada.
   ? Caro... ? ele apoiou a faca, limpou as mos com o guardanapo de linho e prosseguiu com a mesma pacincia com que falaria a uma criana. ? Sua secretria nos
viu sair juntos ontem  tarde. Voc passou a noite comigo. Viu que eu no mordo. Ento, no h razo para esperarmos... para que voc fique exposta a boatos ou rumores
no trabalho. Se formos para o trabalho hoje de manh e anunciarmos que estamos casados, toda a fofoca vai se concentrar nisso. Receberemos os parabns por sermos
to espertos em esconder nosso relacionamento e por conseguirmos agarrar um ao outro.
   Bem no fundo, Caroline sabia que ele tinha razo, que sua lgica era irrefutvel. Ainda assim, com a mesma sensao de pnico que a possura na noite anterior,
ela protestou.
   ? Ah, Nick, no sei. Foi tudo to de repente. Eu... eu no tenho certeza se estou preparada.
   ? Esperar mais alguns dias no vai livr-la dessa incerteza, meu bem. Voc teve uma experincia ruim com Andersen e por isso perdeu a confiana em todos os homens.
Voc mesma j admitiu isso. Ento, o que voc est sentindo no tem nada a ver comigo pessoalmente, mas com os homens em geral.  provvel que nosso casamento seja
bom para voc, Caro. Voc ter a chance de viver perto de um homem... de mim... e ter um relacionamento sem ser pressionada por expectativas sociais ou compromisso
emocional. Isto lhe dar a oportunidade de aprender que nem todos os homens so como Andersen e que nem todos os relacionamentos com um homem seguiro o mesmo padro
negativo.
   ? Pensei que voc fosse doutor em qumica, no em psicologia, Nick. ? Caroline observou, seca, ainda que soubesse, do fundo do corao, que ele fizera um diagnstico
acertado do que lhe magoara e receitado o que parecia um remdio apropriado.
   ? Qumica foi a profisso que eu escolhi,  verdade. Mas isso no impede que eu tenha uma compreenso perspicaz da natureza humana, meu bem. Ento, decida e no
discutiremos mais sobre isso. Voc quer se casar comigo ou no?
   Essa era sua chance de escapar, pensou Caroline, com o corao disparando. Ela s tinha que responder que no.
   ? Sim ? foi o que ela se ouviu dizendo.
   ? timo. Agora termine seu caf e samos.
   Quando eles terminaram de comer, tiraram a mesa juntos e limparam os pratos, colocando-os no lava-louas. Aps ajeitar as mangas da camisa, Nick enfiou as abotoaduras
nos punhos, arrumou a gravata e ajeitou o palet nos ombros. Ajudou-a com o casaco de l de camelo, vestiu o sobretudo preto e pegou sua pasta e a dela. Depois disso,
apagou as luzes.
   Na semi-escurido da cozinha, iluminada to-somente pela luz cinzenta de inverno que se infiltrava pelas janelas sem cortina, ele tomou o queixo de Caroline com
a mo, erguendo o rosto dela em direo ao seu.
   ? Pobre criana ? ele sorriu para ela, gentil e pesaroso. Voc parece mesmo um cordeiro sendo levado para o abatedouro. Voc me acha realmente um ogro?
   ? No ? ela admitiu, assustada e comovida pela gentileza e compreenso que via nos olhos dele. ? Nick, antes de sairmos, eu s quero lhe dizer que, embora saiba
que no sou a esposa que voc escolheu, tentarei pelo menos ser uma boa esposa para voc pelo tempo em que formos casados.
   ? E eu serei um bom marido para voc, Caroline. Eu entendo e agradeo o sacrifcio que vocs esto fazendo por mim, e voc nunca ter motivo para se arrepender
desse dia, eu juro.

   Como Minnesota  um estado do norte, acostumado a invernos longos, duros e frios, as Cidades Gmeas estavam bem equipadas para lidar com as piores nevascas, e
o faziam com eficincia. Os limpa-neve haviam sido usados de manh cedo, e a estrada at Minepolis estava limpa. Naquele momento, Nick parou o carro em frente ao
cartrio. Ele desligou a chave na ignio e virou-se para Caroline.
   ? Est preparada? ? perguntou ele, com um sorriso encorajador.
   Ela respirou fundo.
   -Sim.
   ? No, voc no est, na verdade... no muito. Ento, antes que ela percebesse sua inteno, Nick se abaixou, pegou seus cabelos, envoltos no coque costumeiro,
e comeou a tirar os grampos, deixando que eles escorressem pelos ombros, num longo e brilhante emaranhado de cabelo negro.
   ? Nick! Nick, o que voc est fazendo? ? gritou Caroline, horrorizada, tentando, sem sucesso, faz-lo parar.
   ? Eu no gosto do seu cabelo desse jeito, ento estou arrumando ? respondeu ele, tranqilo e ignorando os protestos dela.
   Ela tentou arrancar os grampos da mo dele, mas ele apertou o boto do vidro automtico do carro e atirou-os no estacionamento. Depois, agarrou os culos de tartaruga
sobre seu nariz esbelto e finamente esculpido. Levando-os aos prprios olhos, disse, em voz arrastada:
   ? Exatamente como eu pensei. Voc no precisa mesmo deles para enxergar. Ora, se essas lentes so de grau, eu como meu jaleco. ? Em seguida, para constrangimento
de Caroline, ele tambm atirou seus culos no estacionamento.
   Caroline estava a ponto de se jogar do carro para recuper-los, quando, antes que pudesse abrir a porta, um automvel passou com os pneus da frente por cima dos
culos, esmagando-os.
   ? Meu Deus! No acredito no que voc acaba de fazer ? Ela olhou para ele como se nunca o tivesse visto antes, chocada e abalada. ? Por que voc fez isso?
   ? Porque voc tem um cabelo lindo... que me lembra uma marta-da-sibria, encorpado, lustroso e to incrivelmente suave ao toque... E grandes e bonitos olhos castanhos
que se parecem melao derretendo sob uma chama. Quero ver seus cabelos e seus olhos, Caro. Como seu marido, o que serei em apenas alguns minutos, tenho esse direito.
E, como acho que voc no mudaria por mim, eu mesmo fao isso por voc. Agora voc est com a aparncia que uma mulher deve ter: adorvel, feminina, vulnervel e
convidativa... do modo como quero que minha noiva parea. Vamos?
   Por mais que tivesse ficado contrariada, Caroline percebia que no fazia sentido discutir com Nick. Apesar de reivindicar o contrrio, ele no tinha o direito
de ter feito o que fez. Ainda assim, suas palavras sobre o cabelo e os olhos dela faziam com que ela se arrepiasse, se sentisse lisonjeada, e amansavam a moa tanto
quanto os gestos dele a irritavam.
   Ela concordou com a cabea, concisa.
   ? Sim, vamos resolver logo isso.
   Apesar de normalmente haver um perodo de espera, o juiz que presidia era amigo da famlia Fortune, e foi com satisfao que fez uma concesso. Depois disso,
a cerimnia inteira durou menos de quinze minutos. Uma vez que eram marido e mulher, Nick segurou Caroline e deu-lhe um beijo demorado, completo, a lngua seguindo
a curva dos lbios antes de se insinuar para dentro de sua boca. Quando ele a soltou, ela estava tonta e tremendo de excitao. Ela se surpreendeu que com apenas
um beijo ele lhe provocasse tudo aquilo. Nunca havia se sentido assim com Paul.
   ? Venha, senhora Valkov ? a voz de Nick a trouxe de volta de seu devaneio. ?  hora de ir para o trabalho.
   Senhora Valkov foram as duas nicas palavras que ela registrou. Inconscientemente, Caroline olhou para sua mo esquerda. No dia anterior, na hora do almoo, Nick
havia comprado um conjunto de alianas de casamento. Caroline no esperara aquilo. Se houvesse sequer pensado nisso, teria imaginado vagamente que ele lhe daria
uma pulseira lisa de ouro. Mas agora, a aliana resplendente ? refinada, com muitos diamantes ? reluzia, fazendo com que ela soubesse que no era um sonho, e que
realmente no era mais a senhorita Fortune, mas a senhora Valkov.
   ? Caro?
   ? Sim, Nick. Estou indo. ? Cus, Caro pensou, enquanto respondia, devo estar fora de mim para continuar levando adiante essa histria. Estou parecendo uma pobre
mulher sem vontade prpria. "Sim, Nick" isso e "Sim, Nick" aquilo. Estou em estado de choque. E como me sinto.
   Mas no foi ela, mas Kate, Jake e Sterling que descreveram a situao mais adequadamente quando Nick e Caroline chegaram  Cosmticos Fortune.
   ? O qu? ? exclamou Kate ao ouvir a notcia do casamento. Olhando para os dois, boquiaberta, ela sentou-se to bruscamente em sua cadeira de trabalho que o bracelete
de ouro com pingentes que sempre usava repicou como sinos de Natal. O bracelete lhe havia sido dado por seu finado marido, Ben, e, com o nascimento de cada filho
e neto na famlia, um novo pingente era acrescentado. O bracelete agora era pesado e valioso. ? O que voc quer dizer com isso... voc se casou hoje de manh? Pelo
amor de Deus, Caroline, onde voc estava com a cabea? Voc  uma Fortune, por Deus! Minha neta mais velha! ? Os olhos azuis de Kate faiscavam de fria e suas faces
ardiam. ? Voc merecia um casamento esplndido... no uma passagem de dez minutos pelo cartrio, como se fosse um caso clandestino!
   ? E no ? ? Nick perguntou, rspido, nem um pouco intimidado pela fria de Kate. ? Este  o nosso casamento... meu e de Caro... e fizemos o que achamos que fosse
melhor, dadas as circunstncias.
   ? Quer dizer, melhor para voc! ? Jake resmungou, tomando partido da me e encarando Caroline e Nick. -Voc sabia que uma das coisas que Sterling estava fazendo
essa semana era esboar um acordo pr-nupcial, assim a fortuna pessoal de minha filha estaria salva!
   Diante da acusao ofensiva de Jake, Nick praguejou baixinho em russo ? as mesmas palavras que Caroline achava t-lo ouvido dizer na noite anterior -, e ela soube
que ele estava furioso.
   ? Eu no quero nada do maldito dinheiro de Caro! ? ele reagiu com veemncia em ingls, os msculos do maxilar retesados. ? Devido a uma srie de investimentos
inteligentes que fiz ao longo dos anos, tenho dinheiro suficiente para mim, obrigado! Ento, posso assinar qualquer papel que voc queira, Jake. Apenas envie-os
ao laboratrio quando estiverem prontos!
   ? Espero que mantenha a palavra sobre isso, Nick! -retrucou Jake, furioso.
   ? Papai... papai... por favor ? Caroline implorou, aborrecida com a discusso, embora soubesse que o pai s estava tentando proteg-la. ? Eu sei que voc est
irritado, mas Nick no vai roubar meu dinheiro. Ele no  esse tipo de homem!
   Jake riu com desdm.
   ? Quero recordar, amorzinho, que foi exatamente o que voc disse sobre Paul Andersen... e veja o desastre em que acabou aquele caso!
   ? Nem pense em meter aquela cobra pegajosa neste assunto, Jake! ? Nick sibilou, estreitando os olhos escuros. ? Paul Andersen  um idiota desprezvel! Alm do
mais, quero lembrar-lhe que a idia de me casar com Caroline partiu de voc, Kate e Sterling. E simplesmente porque permiti que vocs trs arrumassem nosso casamento,
isto no significa que pretendo deixar que o controlem! Caro e eu somos perfeitamente capazes de administrar nossos assuntos.
   ? Talvez voc tenha razo, Nick ? Kate declarou, inesperadamente; seus olhos agora brilhavam de curiosidade e fascnio ao olhar, pensativa, para a noiva e o noivo.
   Kate no pde deixar de reparar que, apesar de Caroline e Nick no estarem apaixonados e estarem casados h cerca de uma hora, eles, no entanto, pareciam j ter
formado uma slida parceria. Haviam se unido para justificar a ida impetuosa ao cartrio naquela manh e tambm defendiam o carter um do outro.
   Alm do mais, a mo esquerda de Caroline ostentava uma aliana de casamento em diamantes que qualquer mulher invejaria ? e que Nick no precisava ter comprado.
A av tambm no passou despercebido o fato de que, pela primeira vez em mais de cinco anos, sua neta havia aparecido no trabalho com o cabelo solto e sem aqueles
ridculos culos de tartaruga, que ela sempre insistia em usar.
   Essa manh, Caroline aparentava a moa jovem e bela que era, pensou Kate, ao examinar a neta com ternura. E ela no podia deixar de acreditar que Nick havia sido
o responsvel por essa bem-vinda mudana. No final das contas, o esquema parecia estar comeando muito bem, decidiu Kate, secretamente satisfeita, agora que sua
raiva pelo fato de eles terem resolvido tudo por conta prpria havia diminudo.
   ? Concordo que ns trs no temos nenhum direito de nos meter em seus assuntos e de Caroline, Nick ? declarou ela. ? No entanto, estaria mentindo se dissesse
que no estou decepcionada por no poder dar a Caroline a adorvel despedida que ela merece. Talvez voc me permita uma gentileza, concordando em manter o casamento
de vocs em segredo tanto quanto for possvel, por enquanto. Assim, ainda podemos planejar uma grande cerimnia, mesmo que alguns meses depois. E nenhum de vocs
dois ter deixado passar esse acontecimento, que deve ser um dos mais memorveis na vida de qualquer pessoa, perdendo apenas para o nascimento dos filhos. O que
me diz sobre isso, Nick?
   Ele olhou para Caroline em silncio, e em seguida de novo para Kate.
   ? Est timo... e sei que falo por ns dois quando digo o quanto agradecemos tanto sua oferta quanto sua compreenso, Kate.
   ? timo. Enquanto isso, por que voc e Caroline no passam o resto da semana fora, numa rpida lua-de-mel? Vou mandar minha secretria fazer uma reserva, por
que no? ? Kate sugeriu, propondo um lugar tranqilo e adorvel na fronteira com o Canad, que ela achava que seria o cenrio ideal para uma lua-de-mel. ? Vocs
podem voar no avio da empresa; assim, chegaro l bem rpido.
   ? Obrigada, vov ? disse Caroline, afetuosa. Embora a perspectiva de viajar para qualquer lugar sozinha com Nick, em lua-de-mel, deixasse a moa tensa, ela estava
feliz por escapar das inevitveis fofocas que comeariam a circular na Cosmticos Fortune, no importa o quanto ela e Nick mantivessem segredo. ? Se  s isso, ento
Nick e eu vamos fazer os arranjos necessrios para garantir que as coisas corram bem em nossos departamentos durante nossa ausncia.
   ? timo ? Kate aprovou com a cabea. ? Faam isso. Vejo vocs mais tarde.
   Assim que os recm-casados deixaram a sala, Jake virou-se para sua me, com ar de reprovao.
   ? No que est pensando, mame? Voc, que antes estava enfurecida, agora se mostra radiante... Voc praticamente deu a Caroline e Nick sua bno. Voc acredita
que isso foi sensato? Afinal, alm do que descobrimos quando verificamos seus antecedentes, o que sabemos realmente sobre Nick? E se o SIN estiver certo e ele for
mesmo um antigo agente da KGB? E se ele decidir no manter a palavra e se recusar a assinar o acordo pr-nupcial?
   ? Ele no . E no vai.
   ? Como pode ter tanta certeza, Kate? ? perguntou Sterling, falando pela primeira vez.
   ? Chame de intuio feminina, se preferir. Mas eu sei. Tenho certeza. Voc no percebeu uma mudana em Caroline?
   ? Bem... sim, agora que voc mencionou, havia alguma coisa diferente nela ? respondeu Jake. ? Como se ela estivesse usando nossos futuros tons de maquiagem para
primavera ou algo assim. Achei-a mais atraente do que de costume esta manh.
   ? Sim ? Sterling concordou. ? Eu tambm.
   Kate olhou por um instante para os dois homens, irritada.
   ? Vocs dois no veriam um urso se aproximando at que ele pulasse e mordesse seus traseiros! Abram os olhos! Caroline parecia diferente porque no tinha o cabelo
preso num coque e no estava se escondendo por atrs daqueles culos que, para comear, ela nem precisa. E, apesar de um pouco nervosa, como toda noiva recente,
ela no estava infeliz. Tinha o brilho inconfundvel de uma mulher se apaixonando. Ela s no sabe ainda, ento vejam bem... no vo dizer nada a ela. Nem a Nick
tampouco. Porque a menos que meu palpite esteja errado, e muito raramente est, vocs sabem... ele est to atordoado quanto ela mas talvez no to ignorante do
fato. Ouam o que eu digo, vocs dois. Esse casamento vai acabar sendo uma das melhores coisas que j arranjei! Ora, aposto que vou ganhar pelo menos dois netos
com esse acordo, se no mais! ? Kate deu uma risada satisfeita ao pensar nisso. -Agora, vamos! Tenho reservas de lua-de-mel a fazer e um casamento para comear a
planejar!
   Balanando a cabea e confusos com o comportamento dela, Jake e Sterling deixaram o escritrio, sem querer dar voz  idia que vinha  mente de ambos: que talvez
Kate estivesse ficando senil.
   Adivinhando o que eles estavam pensando, Kate riu consigo mesma depois que eles saram e fecharam a porta. Homens!, ela pensou, com pesar. Nunca tinham a menor
idia de nada. Se dependesse dela, as mulheres estariam no s dirigindo empresas ? estariam dirigindo o mundo!


   Captulo 6

   Fiel  sua palavra, Kate havia deixado o jatinho da Fortune  disposio de Caroline e Nick. Uma limusine, tambm providenciada pela av, levara os dois ao aeroporto.
Outra limusine os apanhara ao final da viagem e os levara at Maplewood Lodge.
   Era um lindo retiro rstico, s margens de um lago, no meio de uma floresta de bordos. Em vez de quartos, havia chals individuais, e enquanto a limusine passava
pela trilha de terra escorregadia pelo gelo e neve, pareceu a Caroline que ela e Nick haviam sido enviados ao mais isolado e recolhido de todos.
   ? Vov deve ter vindo aqui no vero, quando aposto que esse lugar  maravilhoso ? comentou Caroline ao olhar pelas janelas escurecidas do carro, em que a neve
batia suavemente pouco antes de ser derretida pelo aquecedor. ? Provavelmente ela nem imaginou que no seria a mesma coisa no inverno.
   ? Ainda assim,  adorvel ? disse Nick. ? Me faz lembrar a Rssia.
   ? Voc deve sentir muita falta do seu pas.
   ? Sim... mas no o suficiente para voltar para l de vez. E agora, graas a voc, no precisarei fazer isso. Sei que meus motivos para casar foram terrivelmente
egostas, Caro. Mas, ainda assim, serei sempre grato pelo que voc fez por mim. ? Os olhos escuros dele a admiraram, calorosos, e ela enrubesceu.
   ? Nem pense nisso. Do meu ponto de vista, era a nica coisa a fazer para salvar a frmula secreta de juventude da vov. Meu motivo tambm foi muito egosta, Nick.
   Com um solavanco, a limusine parou em frente ao chal. O motorista saiu para abrir a porta do carro enquanto o mensageiro que os acompanhara desde o alojamento
entrou no chal e desapareceu. Tomando a mo de Caroline, Nick a ajudou a sair da limusine. E, antes que ela percebesse, ele a suspendeu em seus braos fortes, carregando-a
pelo jardim at a entrada do chal.
   ? Nick! Ponha-me no cho! ? ela gritou, constrangida pelos sorrisos largos que via nos rostos do motorista e do mensageiro ao assistir sua luta intil para se
libertar.
   ? Quieta, Caro ? exigiu Nick. ? E pare de me bater, pelo amor de Deus! Estou apenas cumprindo minha obrigao como marido. ? No chal, ele finalmente a ps no
cho, com um sorriso to largo quanto os dos dois outros homens. Gentil, ele tirou um restinho de neve do cabelo dela. ? Um noivo deve carregar a noiva pelo umbral...
ou estou errado quanto a isso ser um costume nos casamentos americanos?
   ? No, voc est certo. Eu... bem... tinha me esquecido, foi isso ? Caroline disse, hesitante. Na verdade, como o casamento deles era arranjado, ela no esperava
que ele seguisse as tradies. Mas, como estava comeando a aprender, no havia nada sobre Nick que ela pudesse tomar como certo. Ele sempre a surpreendia.
   Quando o motorista da limusine trouxe a bagagem deles e as compras que haviam feito a caminho do hotel, o mensageiro abriu as cortinas e ligou o aquecedor do
chal, que estava frio. Caroline tirou o casaco e as luvas e parou para olhar em volta.
   O interior do chal no era to rstico quanto o exterior. Para manter o tema rural, a moblia era uma mistura ecltica dos estilos ingls e francs; no entanto,
era luxuoso, o que a fez lembrar da casa de Nick. Sofs confortveis de dois lugares ocupavam os dois lados da lareira de pedra, que subia at o telhado de vigas.
Cristaleiras, aparadores e mesas de estilo antigo se espalhavam pelo espao. Tapetes ornamentais se estendiam sobre o cho de madeira de lei. Ao lado da sala de
estar havia uma pequena cozinha. Por uma porta no lado oposto da sala chegava-se a um quarto e um banheiro.
   Nick havia dado gorjeta ao motorista e ao mensageiro, e eles j haviam sado, deixando os recm-casados a ss.
   ? Nick! ? Caroline gritou para cham-lo enquanto olhava firme para o quarto dominado por outra lareira, um armrio e uma enorme cmoda de pinho, e uma cama de
dossel, coberta com uma colcha dobrada na forma de aliana de casamento. ? Nick! Acho que houve algum engano... devem ter reservado o chal errado para ns.
   ? Por qu? ? ele aproximou-se.
   ? Bem, veja. S tem... s tem um quarto de dormir. No pode estar certo. Vov sabe das circunstncias do nosso casamento. E certamente teria reservado um chal
de dois quartos. Voc devia ligar para a recepo e falar com eles.
   ? Falar o qu, Caro? Que, apesar de sermos recm-casados, no queremos o chal de lua-de-mel? Porque foi o que o mensageiro me disse que esse chal . Veja l
fora. ? Ele se moveu em direo s janelas, pelas quais ela via que j estava escurecendo e que a neve caa mais forte. ? Voc realmente quer recuar, benzinho? E
se o SIN comear a dar umas incertas, mandar algum at aqui para investigar nosso casamento? Voc quer que eles descubram que eu reclamei com a recepo e troquei
o chal de lua-de-mel por outro de dois quartos em nossa noite de npcias?
   ? No, claro que no ? ela respondeu, percebendo o que aquilo poderia parecer para o SIN.
   ? Ento vamos fazer o melhor possvel nessa situao, est bem? Vou dormir num dos sofs ou algo assim.
   ? Isso... no vai ser muito confortvel para voc -Caroline falou, relutante, esperando que ele no interpretasse suas palavras como um convite para ir para a
cama com ela. Para ter certeza disso, ela prosseguiu: ? Eu sou menor que voc. S faz sentido se eu dormir no sof.
   ? No. ? Ele balanou a cabea. ? Agradeo a inteno, mas receio que o cavalheirismo exige que seja eu quem se acomode em algum lugar na falta de uma cama. Mas
no se preocupe. No ser to incmodo. Ento, o que voc acha de desfazermos as malas e prepararmos alguma coisa para comer?
   ? Acho uma boa idia.
   Seguindo Nick de volta  sala de estar, Caroline reparou que, antes de sair, o mensageiro havia acendido as lmpadas e a lareira, que ardia, criando uma atmosfera
de recolhimento para amantes. Com tudo isso, ela no conseguia parar de pensar no nico quarto.
   O que sua av estava pensando? Kate no era do tipo que lida de modo incompetente com qualquer situao, e Caroline no conseguia imaginar que, naquelas circunstncias,
sua av tivesse deliberadamente lhes reservado o chal de lua-de-mel. Ou o prprio hotel havia cometido um erro, ou Kate estava finalmente ficando senil.
   Caroline no podia acreditar na segunda hiptese. Ela no queria acreditar. A idia de que sua av no viveria para sempre, onipresente, inteligente e enrgica,
causava-lhe medo e desnimo. No, o hotel havia cometido um erro, era isso.
   ? Por que no desfaz suas malas primeiro, Nick, enquanto eu ponho as compras no lugar ? Caroline sugeriu, ao entrar na cozinha e acender as luzes. Elas eram fluorescentes
e bruxulearam irregulares por um momento antes de acender, desfazendo a atmosfera romntica do chal, para seu alvio.
   Caroline comeou a tirar as compras dos sacos de papel marrom sobre o balco. No caminho para o hotel, Nick havia instrudo o motorista da limusine a parar em
um dos mercados locais. Ali, Caroline havia enchido o carrinho de compras com comida suficiente para uma semana. Depois que sua av os havia alertado que o restaurante
do hotel fechava cedo e que no havia servio de quarto vinte e quatro horas, seria uma boa idia ter alguns itens bsicos  mo, se eles precisassem cozinhar.
   ? Todos os chals tm cozinha equipada ? havia explicado Kate. ? Vocs tero tudo de que precisam em matria de panelas e outros utenslios.
   Ao abrir os armrios da cozinha, Caroline viu que isso era verdade.
   ? Que tal se eu preparar alguns desses bifes hoje  noite, Nick? ? Ela pegou um pacote de carne embrulhado em papel.
   ? Que tal prepararmos juntos? ? ele respondeu, sorrindo para ela. ? Afinal,  nossa noite de npcias, e no parece justo que apenas um de ns tenha a tarefa de
cozinhar.
   ? Suponho que ns poderamos pedir para entregarem alguma coisa ? ela disse, hesitante.
   ? O qu? E fazer algum coitado carregar uma bandeja pesada at aqui, no escuro e com esse tempo? No, isso  cruel at de se ver, benzinho ? insistiu Nick. ?
Ele pode escorregar no cho coberto de gelo, cair em um barranco e ser devorado por lobos ou por algum urso atrado por nosso jantar de npcias. Provavelmente, os
ossos do pobre rapaz no sero encontrados at a primavera. Alm disso, somos recm-casados, lembra? E casais em lua-de-mel valorizam a privacidade. Temos tudo de
que precisamos bem aqui... e de qualquer maneira, teremos alguma coisa para fazer.
   Caroline enrubesceu sob o olhar dele, que a admirava com um sorriso insolente no rosto. Ela teve a inequvoca impresso de que cozinhar era a ltima coisa que
ele queria estar fazendo em sua noite de casamento. E tambm no era exatamente a maneira como, ao longo dos anos, ela havia imaginado passar essa noite. Mas, at
ento, ela nunca havia sonhado com um casamento arranjado, de papel, ou qualquer coisa parecida com o que havia acontecido nos ltimos dias. Ela ainda se sentia
como se estivesse em um sonho, dando voltas em algum carrossel maluco. Mas uma aliana de metal provava ? se ela fosse capaz de entender?
   Ela no sabia.
   Para desviar o pensamento de que estava sozinha com um homem atraente e viril que agora era seu marido, Caroline concentrou-se em arrumar as compras no lugar.
E ficou aliviada quando Nick desapareceu no quarto para desfazer as malas. O efeito que ele tinha sobre ela era muito prximo do devastador. Ela no sabia como resistiria
em ficar sozinha com ele naquele chal por uma semana inteira.
   Ela gostaria de poder dizer o que estava pensando ao encarregado de reservas na recepo por ter cometido tal erro, pensou, irritada, os nervos  flor da pele.
   Nick Valkov mais um quarto. Por uma semana.
   Ela no precisava ser qumica para descobrir que aquela era, com certeza, uma equao explosiva.


   Captulo 7

   Caroline desembrulhou o espinafre fresco e as alfaces romana, roxa e crespa e comeou a cortar as folhas, enchendo a pia com gua fria para lav-las. Decidiu
preparar uma salada mista para acompanhar os bifes, algumas batatas coradas e legumes. Uma mistura de brcolis, couve-flor e cenouras cozidos no vapor seria uma
boa idia. Mas se deu conta de que no sabia se Nick gostava daquela comida.
   ? Eu gosto ? ele anunciou, momentos depois de ela perguntar. ? Sua vez de desfazer as malas. Tomates e cebola roxa na salada?
   ? Voc leu meus pensamentos ? Caroline virou-se para responder, enquanto se dirigia ao quarto.
   Abriu duas malas Louis Vuitton e comeou a arrumar suas roupas. Nick, ela percebeu, havia deixado para ela mais da metade do espao do closet e o armrio inteiro,
reservando a cmoda para si mesmo. Isso conta pontos para ele, pensou. Mostrou considerao e que sabia dividir. As roupas dele estavam penduradas e dobradas com
cuidado, outro ponto a seu favor. Que bom que ele no era desleixado! Ela no poderia conviver com algum assim.
   Havia tanta coisa que ela no sabia sobre Nick, Caroline reconheceu tarde demais. Trs dias. Ela o conhecia, realmente, h trs dias. Mesmo agora, era difcil
acreditar que havia se casado com ele naquela manh. Mas havia, pensou, ao pendurar suas prprias roupas no armrio e dobrar outras para enfi-las numa gaveta. Ele
no era nada do que ela havia imaginado antes.
   Caroline percebia o quanto tinha sorte por ele ser um homem de bem. Mas,  claro, sua av nunca teria sugerido esse casamento se acreditasse que Nick no era,
Caroline comeava a perceber. De fato, agora que pensava a respeito, soube que Kate devia ter um timo conceito sobre Nick ? e no somente como qumico, mas tambm
como homem. Porque a av jamais a teria casado com qualquer um, ou mandado os dois sozinhos por uma semana para um lugar isolado como Maplewood Lodge, nem mesmo
para salvar sua frmula secreta.
   Perceber aquilo diminuiu um pouco da ansiedade que Caroline havia sentido desde que descobrira que o chal s tinha um quarto. Voltou para a cozinha e encontrou
os bifes grelhando e Nick mexendo a salada. Juntou-se a ele, cortando os legumes e preparando as batatas. Ela e Nick estavam to  vontade trabalhando juntos na
cozinha, que ela pensou que algum que observasse os dois acreditaria que eles estavam casados h anos, e no h menos de um dia.
   ? Voc quer ser formal e jantar  mesa? ? ele perguntou ao pegar os bifes, com habilidade. ? Ou prefere comer informalmente  mesinha de centro, em frente  lareira?
   ? Voc quer dizer como uma festinha em que as meninas vo dormir na casa de uma delas? ? Caroline sugeriu, e poderia ter mordido a lngua. Ficou vermelha de constrangimento
com o sorriso debochado de Nick.
   ? Bem, se  isso que voc tem em mente, benzinho...
   ? No  no! E voc sabe disso! ? Para evitar o olhar divertido dele, ela levantou a tampa da panela, fingindo verificar os legumes que cozinhavam sobre o fogo.
   ? Ah! Eu sei? Que eu saiba, deve ter sido um ato falho.
   ? No foi ? insistiu Caroline, ainda ruborizada, com o corao martelando to loucamente que ela sentia que poderia saltar do peito. Tampou a panela. ? E s porque
associo comer em volta de uma mesinha de centro com coisas de menina, como aquelas festinhas. E o que minhas irms e eu fazamos quando ramos adolescentes... Pipoca,
ficarem volta da lareira, contar histrias assustadoras. Sabe? Como aquela da menina misteriosa no baile de formatura do ensino mdio que depois se descobre que
havia sido morta num acidente de carro anos antes, ou os amantes num carro estacionado no bosque e um fugitivo da priso, com um gancho de ferro no lugar da mo,
que os assusta... ? A voz dela foi ficando fraca quando viu que os ombros de Nick balanavam, antes que ele explodisse numa risada profunda e forte.
   ? E isso que as adolescentes americanas fazem para se divertir? ? ele perguntou.
   ? Bem, sim, entre outras coisas ? Caroline confirmou, relutante e envergonhada.
   ? Por exemplo?
   ? Por exemplo, colocar as mos das meninas que adormeciam em tigelas de gua gelada e congelar suas calcinhas... Meu Deus! Isso soa terrivelmente idiota, no
 mesmo? No acredito que eu fazia coisas desse tipo.
   ? Nem eu ? falou Nick, ainda sorrindo. ? Talvez seja por isso que serei relegado a uma noite desconfortvel num dos sofs. Certamente no quero acordar de manh
e encontrar minhas cuecas duras como tbua. Ora, Caro, falei alguma coisa errada? Voc est ficando vermelha de novo. Eu apenas quis dizer que voc pode ficar tentada
a enfi-las no congelador, se eu for bobo o suficiente para adormecer...
   Pela forma como os olhos negros de Nick danavam de forma maliciosa, ela sabia que aquilo no era o que ele queria dizer. E certamente no era a imagem que as
palavras dele faziam surgir em sua mente, mas um retrato sexy de Nick s de cueca... e excitado. Sem se dar conta, ela passou a especular se as cuecas dele eram
de seda...
   Por Deus, qual era o problema com ela?, Caroline se perguntava, assustada... Ela no conseguia controlar a excitao. Ela normalmente no se detinha em pensamentos
de sexo nem se envolvia em conversas picantes com um homem. E esse homem era seu marido. Ora, ele podia tomar o comportamento dela como um convite para se insinuar
em sua cama mais tarde!
   Por que diabos ele tinha que ser to viril e atraente?
   Qumicos deviam ser antiquados, chatos ou esquisites, excntricos, no  mesmo? Vagueando por laboratrios empoeirados, entre pilhas de livros embolorados e
uma fileira confusa de tubos ferventes. No usavam ternos Armani nem fumavam cigarros Player ou bebiam vodca Stolichnaya. No grelhavam bifes, faziam comentrios
obscenos nem deixavam em chamas algo que no fosse um bico de Bunsen... Certamente no uma mulher sofisticada e tranqila como ela!
   Aquele mensageiro bobo e sorridente tinha aumentado o termostato do chal, o que, somado ao calor do forno, do fogo e da lareira, era demais. O chal havia se
tornado praticamente um forno, pensou Caroline. Ela devia tirar o suter que havia vestido sobre a blusa. No, ela no podia fazer isso. Nick podia dar uma interpretao
errada para seu gesto.
   ? Talvez fosse melhor comermos  mesa ? ela disse, perturbada.
   ? Podemos assistir  televiso na sala de estar ? lembrou Nick. ? Ver as notcias.
   ? Sim, timo. ? Pelo menos assim ela no teria que fazer um enorme esforo mental tentando manter um dilogo inofensivo com ele.
   Caroline se ocupou em tirar as batatas do forno e os legumes do fogo, enquanto ele tirava os bifes da grelha, colocando um em cada prato. Alguns minutos depois,
ele e ela estavam sentados no cho diante de uma mesa de centro, com a televiso ligada na CNN. Mas, para desnimo de Caroline, as notcias tambm no impediam que
Nick se pusesse a conversar.
   ? Champanhe para a noiva e o noivo. ? Ele encheu as taas de cristal quase at a borda com a garrafa de Krug que havia aberto mais cedo e ergueu a taa. ? Consigo
pensar em vrios brindes de casamento em russo. Infelizmente, meu ingls falha nesse momento. Ento...  nossa, Caro ? ele disse, com suavidade.
   ?  nossa ? ela repetiu, com um leve toque de sua taa na dele.
   Eles beberam o champanhe, Caroline muito mais do que achava que devia. Alm de algumas taas de vinho, ela no tinha resistncia ao lcool, e muito champanhe
sempre provocava turbulncia em seus sentidos. As bolhas lhe faziam ccegas no nariz, enquanto o champagne parecia correr por seu corpo, deixando-a tonta.
   Mesmo assim, teimosa, ela no quis admitir que era Nick, e no o champanhe, que lhe causava um efeito to estranho e estonteante.
   O melhor que podia fazer era pr um pouco de comida no estmago antes que ficasse bbada e no se responsabilizasse por seus atos; concentrou-se em seu prato.
   ? Seu bife est bom? Voc pediu ao ponto, no foi? -perguntou Nick.
   ? Sim, est timo... mas  mais do que conseguirei comer, voc sabe. ? Ela olhou para o bife grande e grosso com um certo pesar. ? Devamos ter dividido um, creio
eu.
   ? Fale por si s, benzinho. Voc sabe o que dizem. O homem no vive s de po... e eu pretendo comer cada pedao do meu bife. ? Com prazer, ele atacou o prprio
prato.
   At aquele momento, Caroline nunca havia pensado no ato de comer como uma experincia particularmente ertica. Mas at mesmo a maneira como Nick comia era, de
certa forma, sedutora. Seus dentes eram muito certinhos e brancos, em contraste com sua pele bronzeada. Eles mergulhavam no bife tenro de uma forma que involuntariamente
a fazia pensar em como eles afundariam em seu pescoo macio, dando pequenas mordidas amorosas por sua nuca e pelas suas coxas...
   Cus! Ela estava fazendo aquilo de novo, sonhando acordada com ele, tendo uma fantasia sensual com ele! Caroline Fortune, a equilibrada e competente... imaginando
o que poderiam ser cenas de um filme proibido para menores. Definitivamente, o champanhe a afetara. Ela no ia mais beber!
   Envergonhada, Caroline curvou a cabea, desejando que Nick no conseguisse ler seus pensamentos. Eles s podiam ter nascido do fato de que aquela era sua noite
de npcias e que ela nunca havia imaginado pass-la sozinha na cama, especialmente com um marido alto, de olhos escuros e bonito no quarto ao lado.
   To perto. No entanto, to longe.


   Captulo 8

    ? Voc quer a sobremesa agora ou mais tarde, benzinho? ? perguntou Nick, assim que terminaram de jantar. Na padaria do mercadinho onde haviam feito as compras,
ele havia visto um bolo de casamento pequeno e simples, com um casal de noivos por cima, e havia insistido em compr-lo.
   ? Mais tarde. ? Ela gemeu, esfregando o estmago, com pesar. ? Acho que no consigo comer mais nada no momento. No me lembro da ltima vez que comi tanto.
   ? Que tal se eu fizer um caf?
   ? Acho uma tima idia.
   Ela o ajudou a tirar a mesa e a colocar os pratos no lava-louas. Ele ligou a cafeteira, e, quando o caf ficou pronto, ambos levaram suas xcaras transbordando
at a sala de estar, onde se sentaram novamente em volta da lareira. Nick atirou mais lenha no fogo, arrumando-as com o atiador de brasas de ferro fundido.
   ? Ento, o que devemos fazer para passar o tempo? -ele perguntou, virando-se para ela e sorrindo. ? Vamos contar histrias assustadoras? Eu no sei nenhuma de
debutantes mortas nem sobre presos fugitivos com ganchos nas mos, mas poderia contar algumas sobre bruxas russas.
   ? No, obrigada. Acho que me assusto com a mesma facilidade que naquela poca. Vou acabar rolando na cama, sem conseguir dormir, imaginando voc se transformando
num lobisomem ou coisa assim.
   ? Ento,  assim que voc me v, no ? Voraz como um lobo? ? Nick ergueu uma sobrancelha grossa e escura.
   ? Bem... talvez um pouco ? confessou Caroline.
   ? Relaxe, benzinho. Ainda que admita que a idia  tentadora, no vou devor-la. Voc est salva comigo.
   Caroline ficou surpresa ao ter uma sensao estranha de decepo e aborrecimento pelas palavras dele, como se ela realmente quisesse ser devorada por ele. E aquilo
era ridculo.
   ? Que tal um jogo de cartas? ? ela props, para desviar a prpria ateno e tambm a dele.
   ? Tipo... strip poker ? ele sorriu, brincalho.
   ? No, eu no quis dizer isso! ? Ela enrubesceu, mordendo o lbio inferior. ? Sinceramente, Nick! Parece que todas as nossas discusses parecem levar a... a...
bem, voc sabe. A...
   ? Insinuaes sexuais? ? ele sugeriu, fingindo ajudar.
   - Bem... sim.
   ? Caro, voc  minha esposa... e esta  nossa noite de npcias. Eu estaria mentindo se dissesse que no passou pela minha cabea lev-la para aquele quarto e
fazer amor com voc. Eu sou homem! E voc  uma mulher bonita e sedutora. Estou atrado por voc... e acho que talvez voc tambm esteja atrada por mim.
   ? Como pode dizer isso? Voc ... quase um estranho para mim. ? Ela olhou para a xcara de caf, incapaz de encar-lo, com medo de que seus prprios olhos revelassem
o quanto ela realmente estava atrada por ele. E Caroline no queria se fazer de boba sucumbindo a um homem que havia se casado com ela somente para evitar ser deportado.
? Eu mal o conheo.
   ? Como um bom qumico, e definitivamente sou um deles, poderia lhe dizer que apesar das leis da cincia, ainda no se pode medir a qumica entre um homem e uma
mulher. Se existe, existe... independente de qualquer coisa. Se no existe, no existe. E se voc conhece ou no algum, no tem nada a ver com isso. E uma reao
fsica... algo que est nos feromnios.
   ? Ento, voc acha que a mente ou as emoes no tm nenhum papel nisso? ? indagou Caroline, curiosa e sentindo-se um tanto deprimida com as palavras dele. At
aquele momento, ela comeara a pensar que havia feito mal julgamento de Nick. Agora se perguntava se nos ltimos dias ele havia mantido seu melhor comportamento,
escondendo suas tendncias machistas. Porque ele estava falando sobre sexo, no de amor... e ela nunca havia sido capaz de separar os dois.
   ? No ? ele respondeu  pergunta dela. ? A atrao  totalmente fsica.
   ? Bem, suponho que eu deva me sentir lisonjeada. Mas... no funciona dessa forma comigo, Nick. Antes que eu me envolva com um homem, gosto de pensar que o conheo,
que temos muitas coisas em comum, que temos... sentimentos um pelo outro, que nos imporamos um com o outro. No parece certo para mim, de outra forma.
   ? No, imagino que no. Voc  romntica, Caro.
   ? E o que h de errado nisso?
   ? Nada... a no ser que isso com freqncia torna a vida mais complicada.
   ? Por qu? Porque voc tem que se dividir com outro ser humano?
   ? Em parte  isso, sim ? ele respondeu, olhando para sua xcara de caf, revolvendo, negligente, o contedo.
   ? E voc no gosta disso?
   ? No disse isso, Caro.
   ? No com tantas palavras, talvez. Mas foi isso o que quis dizer, no foi, Nick?
   ? No, no foi. O que eu quis dizer foi que, para eu querer fazer isso, tenho que sentir que a mulher  especial, que ela  algum por quem eu poderia me apaixonar.
Acredito que isso valha para a maioria dos homens, na verdade. Acho que no estamos to inclinados quanto as mulheres a examinar nossas emoes profundamente. A
menos que tenhamos um bom motivo para isso. Ento... que tal o jogo de cartas? ? Ele habilmente mudou de assunto.
   ? Estamos falando de algo como gin rummy, no  mesmo? ? perguntou Caroline, ao mesmo tempo aliviada, e no entanto estranhamente decepcionada por estar de novo
em territrio seguro.
   ? Se isso lhe d prazer. Mas apenas para torn-lo um pouco mais interessante, o que me diz de quem perder preparar o caf da manh?
   ? Est combinado.
   Caroline encontrou no apenas um baralho, mas tambm um tabuleiro de cribbage na enorme cristaleira antiga contra uma das paredes. Eles jogaram, e, apesar de
sempre ter se considerado uma boa jogadora de cribbage, ela perdeu, pois seus pontos ficaram muito atrs dele ao final do jogo.
   ? Estou mesmo sem sorte essa noite, acho ? comentou ela, decepcionada, ao juntar as cartas e o tabuleiro de cribbage para devolv-los a seus lugares.
   ? Bem, voc sabe o que dizem. Feliz no jogo, infeliz no amor. Ento talvez o contrrio tambm funcione.
   ? Talvez ? ela concordou, levantando-se. ? Mas tenho a clara impresso de que no serei convidada para tantos encontros quando os futuros pretendentes souberem
que eu j tenho um marido em casa.
   Nick, que estava levando as xcaras de caf para a cozinha, congelou de repente; Ento, depois de um instante, largou as xcaras, e foi at a cristaleira, onde
ela acabava de fechar uma gaveta.
   ? Caro, eu sinto tanto ? ele disse, dando-lhe um abrao. ? No sei como pude ser to egosta, to burro. Mas como no ando saindo com ningum e como tudo aconteceu
to depressa, nunca pensei nesse aspecto da situao. Meu Deus! Nem mesmo pensei em perguntar se voc estava saindo com algum. Eu apenas supus...
   ? No, tudo bem. Eu no estava mesmo... saindo com ningum.
   ? timo. Que bom, ento, no compliquei as coisas para voc. Mas veja, Caro, se quiser sair com algum, a qualquer momento durante nosso casamento, quero que
saiba que eu... Bem, no vou insistir que voc seja fiel. Eu vou... bem... fazer vista grossa, como dizem. ? Mas ao falar essas palavras, Nick pensou, de repente,
que ele no faria isso, que ela era sua esposa e ele no queria que ela se envolvesse com nenhum outro homem! A ferocidade de seu sentimento de posse o assustou.
   ? Ah, Nick, eu... no sei o que dizer... a no ser que no poderia fazer algo assim. Eu no me sentiria bem com isso. Sei que nosso casamento  de convenincia,
mas ainda assim... vo surgir rumores, comentrios pela Cosmticos Fortune. Vov ia subir pelas paredes!
   Eu tambm ia, Nick pensou, srio, embora no o tenha dito em voz alta. Em vez disso, falou:
   ?  claro que ia. Ela mesma me disse isso. No sobre voc, mas sobre mim; ela espera que eu faa a coisa certa com voc, que seja um marido fiel. Tenho que admitir
que fiquei um pouco insultado, porque no havia pensado em nada diferente. Ento, vamos comer aquele bolo e tomar mais um pouco de caf?
   ? Sim, e suponho que devemos jogar uma moeda para o alto para ver quem vai para o banho primeiro. ? Com a mo, Caroline conteve um bocejo. ? Perdoe-me. Caso no
tenha reparado, Nick, est ficando tarde... e receio que meu ritmo interno no esteja programado para me manter acordada muito depois das onze, especialmente depois
de algumas taas de champanhe.
   Ele riu.
   ? Na verdade, o meu tambm no. E isso o que acontece quando se comea muito cedo no mundo corporativo, eu acho.
   Eles comeram o bolo, e em seguida Caroline venceu o cara ou coroa. Assim, enquanto Nick lavava os pratos, ela preparava o banho, jogando na gua um leo perfumado
fabricado pela Cosmticos Fortune. Depois de verificar que havia toalhas e roupo, trancou a porta do banheiro e tirou a roupa. Ela se sentia estranha e nem um pouco
desconfortvel por estar empenhada em tarefas ntimas com Nick no quarto ao lado. Mas lembrou a si mesma que, fosse como fosse, ele era seu marido e ela conviveria
com ele da em diante... Ou pelo menos at que ele estivesse salvo do SIN e ambos pudessem obter um divrcio tranqilo.
   Caroline entrou na gua, dizendo a si mesma que, por mais que desejasse um banho demorado, aquela no era uma boa idia. Depois do champanhe que havia tomado,
poderia acidentalmente dormir na banheira, e Nick poderia acabar tendo que derrubar a porta para impedir que ela se afogasse. Ela o imaginou levantando seu corpo
nu nos braos, carregando-a para o quarto, deitando-a sobre a cama, sendo forado a lhe fazer respirao boca a boca. S que, em seus devaneios, os esforos dele
em salv-la se tornavam beijos apaixonados.
   Com um movimento brusco, despertou, percebendo que havia mesmo cochilado. Obrigou-se a sentar-se ereta na banheira, jogando gua no rosto at ter certeza de que
no adormeceria de novo.
   ? Caro. Caro! ? Nick dava pancadas firmes na porta, sacudindo a maaneta. ? Est tudo bem a?
   ? Sim. Sim! ? gritou ela, cobrindo, ansiosa, os seios com a toalha, apreensiva de que a qualquer momento tudo o que imaginara poderia se tornar real, que ele
derrubaria a porta.
   ? Bem, por que est demorando tanto? Fiquei preocupado com voc.
   ? Desculpe. Eu... estava sonhando acordada, acho -explicou ela, pouco convincente, j que no ia lhe contar de jeito de nenhum que havia cochilado. Ele podia
pensar que ela ainda estava cochilando, falando dormindo, e arrombar a porta para entrar.
   O medo a estimulou a sair da banheira, secar-se e vestir o roupo s pressas. Ela escovou os dentes rapidamente, perguntando-se se deveria ou no tirar a maquiagem.
No era bom dormir de maquiagem; sua av lhe havia instrudo tantas vezes. Mas Caroline decidiu que de jeito nenhum ela deixaria Nick v-la de rosto lavado, pelo
menos por enquanto.
   ? Como se precisasse se importar com isso, Caro -resmungou para si mesma. ? Voc devia saber lidar melhor com essa situao, lembrar-se de que se trata apenas
de um casamento no papel!
   Ela destrancou a porta do banheiro, sem esperar encontrar-se cara a cara com Nick. Ao se deparar com ele, deu um pulo, assustada, levando a mo  boca para conter
um arquejo.
   ? Ah! ? Caroline deu uma risada fraca. ? Voc me assustou, Nick.
   ? No foi minha inteno. Tem certeza de que est tudo bem? ? Suas sobrancelhas se franziram de preocupao quando olhou para ela.
   ?  claro. Por que no estaria?
   ? Bem, no sei, Caro. Voc me disse que estava cansada, entrou naquele maldito banheiro e ficou l quase uma hora.
   ? Uma hora! Eu... nem percebi. ? Ela devia ter dormido muito mais que alguns momentos, pensou, desanimada. Foi um milagre no ter se afogado! ? Sinto muito. Realmente
foi um dia longo, Nick.
   ? Sim, eu sei. Por que no vai para a cama? Vou tomar banho e tentar fazer o mnimo de barulho possvel. ? Nick no acrescentou que, se ela no fosse logo para
a cama e sasse da luz, ele ia ter que tomar um banho muito frio. Mas reconheceu que seu rosto deve ter deixado transparecer alguma coisa porque de repente Caroline
engoliu em seco, segurou o roupo para mant-lo fechado e passou por ele sem dizer nada, fazendo o possvel para no encostar nele.
   Nick praguejou em russo e entrou no banheiro quase batendo a porta. Que droga! Manter a castidade ia ser bem mais difcil do que ele havia pensado. Por que diabos
ele tinha concordado com esse casamento maluco? Ele devia simplesmente ter deixado o SIN deport-lo!
   A gua do chuveiro atingiu sua cabea como um rajada de gelo, tirando-lhe o flego e espetando-lhe a pele como agulhas. Ele no podia suportar aquilo. Quem quer
que tivesse sugerido isso como remdio para seus males era um completo sdico, pensou. Tremendo, Nick abriu a torneira quente, gemendo ao se lembrar da viso do
corpo macio de Caroline, vestido num roupo e iluminado pela luz do banheiro e do quarto. Ele havia conseguido ver a doce curva dos seios dela, cheias demais para
que ela se tornasse uma modelo perfeita, e uma pontinha de seus mamilos escuros, o arco de sua cintura esbelta, o comprimento de suas pernas vigorosas.
   Ele queria agarr-la e lan-la sobre a cama, arrancar seu roupo e fazer amor com ela at altas horas. Em sua mente lhe vinha o pensamento de que ele era maior
e mais forte e que era seu marido. Sem falar que provavelmente ela no diria a ningum se ele no mantivesse sua parte do acordo naquele casamento arranjado. Ele
bem que havia ficado tentado.
   Mas Nick no era Paul Andersen, e no podia nem iria machucar Caroline daquela maneira. Mesmo se ela correspondesse a seus avanos, se sentiria humilhada e envergonhada
depois. E poderia at ser levada a pedir o divrcio, e sua av certamente exigiria saber o motivo.
   Nick no se assustava com facilidade. Mas Kate Winfield Fortune exaltada era algum que ele particularmente no queria enfrentar.
   No, como dizia o ditado, ele s tinha que relaxar e aproveitar. Ele gemeu de novo ao pensar nisso. Saiu do chuveiro, secou-se com a toalha e vestiu a cala do
pijama e o roupo que ele havia tirado da mala em respeito aos sentimentos de Caroline.
   Ao abrir a porta do banheiro, ele viu que ela havia deixado a luminria acesa na mesinha-de-cabeceira, e ele no precisaria se movimentar no escuro at a sala
de estar.
   ? Caro, voc est acordada? ? ele perguntou, tranqilo, aproximando-se da cama.
   ? Hummm. Quase ? ela murmurou, sonolenta, esticando-se e bocejando.
   Como uma gatinha, ele pensou, sentindo o desejo apertar-lhe a virilha. Na verdade, ela no estava realmente acordada. Ele podia deslizar para baixo do cobertor,
deitar-se ao lado dela, tom-la nos braos e consumar o casamento antes que ela se desse conta do que estava acontecendo.
   No, ele no podia fazer isso, diabos!
   ? Caro... boa noite, benzinho. Feliz noite de npcias -cochichou ele, curvando-se e beijando levemente sua boca antes de desligar a lmpada e sair do quarto relutante,
na ponta dos ps.
   Na sala de estar, ele viu que Caroline tivera a considerao de arrumar da melhor maneira possvel um dos sofs para ele, com travesseiro e cobertores. Ele acomodou
como pde seu metro e oitenta e quatro na cama improvisada, gemendo e em silncio amaldioando o idiota que havia se enganado na reserva. Antes de pegar no sono,
Nick pensou que, se descobrisse quem fora o responsvel, torceria o pescoo do maldito idiota!


   Captulo 9

   Quando Kate Fortune olhou pelas amplas janelas de seu escritrio no ltimo andar da Cosmticos Fortune, no conseguiu reprimir uma risadinha de deleite. Ela teria
dado qualquer coisa para ver a expresso no rosto de Caroline Nick quando percebessem que haviam sido instalados no chal de lua-de-mel no Maplewood Lodge.
   E claro que Kate no tivera como instruir a secretria, Louise Rhymer, a fazer a reserva, ou mesmo como faz-lo pessoalmente. Embora conhecesse tanto Louise quanto
Will Bentley, os proprietrios de Maplewood Lodge, h anos e confiasse em sua discrio, era possvel que sem quere eles deixassem escapar a algum e os recm-casados
ficassem sabendo o que Kate havia feito.
   Ainda assim, ela conseguiu administrar o caso com bastante facilidade. Instrura a empregada a fazer os arranjos, sabendo que, se alguma coisa desse errado, ela
poderia culpar a senhora Brant pela confuso.
   Olhando para o cu cinzento e triste de inverno, Kate se perguntava se estaria nevando do outro lado da fronteira com o Canad, em Maplewood Lodge. Esperava que
sim, esperava que Caroline e Nick estivessem em seu chal de quarto nico, sozinhos um com o outro, fazendo o que era natural acontecer entre um belo homem e uma
bela moa em tal situao.
   O casamento deles no ia terminar em anulao ou divrcio... No se ela pudesse impedir!
   Rumores sobre Caroline e Nick terem fugido juntos j circulavam pela Cosmticos Fortune. E, embora Kate no tivesse confirmado nenhuma das fofocas, tampouco havia
negado. Apenas sorria, misteriosa, para as perguntas educadas, feitas com cuidado, para que todos soubessem que se isso realmente houvesse acontecido, ela no ia
condenar ningum. E havia instrudo Jake e Sterling a agirem da mesma maneira.
   Mais cedo, ao passar por Paul Andersen em um dos longos corredores da empresa, Kate havia balanado a cabea e aberto um sorriso radiante para ele, certa de que,
pela expresso de seu rosto, eleja sabia sobre Caroline e Nick e desejava muito que lhe dissessem que no era verdade.
   Sem chance, Paul, seu idiota, Kate pensara ao passar por ele. Voc tem sorte de ainda ter um emprego na Cosmticos Fortune depois de ter partido o corao de
minha neta!
   Virando-se discretamente para trs, Kate tivera a enorme satisfao de ver Paul ajeitar o colarinho com o dedo, como se a gravata o estivesse sufocando. Ao longo
dos anos, ela havia aprendido como fazer com que um mero olhar para pessoas que a desagradavam fizesse com que se perguntassem, nervosas, se ela estava a ponto de
demiti-las. Em mais de uma ocasio, Kate havia feito exatamente isso porque no tolerava nenhum funcionrio que ficasse abaixo de suas expectativas na empresa. Com
a mesma facilidade, aqueles que se superavam em seu trabalho tambm eram recompensados.
   Seja dura, mas justa, era o que seu finado marido, Ben, gostava de dizer, e Kate adotara o lema.
   De costas para as janelas, Kate saiu de seu escritrio. Ela poderia ter apenas ligado para o laboratrio, mas sabia que no conseguiria nada pelo telefone com
o aptico Otto Mueller. Cara a cara, no entanto, e na ausncia de Nick, ele no acharia to fcil evitar suas perguntas. E, ainda que houvessem passado apenas alguns
dias desde a apresentao formal de Nick sobre a frmula, ela tinha de saber como estava progredindo Rosto Fabuloso, se estavam ou no mais perto de descobrir o
ingrediente X.
   ? Bom dia, Otto ? Kate cumprimentou o qumico atarracado, sorrindo agradvel e calorosa ao entrar no laboratrio, e fazendo com que ele deixasse escapar um gemido.
   Como todo mundo na Cosmticos Fortune, Otto sabia que, quando a chefe gorjeava, brilhante e alegre como um pssaro, era sensato ficar alerta. Em resposta, ele
resmungou, taciturno, antes de voltar, determinado, sua ateno ao trabalho.
   ? Otto, quero saber se eliminamos mais alguma possibilidade para o Ingrediente X nos ltimos dias. ? Kate no se intimidava pelas poucas palavras do rapaz.
   ? Sim ? concordou ele com a cabea, sem dar mais nenhuma informao.
   ? Ah, faa-me o favor, Otto! Sua lealdade e discrio so admirveis. Mas quantas vezes preciso lembrar-lhe que voc trabalha para mim... e no para Nick Valkov!
Ento, quero saber sobre o ingrediente X!
   ? Amaznia ? respondeu o qumico, relutante.
   ? Amaznia? Que diabos isso quer dizer? Explique-se. Juro, arrancar uma palavra de voc  como tirar um dente. Voc se refere  floresta amaznica?
   ? Sim ? suspirou Otto, sabendo que teria que conversar, querendo ou no. E quando Nick voltasse ao escritrio, ficaria furioso porque no queria que ningum,
nem mesmo Kate, se metesse em seu territrio. E Otto no ia querer receber mais uma das broncas de Nick. ? Acho que  l que o ingrediente X ser encontrado. Mas
no posso dizer com certeza, entende. Ainda tenho mais testes a fazer.
   ? Quantos testes?
   ? No sei. Mas so vrios. Nick e eu j repetimos muitas vezes: em cincia, no se pode ser apressado, senhora Fortune. A senhora no quer que cometamos erros,
no ? Como acidentalmente transformar o Rosto Fabuloso em Rosto Pavoroso?
   ? No, claro que no.
   ? Ento, a senhora deve ser paciente ? o qumico insistiu, teimoso.
   ? Ainda assim, de que estamos falando, Otto? Dias? Semanas? Meses?
   ? Semanas, talvez... se tivermos sorte. E se a senhora puder me deixar continuar a trabalhar em paz! ? Otto olhava para ela, agressivo, apontando para os bqueres
e tubos de ensaio, o microscpio, os slides e a pilha de notas  frente dele.
   Franzindo as sobrancelhas e batendo o p, impaciente, ela ponderava se o pressionaria ainda mais. Mas sabia, pelo maxilar teimoso dele, que no tinha muita chance
em conseguir muita coisa. Aquele bode velho obstinado! Se no fosse to brilhante, ela o demitiria, pensava, enfurecida.
   Nunca havia ocorrido a Kate que, em todos os departamentos da Cosmticos Fortune, ela tinha pessoas no comando que compartilhavam muitas de suas prprias caractersticas.
E ela secretamente gostava das pequenas escaramuas com Otto e com vrios outros de seus empregados. Eram o que a mantinha de p.
   Otto era to compenetrado e srio que, mais de uma vez, Kate havia sido tentada a fazer alguma brincadeira que o deixasse desconcertado. Mas tinha resistido ao
impulso, considerando-o indigno de uma mulher em sua posio. Ela sabia que Nick, no entanto, no era to contido, e riu lembrando a ltima brincadeira que ele havia
feito com o colega.
   Nick havia despejado uma substncia qumica inofensiva na cafeteira do laboratrio. Otto passou o resto do dia com a boca e a lngua descoloridas. Agnes Grimsby,
responsvel pelo refeitrio da empresa e sempre muito gentil com Otto, quase desmaiou quando o viu no almoo, especialmente quando Nick sugeriu que a sua comida
era responsvel pelo incidente.
   ? Tudo bem, Otto. Entendi ? disse Kate, mordaz. -Volte para os seus testes. Mas lembre-se de me notificar assim que tiver feito algum progresso.
   Ela comeava a esboar uma idia com relao ao ingrediente X. A frmula secreta da juventude era seu beb.
   Havia sonhado com ela durante anos, e agora que finalmente chegava a uma concluso, ela queria ser a responsvel pela ltima pea da equao.
   To logo soubesse qual era o ingrediente, voaria at a Amaznia, pilotando ela mesma o jato da empresa, decidiu. Mas no podia contar a ningum, nem mesmo a Sterling,
sobre seu plano. Toda a famlia e os amigos se oporiam ferozmente ao esquema. Diriam que era uma viagem longa e cansativa e que ela estava velha demais para se lanar
a uma aventura to exaustiva, especialmente se estivesse no controle do avio. Mas Kate sabia que, graas a um regime regular de exerccios, estava mais em forma
que muitas mulheres com dcadas de idade a menos do que ela.
   Sim, ela iria para a floresta amaznica pilotando.
   Amlia Earhart perdia para Kate Fortune!


   Captulo 10

   Para Caroline e Nick, a semana em Maplewood Lodge pareceu ter passado rpido, embora o ritmo de vida no chal tivesse, na verdade, sido lento. O inverno continuava
terrivelmente frio, o cu escuro e nevoento, os dias cinzentos e lgubres. Mais de uma vez, os recm-casados acordaram com a neve que caa, formando elevaes e
depresses sobre a terra, como um lenol imaculado. Dos galhos das rvores pendiam lgrimas em forma de pingentes de gelo, e uma camada dura de orvalho congelado
incrustava-se sobre o solo.
   Mas o tempo no impedia que Caroline e Nick sassem. Eles andavam de tren, acompanhados pelo tilintar musical dos sinos presos aos arreios dos cavalos, e faziam
longas caminhadas pelo bosque, soltando baforadas de ar condensado pela boca. Fizeram grandes bonecos de neve ? uma noiva e um noivo ? na varanda frontal do chal,
e travaram vigorosas batalhas de bolas de neve, que sempre terminavam com ambos rolando pelo cho, rindo, encharcados e sem flego.
   Dentro do chal, eles se revezavam no banheiro, trocando as roupas molhadas por outras, limpas e quentinhas.
   Depois sentavam-se diante da lareira fumegante e alegre, segurando xcaras de chocolate quente. Jogavam cartas e os jogos de tabuleiro que encontraram na cristaleira
antiga e ouviam msica do aparelho de som. A CNN os mantinha informados das notcias, e eles conversavam sem parar.
   Caroline nunca tinha vivido com um homem. Na verdade, ela no havia morado com ningum, j que havia sado de casa na poca da faculdade para seguir o prprio
caminho. Ela no tinha se dado conta, at agora, de quanto era solitria, do quanto sentia falta da companhia de outro ser humano. Era agradvel ter algum com quem
dividir os afazeres domsticos, com quem conversar, algum que ficasse orgulhoso de suas conquistas.
   ? Caro, benzinho! ? Nick chamou, mais de uma vez. ? Depressa! Seu comercial est no ar.
   Toda vez, ela corria conscienciosamente at a sala de estar, onde o rosto de sua irm Allie sorria para ela na tela da televiso enquanto uma voz ao fundo falaria
da base da Cosmticos Fortune, do rimei, do batom ou de seu esmalte de unhas. Embora Caroline tivesse visto os anncios inmeras vezes, e tivesse sido responsvel
pelo conceito original, ainda assim nunca se cansava de assistir. E ficava secretamente excitada pela prova concreta de seu sucesso.
   ? Lembro-me de desenvolver essa cor... pau de canela ? Nick observou enquanto, na tela da televiso, Allie franzia os lbios para dar um beijo brincalho em seu
belo admirador.
   ?  um de nossos tons de batom e esmalte de unhas mais populares ? disse Caroline, sentindo um calor descer at os dedos dos ps com a idia de que Nick estava
orgulhoso do trabalho dela, que era nela que ele pensava quando via os comerciais... nem Allie nem Kate, mas ela, Caroline.
   ? Hummm... ? Nick ergueu uma sobrancelha grossa e escura. ? Bem, eu tenho uma idia brotando para uma nova cor quando voltarmos para o trabalho... Aposto que
vai superar todas as outras em vendas. Na verdade, j tenho at um nome para ela.
   ? Mesmo? ? ela respondeu, brejeira, caminhando na direo dele. ? Desde quando os qumicos do nome aos produtos da Cosmticos Fortune? E, afinal, como estava
pensando em chamar essa cor?
   ? Beijo de Caroline. Tenho em mente alguma doce, apimentada e sensual, tudo ao mesmo tempo. ? Esticando o brao de onde estava no cho, Nick agarrou o tornozelo
de Caroline, puxando-lhe o p e fazendo-a cair sobre o colo dele. Virando-a, ele a pressionou contra o tapete. ? Espero no ter nenhuma discusso com o departamento
de marketing por causa disso.
   ? No, no. No pense que s porque se casou com a diretora de marketing, ter privilgios na empresa ? insistiu Caroline, o corao martelando ao sentir o corpo
rijo e musculoso sobre seu corpo macio e esbelto. Os lbios dele estavam a apenas alguns centmetros dos seus. Os olhos dele danavam e ardiam como as brasas que
saam do fogo na lareira.
   ? No terei? Bem, temos que ver isso, no ? ? falou Nick, num tom profundo e calmo, antes que sua boca reivindicasse a dela, sua lngua insidiosa separasse os
lbios dela e se forasse entre eles, buscando e explorando.
   Involuntariamente, Caroline deu um gemido e abriu a boca para ele. Como se tivessem vontade prpria, seus braos se enrascaram no pescoo dele. Seus dedos se
enfiaram entre o cabelo grosso e escuro. Um desejo intenso despertava e crescia dentro dela. Por mais que tentasse lutar contra sua atrao por Nick, bastava que
ele a tocasse daquele jeito e ela parecia amaciar e derreter como cera. Sentia o corpo fraco quando os lbios dele se mexiam nos dela, tornando-se mais vorazes,
mais insistentes. A lngua de Nick seguia os contornos da boca de Caroline. Os dentes dele mordiscavam seu lbio inferior, provocando-lhe um formigamento por dentro.
   Caroline sabia que no devia deixar que ele a beijasse daquele jeito. Aquilo, afinal, s lhe traria problemas, pensava, sem esperana. Ele havia deixado claro
que acreditava que a atrao era puramente fsica, apenas baseada na qumica, nos feromnios... E que no tinha nada a ver com a mente ou com suas emoes. E ela
no podia pensar daquele jeito. Gostando ou no, ela sabia que, por menos que quisesse, Nick lhe provocava uma reao bem alm da biolgica. Durante a semana que
estava terminando, ela comeara a ter sentimentos por ele.
   Mais de uma vez, ela esquecera por completo que o casamento deles era de convenincia, que a av e o pai dela praticamente o haviam contratado para que se casasse
com ela e assim salvasse a frmula secreta de juventude. E ela no devia se esquecer disso, Caroline se dissera em cada uma dessas ocasies, exatamente como fazia
agora. Mas emoes no eram algo que se ligava e desligava como um boto, ainda mais quando ela estava deitada daquele jeito e ele a fazia sentir-se como mulher
e desejvel. Ainda assim, ela no queria ser usada e magoada, ter o corao partido novamente.
   ? Nick... Nick... ? ela murmurou, quando a boca dele, selvagem, passeou de seu rosto at a tmpora. ? Voc... no deve fazer isso. Ns no devemos fazer isso.
   ? Por que no? ? Ele beliscava sua orelha, a respirao quente sobre a pele dela, fazendo-a arrepiar. ? Voc  minha mulher, Caro. Eu sou seu marido.
   ? Eu sei... mas somente no papel, lembra? No posso esquecer disso simplesmente porque voc quer, Nick. Quando seus problemas com o SIN chegarem ao fim, ns chegamos
ao fim. Voc sabe disso ? ela lembrou, tranqila.
   ? Sim, acho que voc tem razo. ? Relutante, com a respirao pesada, ele soltou-se dela, ajudando-a a sentar-se. Por dentro, ele gemia ao olhar para o cabelo
emaranhado dela, o rosto ruborizado, a pulsao visivelmente irregular no delicada contorno de seu pescoo esguio. Manter as mos afastadas de Caroline estava se
tomando cada vez mais difcil. Quanto mais tempo passava com ela, mais a desejava. ? Sinto muito, Caro. No tenho nenhuma desculpa... a no ser que um homem teria
que estar morto para no desej-la, e eu estou muito vivo. -Em minha melhor forma e no acostumado a viver como um monge, ele acrescentou, mentalmente.
   Caroline deu uma risada rouca.
   ? Acho que eu devia me sentir lisonjeada. Olha, Nick, j  tarde, acho que vou tomar um banho e dormir.
   ? Sim, tudo bem, timo. Eu... bem... vou ler um pouco, ouvir um pouco de msica at voc terminar. No consigo descansar muito naquele sof, mesmo.
   Ela enrubesceu com aquilo, chateada.
   ? Voc sabe que j lhe ofereci a cama vrias vezes. No faz sentido que voc durma ali se eu sou menor do que voc e ficaria bem no sof.
   ? No ? ele balanou a cabea. ? Minhas "tendncias do Velho Mundo", como voc chama, no so to fortes que incluam forar minha esposa a dormir no sof. Alm
do mais, o que  mais uma noite?
   Lembrar que eles iam embora na manh seguinte deprimiu Caroline. Pela primeira vez, que ela lembrasse, no estava ansiosa e agitada para retornar ao trabalho.
Desejava que ela e Nick tivessem tido oportunidade de tirar mais de uma semana de lua-de-mel, que pudessem ficar no Maplewood Lodge por um ms ou mais. Mas isso
no era possvel. A frmula secreta da juventude era importante demais para Kate para que ela tolerasse a ausncia deles por mais tempo... mesmo tendo sido ela a
lhes providenciar uma lua-de-mel.
   Suspirando forte, como Nick havia feito momentos atrs, Caroline levantou-se e dirigiu-se ao banheiro. Pouco depois, ela se deitou, sentindo-se estranha, como
se estivesse a ponto de chorar. H muito tempo ela no havia sido to feliz como naquela semana. Ela devia ter deixado Nick fazer amor com ela, refletia, revirando-se
por baixo dos cobertores. Era uma bobagem enganar-se de que havia feito a coisa certa ao impedi-lo... porque seu corao dizia outra coisa.
   Ao cair no sono, surgiam espontneos em sua mente o pensamento e o medo de que ela estava tolamente se apaixonando por seu marido contratado.


   Captulo 11

   Caroline acordou de repente, batendo os dentes. Apesar de estar debaixo dos cobertores, estava congelando. O quarto de dormir parecia estar trinta graus abaixo
de zero. Acendendo o abajur, percebeu que sua respirao produzia nuvens brancas no ar.
   ? Ni-Ni-Nick ? chamou, tremendo violentamente e esfregando as mos no esforo de aquec-las.
   ? Estou aqui. S um momento, benzinho. ? Ele passou pela porta, carregando vrios galhos, que depositou na soleira da lareira do quarto antes de comear a empilh-los.
   ? O que... o que aconteceu? ? perguntou Caroline.
   ? O aquecedor do chal desligou. J liguei para a recepo, mas parece que no h funcionrio de manuteno de planto depois de meia-noite, ento no h ningum
para consertar at amanh de manh. Teremos que nos aquecer da forma antiga. No, no saia da cama, Caro! Pelo amor de Deus, voc quer morrer de frio? Volte para
baixo dos cobertores. No h nada que possa fazer para me ajudar. Deixe comigo.
   Ela estaria mentindo se no admitisse que estava aliviada de no ter que deixar o calorzinho da cama. Essa era uma das vantagens de ter um marido com tendncias
do Velho Mundo, pensou. Ele esperava tomar conta dela numa situao como aquela.
   Nick acendeu o fogo e revirou os gravetos. Em seguida, desapareceu pela cozinha, retornando pouco depois com uma xcara fumegante do que ela a princpio sups
que fosse chocolate quente.
   ? No, na verdade,  um grogue ? anunciou. ? Ch misturado com conhaque. A melhor coisa do mundo para aquec-la rapidamente. Tambm  bom para resfriados, e para
preveni-los. No quero que voc fique doente, ento beba, Caro.
   Enquanto ela dava um gole no grogue, grata pelo calor que proporcionava, ele pegava o atiador de brasas para avivar o fogo. Jogou mais gravetos, e logo a chama
comeou a arder, afastando o frio do quarto. Depois, e antes que Caroline percebesse sua inteno, Nick tirou o robe dos ombros e deitou-se na cama a seu lado.
   ? O que voc pensa que est fazendo, Nick? ? ela gritou.
   ? Dividindo calor corporal. Ento, terminou? ? Ele tomou-lhe a xcara vazia das mos. ? Boa menina. Acomode-se de forma confortvel. ? Procurando sob os cobertores,
ele a abraou, esticou o brao e apagou o abajur, deixando que somente o brilho do fogo, que formava sombras danantes nas paredes, iluminasse o quarto.
   Apesar da ansiedade e da estranha expectativa que sentia ao deitar-se com Nick na mesma cama, Caroline tinha que admitir que pelo menos agora estava se aquecendo.
Diferente do corpo dela, o dele era como uma fornalha, gerando intenso calor. O conhaque misturado ao ch tambm havia sido de imensa ajuda. Abraada contra o peito
amplo e peludo de Nick, envolvida pelos braos fortes que lhe ofereciam segurana e conforto, ela se sentiu agradavelmente segura e sonolenta. No tinha mais frio.
   ? Melhor? ? ele perguntou, suavemente.
   ? Sim, muito.
   ? Que bom, fico feliz.
   Mais tarde, Caroline culpou o conhaque, ainda que, no fundo do corao, ela soubesse que nada, e ningum a no ser ela mesma, era responsvel por no dizer uma
nica palavra de protesto quanto, depois de um tempo, Nick comeou a beij-la e a acarici-la gentilmente. Ela entendia o que o motivava, porque, longe de voltar
a dormir quando ficou mais aquecida, ela agora tinha cada vez mais conscincia de seu corpo, abraando-a. De sentir-lhe o peito nu e a palma da mo dele sob seu
rosto. Da batida firme e reconfortante de seu corao contra a orelha dela. Da fora de seus msculos retesados. Do fato de que ele estava acordado, e excitado.
   No importava como o casamento deles fora arranjado. Nick era seu marido, e houvesse o que houvesse, ela queria aquele homem, pensava Caroline. Era a qumica,
sobre a qual haviam conversado, pura e simples. Por quanto tempo mais ela poderia continuar lutando contra seus sentimentos por ele? Um dia? Uma semana? Um ms?
Se fosse honesta consigo mesma, ela sabia que, no final, ia enfraquecer e entregar-se  tentao. Essa ltima semana havia lhe mostrado o quanto seria difcil viver
com ele, sem sucumbir. Ento por que no render-se agora e resolver logo isso? Assim, talvez ela pudesse tir-lo de seu universo. E apagava, determinada, de seu
pensamento, o fato de que podia passar a quer-lo ainda mais, perder o corao inteiramente para ele. Era o conhaque, dizia a si mesma, que havia desnorteado sua
mente e feito com que, confusa, ela pensasse assim. Mas, bem l no fundo, Caroline sabia que no era verdade, j que cedia  investida violenta da boca sedutora
de Nick.
   A lngua dele separava-lhe os lbios, empurrando-se para dentro da caverna quente e mida de sua boca. As mos dele se emaranharam em seus cabelos enquanto ela
virava o corpo de frente para ele, e a perna dele se enfiava entre as coxas dela. As dobras sedosas de seu roupo se esfregavam, sensualmente, contra as pernas dela,
e o corpo dele se movia contra o dela, uma mo descendo para acariciar-lhe os seios, a barriga, o sexo macio, esvoaando aqui e ali como uma borboleta, sem parar
em nenhum ponto, tocando suave, atiando, excitando-a, fazendo-a perder o controle e implorar por mais.
   Caroline gemia na boca de Nick enquanto ele continuava a beij-la e a acarici-la, e aquele som parecia arder dentro dele. Ele gemia e beijava mais forte, at
que seu corpo cobriu o dela, as mos dele puxaram-lhe as mangas curtas do roupo pelos ombros, fazendo-o deslizar pelos braos e deixando-a nua at a cintura. Os
seios dela eram macios e cheios, inchados por uma paixo crescente, os mamilos retesados sob suas palmas que os circulavam lentamente. Os polegares dele alisavam
os bicos intumescidos.
   Os lbios de Nick aqueceram sua garganta, enquanto seus dedos aprisionavam um mamilo. A lngua dele sugava, lambia, excitava. O corpo de Caroline se arqueava
de encontro ao dele, ondas de prazer e excitao se agitando dentro dela. Ela se apertou contra ele, enfiando os dedos em seus cabelos, descendo pelos ombros enquanto
ele continuava a atordo-la com sua respirao quente contra sua carne nua. Lentamente, ele subiu a lngua pelo vale entre os seios dela, capturou os lbios dela
mais uma vez, sua lngua mergulhando profundamente, tirando-lhe o flego. A boca dele parecia incendiar-lhe as faces, as tmporas, as orelhas. Ele mordeu o lbulo
de uma de suas orelhas.
   ? Caro ? ele murmurou, num tom profundo. ? Voc no disse nada... nem uma palavra. Quer que eu pare? Porque se quiser,  melhor dizer agora. Seno, vou acabar
esquecendo que sou um cavalheiro e lembrar apenas que voc  minha esposa. Ento... quer que eu continue ou no?
   ? Sim... ? Aquela era mesmo a voz dela, to suave, to ofegante?, perguntou-se Caroline, chocada. Ela devia estar louca ou bbada, pensou, para responder que
ele prosseguisse. Ainda assim, ela no parecia encontrar as palavras, nem mesmo quando ele inspirou e, com firmeza e suavidade, arrancou-lhe o roupo e a calcinha,
como se receasse que ela mudasse de idia. Ento, ele despiu a cueca; sim, ela era de seda, reparou Caroline, desorientada, para desviar os olhos, enrubescida, no
momento seguinte, pela evidncia revelada de seu desejo por ele.
   O corpo dele era to magnfico quanto ela imaginara, a barriga como um tanquinho de msculos, seu sexo duro e pesado. Ele a tomou nos braos, e suas carnes nuas
se encontraram. Vagamente, em algum canto de sua mente, ela se deu conta de que no sentia mais frio.
   ? Ah, benzinho ? Nick suspirou de prazer, enquanto sua boca e mos passeavam pelo corpo dela, aquecendo-o tanto quanto o fogo que ele havia aceso anteriormente.
 Voc no sabe o quanto eu a desejei. Tem sido um inferno para mim a semana inteira, perguntando-me como eu me comportaria, casado com voc e sem poder t-la. Caro,
tem certeza de que  isso que voc quer?
   ? Sim ? sussurrou ela, tremendo pela paixo que ele lhe havia provocado.
   ? No vai se arrepender de manh?
   ? Provavelmente, mas no importa. Faa amor comigo, Nick, por favor.
   ? Sim... a noite inteira, se voc quiser. Abra as pernas para mim, querida. Sim, dessa forma. Voc  to bonita, to macia...
   A mo dele encontrou seu sexo, e descansou ali, gentilmente por um momento. Ao toque dele, a respirao de Caroline ficou presa na garganta, at que um pequeno
gemido saiu dos lbios dela. Nick a beijou de novo, faminto, engolindo aquele som e sua respirao. A lngua dele mergulhou em sua boca enquanto seus dedos deslizaram
profundamente dentro dela, se retirando para no momento seguinte deslizarem novamente. E novamente. Durante o tempo todo, o polegar dele se movia sobre o pequeno
boto escondido entre as ptalas frgeis dela, acariciando, provocando, fazendo com que ela ansiasse ser penetrada por ele.
   Instintivamente, Caroline gemia e se contorcia, sem conseguir pensar; era uma massa de sensaes, tonta, sem flego. Ela agarrou Nick, as palmas das mos deslizando
por suas costas e ndegas molhadas de suor, traando a forte curva de msculos que estremeceram sob suas palmas. Sem palavras, ela tentou lhe transmitir sua urgncia,
investindo contra a mo dele. Mas ele ignorou seu apelo silencioso, continuando a atorment-la. Baixando a cabea at os seios dela, ele tomou um dos mamilos entre
os lbios, sugando com avidez, enquanto sua mo continuava a afag-la.
   Uma presso irresistvel se formava dentro dela, cada vez mais forte, at tornar-se uma torrente impossvel de conter e explodir dentro dela, em onda aps onda
de prazer que a fazia fritar e engasgar.
   S ento Nick se equilibrou em cima dela, os msculos poderosos de seus braos flexionando-se enquanto ele a penetrava, se movimentava dentro dela, desejando
penetrar ainda mais fundo. At que ele parou por um momento, o corao batendo com violncia contra o de Caroline, a respirao irregular se misturando  dela no
silncio quebrado apenas pelos estalos do fogo na lareira. Sorrindo para ela, ele beijou-lhe a boca, e, lnguido, lambeu o suor que gotejava entre os seios dela.
   Depois, comeou a movimentar-se para dentro e para fora do corpo dela, as mos agarrando-lhe as ndegas, arqueando-lhe a cintura ao encontro da sua. Ela enroscou
as pernas em volta das dele, tomando-o bem fundo dentro de si, enquanto comeava a sentir mais uma vez aquela torrente surgir interiormente, pulsando, irrompendo,
atravessando seu corpo. Sabendo que ela havia atingido o orgasmo, Nick buscou atingir tambm, rspido e urgente, os dedos apertando-se sobre ela, quase machucando,
enquanto tremia, longo e duro, contra seu corpo. Ento, ele desabou em cima dela, seu rosto enterrando-se em seu cabelo, respirando ofegante nos ouvidos dela.
   ? No estava congelando aqui momentos atrs? ? perguntou ele, depois de um longo minuto.
   ? Sim... mas isso foi antes de voc entrar e aquecer as coisas por aqui ? murmurou Caroline, maliciosa, o corao ainda pulando.
   ? Acredite, se eu soubesse que isso ia acontecer, teria quebrado o aquecimento no dia em que chegamos ? declarou Nick, com um sorriso maroto. Ele deitou de costas,
puxando Caroline para seus braos. ? Agora no d mais para anular. Voc est presa a mim.
   Caroline no tinha certeza de como receber aquilo, ou o que ele pretendia com aquilo, e tinha medo de perguntar, medo de descobrir que ele estava apenas brincando.
Ento, disse, com suavidade:
   ? Acho que no vou me importar tanto. Quero dizer, pelo menos sei que vou estar aquecida durante nossos longos e frios invernos em Minnesota.
   ? Conte com isso ? ele reforou, envolvendo-a nos braos, possessivo.
   Quando o quarto voltou a ficar frio novamente, Nick se levantou para jogar mais lenha na lareira e fazer com que o fogo, mais uma vez, queimasse, brilhante. Depois
voltou para a cama, para novamente deixar Caroline em chamas, para fazer com que ela ardesse, fora de controle.


   Captulo 12

   Acuando Caroline acordou na manh seguinte, achou primeiro que havia sonhado que Nick fizera amor com ela apaixonadamente na noite anterior. Estava sozinha na
cama, e no havia chamas na lareira. No momento seguinte, ela se deu conta de que estava nua e que a lareira estava cheia de cinzas frias. Soube, ento, que o casamento
que era para ser somente no papel havia se consumado.
   Nick devia ter acordado cedo. No havia nem uma ruga no travesseiro do lado dele na cama para mostrar onde ele havia dormido. E, estranhamente, a porta do quarto
estava fechada. Aquilo confundiu e afligiu Caroline, j que ela no tinha o hbito de fech-la  noite, para o caso de Nick precisar do banheiro. Por um instante,
todo tipo de pensamento selvagem passou por sua cabea. O pior deles era que, tendo-a seduzido, o que impossibilitava a anulao do casamento, ele retornara a Minnesota
sem ela, tripudiando sobre sua ingenuidade, para receber o bnus de casamento e tudo o mais que esperava obter com um eventual divrcio! Ela se perguntava se, antes
de embarcar no jato da empresa para a lua-de-mel, ele havia assinado o acordo pr-nupcial.
   Caroline sentiu frio e um sbito mal-estar. E se estivesse certa e Nick fosse pior do que Paul Andersen havia sido... E se tivesse novamente passado por boba?
Ela no queria acreditar em nada disso sobre o marido, nem sobre si mesma. Ainda assim, no podia parar de pensar por que ele a teria deixado sozinha depois daquela
ltima noite, fechando a porta do quarto para que ela no o ouvisse saindo de fininho do chal.
   Ah, Deus, por que havia tomado aquele conhaque com ch na noite anterior e deixado que ele fizesse amor com ela? Sua av ficaria to furiosa e decepcionada, seu
pai a censuraria, irritado.
   Tremendo, Caroline levantou-se da cama e caminhou at o banheiro. Ali, uma enorme sensao de alvio a percorreu quando viu os artigos de toalete de Nick na bancada.
Se ele tivesse dado no p, certamente no teria deixado suas coisas para trs. Depois do alvio veio o choque ao ver seu reflexo no espelho. Parecia uma... depravada,
pensou, uma mulher que no somente havia feito amor recentemente... mas intensamente e bem-feito.
   Seu cabelo longo e negro era uma massa emaranhada pelo rosto. Marcas crescentes de falta de sono escureciam seus olhos. Sua boca ainda estava ligeiramente inchada
e vermelha dos beijos de Nick. As marcas em sua garganta, seios, cintura e coxa fizeram com que enrubescesse ao se lembrar como, naquela noite, ele havia beijado
e acariciado cada parte do corpo dela, levando-a  loucura.
   At agora, Caroline havia se considerado sempre um pouco tmida e reservada na cama, com medo de no ser deslumbrante ou sexy o suficiente para agradar. Talvez
Nick no tivesse escapado, mas tambm no havia ficado pedindo mais naquela manh, pensou, melanclica. Talvez ela no tivesse correspondido s expectativas dele.
Ela no podia evitar se lembrar de quando havia posto Paul Andersen bbado para fora da ltima vez; ele havia gritado insultos terrveis para ela, os piores foram
que ela era frgida e ruim na cama. Talvez Nick tivesse achado a mesma coisa. Por que outro motivo ele teria fechado a porta do quarto?
   Caroline esticou o brao para dentro do chuveiro e abriu a torneira, entrando em seguida, sentindo-se como se fosse cair no choro a qualquer momento. Estava to
perdida em seus maus pensamentos, que o som da gua corrente foi suficiente para que ela no ouvisse Nick entrando no banheiro. Ela deu um salto, assustada, quando
ele abriu a porta do boxe e se juntou a ela, igualmente nu.
   ? Nick! O que... est fazendo? ? atnita pela apario dele, ela fez uma tentativa, sem muito esforo, de se cobrir.
   ? Tomando banho com minha noiva. Meu Deus, pensei que os homens da manuteno nunca terminariam de consertar o aquecimento e dar o fora! No sei qual deles era
pior: o velho que falava pelos cotovelos, ou o jovem que peguei olhando para voc no quarto. Ele teve sorte por eu no ter lhe arrancado a cabea de voyeur... Se
voc no estivesse coberta, eu teria arrancado!
   ? Quer dizer que foi por isso que voc me deixou, por isso fechou a porta do quarto?
   ?  claro. Por qu? Que outra razo podia haver? -Nick olhou para ela, curioso, afastando uma mecha de cabelo de seu rosto.
   ? No sei. Eu pensei... pensei que talvez eu o tivesse... decepcionado de algum modo ? Caroline admitiu, suavemente. ? Que tivesse me achado... frgida ou algo
assim.
   Ele praguejou em russo, mas, ainda assim, ela percebeu que ele falara um palavro. Com a mo sob seu queixo, ele aproximou o rosto dela com os dedos.
   ? Foi o que aquele maldito idiota do Andersen lhe disse, no ? No ?
   Ela confirmou com a cabea, sem dizer nada.
   ? Aquele desgraado! Eu queria dar-lhe uma lio muito merecida! Agora, oua uma coisa, benzinho, e oua bem. No existem mulheres frgidas, apenas homens incompetentes
e insensveis... e acho que no sou um deles. A noite passada foi maravilhosa... para ns dois, pensei. Esperava que voc tivesse sentido o mesmo.
   ? E senti... Sinto ? Caroline murmurou.
   ? Ento, vamos ver, onde foi mesmo que paramos ontem  noite? Apertando-a contra a parede do boxe, ele lentamente desceu a boca at a dela, seus olhos escurecendo
de paixo, sua excitao visvel enquanto a gua quente continuava a cair sobre ambos.

   Depois que retornaram de Maplewood Lodge, Caroline e Nick passaram o resto do fim de semana mudando a maior parte das roupas e objetos preferidos dela para a
casa dele  beira do lago. O processo foi prejudicado por sua primeira briga, quando ela insistiu em quartos separados.
   ? Que diabo, Caro! ? Os olhos escuros de Nick pareciam confusos, e mesmo feridos, ela pensou. Mas  claro que a recusa dela em dividir a cama, depois da lua-de-mel,
devia ter sido um soco no ego dele. ? Achei que j tnhamos resolvido tudo isso.
   ? Por qu?... S porque o grogue quente que voc me preparou confundiu meus sentidos? Veja, Nick, no estou dizendo que... o que aconteceu entre ns no tenha
sido maravilhoso, porque foi.  simplesmente porque, com tudo que ocorreu com tanta rapidez, eu... no tenho certeza dos meus sentimentos agora,  isso. Eu... preciso
de um tempo, um espao, para tentar organizar as coisas na minha cabea. Nosso casamento era para ser um casamento de convenincia. Nossa suposta lua-de-mel mudou
tudo de uma maneira que eu no esperava. Eu no planejava... me envolver com voc, e no estou disposta a um... romance casual. Nessas circunstncias, o que fizemos
foi descuidado e irresponsvel.
   ? Descuidado? Irresponsvel? De que forma? ? Ele ergueu uma sobrancelha, inquisitivo. ? O que quer dizer com isso, Caro?
   ? Bem, ns no... ? A voz dela foi sumindo, constrangida. No estava acostumada a discutir detalhes ntimos com um homem. Mas ele tinha que saber. Respirando
fundo, ela se forou a continuar: ? Nick, voc provavelmente presumiu... bem, que eu estava tomando plula, algo assim. Mas no estou, e ns no... fizemos nada
para evitar uma gravidez...
   ? Ento o que voc est tentando dizer  que pode estar grvida. E isso?
   ? Sim ? ela confirmou com a cabea, mordendo o lbio inferior de.ansiedade ao pensar nisso. ? Nick, assim que seus problemas com o SIN estiverem resolvidos, vamos
nos divorciar. Voc sabe disso. Eu sei disso. Ento, uma criana seria uma complicao terrvel, uma vtima inocente no meio de tudo isso. No podemos assumir esse
risco. No seria justo para nenhum de ns dois... e, principalmente, no seria justo para o beb.
   ? E, voc tem razo,  claro ? ele disse, devagar, depois de uma longa pausa, um msculo pulsando em seu maxilar contrado. ? Sinto muito, benzinho. Eu simplesmente
no pensei.
   ? Por favor, Nick, nem imagine que estou pondo a culpa em voc por isso, porque no estou. Tenho tanta culpa pelo que aconteceu quanto voc. Afinal, voc me deu
uma chance de recuar, e eu no recuei. Mas estou recuando agora. Sinto muito, mas acho que  melhor se... se ns esquecermos o que aconteceu no Canad.
   ? Se  isso o que voc quer.
   ? Sim...  isso ? ela mentiu, virando-se de costas para que ele no visse as lgrimas que lhe surgiam nos olhos. Porque o que ela realmente queria era que o casamento
deles se tornasse um casamento de verdade, cheio de amor e filhos e feriados em famlia. Ela esperava que ele a tomasse nos braos e dissesse que tambm queria aquilo.
Mas ele no disse.
   Em vez disso, ele falou, tranqilo:
   ? Est bem, Caro. Voc  quem sabe. Eu entendo. -Ento, subiu as escadas com a bagagem, virando-se para a direita no ltimo degrau, para que ela visse que ele
a levava para o quarto no lado do corredor oposto ao de seu prprio quarto.
   O corao dela se contraiu ao perceber. Piscando para conter as lgrimas, ela quase subiu as escadas correndo atrs dele para dizer que havia mudado de idia,
que levasse a bagagem dela para o quarto dele. Mas, determinada, lutou contra esse impulso selvagem. O sexo com Nick havia sido maravilhoso. Ela no havia mentido
sobre isso. Mas era s o que havia sido, apenas sexo. Alm do desejo e da gratido, ele no tinha sentimentos por ela, e se ela tinha por ele, bem, ento, devia
lutar muito para mant-los sob controle antes que acabasse se magoando, com o corao novamente partido.
   Ainda assim, o fato de que no estaria mais dormindo com Nick, abraada com ele durante a noite, deprimia Caroline. Foi com um suspiro pesado que ela subiu devagar
as escadas para continuar a arrumar suas roupas e objetos.

   Do outro lado do corredor, em seu prprio quarto, Nick se enfiou desesperanado na cama. Com as mos sob a cabea, ele olhou para o teto, sem ver nada. O dia
inteiro ele s havia pensado em fazer amor com Caroline. Ela era sua esposa, ora bolas! Ele tinha todo o direito de dormir com ela! E, embora soubesse que suas razes
para recus-lo eram vlidas, ele no podia deixar de se perguntar se ela havia falado a verdade.
   Que mulher solteira hoje em dia no usava algum mtodo concepcional? Havia uma infinidade de mtodos disponveis. E se ela realmente no usava, por que diabos
no mencionou o fato antes de deix-lo fazer amor com ela no chal em Maplewood Lodge? Nick podia pensar que Caroline havia mentido, que era o meio que encontrara
de polidamente manter distncia entre eles, que talvez ela apenas tivesse se divertido com ele no chal.
   Quando voltaram para Minepolis, talvez ela tivesse comeado a reconsiderar, a pensar que ele no era bom o suficiente para ela, ou mais provavelmente, para a
famlia dela. Afinal, o que ele era, na verdade, seno um marido contratado? Comprado e pago pelos Fortune para que no fosse deportado antes que a frmula secreta
da juventude de Kate pudesse vir  tona. Que inferno! Se no fosse isso, Nick apostaria que Caroline nunca teria concordado em se tornar sua esposa. Ele no teria
se importado, se, como um tolo, no estivesse cado por sua mulher. Cado como uma tonelada de tijolos.
   Ela era tudo que ele sempre havia desejado em uma mulher: bonita, inteligente, criativa e sofisticada, sem ser durona, o que caracterizava muitas mulheres bem-sucedidas.
Em vez disso, ela tinha uma doura e uma timidez que se tornavam um suave apelo feminino. Quanto mais perto ele estava dela, mais ele se dava conta disso. No fundo,
ela era terrivelmente vulnervel.
   Ela o havia deixado aproximar-se por um momento. Mas agora, como um caranguejo eremita, havia se retirado de volta para sua concha. Mas ele podia conquist-la
mais uma vez, pensou Nick, se agisse com cuidado e pacincia. Porque de forma alguma ele perderia a esposa. No importava o que ela acreditasse, mas o divrcio estava
inteiramente fora de cogitao.
   Se necessrio, para segur-la, ele estava disposto a ter problemas com o SIN por anos!


   Captulo 13

   O problema com o SIN foi exatamente a primeira coisa com que Nick se deparou na segunda-feira de manh. Dois agentes de imigrao o aguardavam em seu escritrio
anexo ao laboratrio da Cosmticos Fortune. Acomodados em cadeiras em frente  sua mesa, eles mostraram suas carteiras de identificao em couro, assim que Nick
entrou na sala.
   ? Dr. Valkov? Lyndon Howard, Servio de Imigrao e Naturalizao. E este  Brody Sheffield. Gostaramos de falar com o senhor, se for possvel.
   ?  claro, senhores ? disse Nick, apertando as mos deles. ? Sentem-se, por favor.
   Eles voltaram para as cadeiras de onde haviam se levantado momentos antes. Howard, que era visivelmente o agente snior, limpou a garganta. Em seguida, enfiou
a mo no bolso de dentro do palet, tirou um par de culos e um envelope, do qual retirou uma carta. Com suas lentes bifocais, ele deu uma olhada no papel.
   ? Acredito que tenha recebido uma cpia desta carta do SIN h alguns dias, Dr. Valkov. Nela, o senhor foi instrudo a comparecer a nosso escritrio local para
entregar seu carto de permanncia e dar prosseguimento aos procedimentos de deportao. No recebeu?
   ? Sim, recebi.
   ? Ento... posso lhe perguntar por que o senhor no seguiu nossas instrues?
   ? Porque eu estava me casando naquela poca ? explicou Nick, afvel, embora os olhos estivessem alertas e cautelosos. ? De acordo com meu advogado, isto impede
que os senhores me deportem, por mais que desejem.
   ? No  assim, exatamente, Dr. Valkov, como tenho certeza de que seu advogado j deve ter-lhe informado. Veja bem, se o SIN tiver motivo para acreditar que o
senhor se casou por convenincia, somente no papel, com o simples propsito de evitar sua deportao, podemos declarar o casamento invlido e expuls-lo dos Estados
Unidos de qualquer modo.
   ? Sim, entendo. No entanto, o que os senhores devem entender  que minha esposa e eu vnhamos saindo h algum tempo e planejvamos nos casar ainda este ano, numa
grande festa, com toda a pompa, pela qual ansivamos muito. Temo que a carta dos senhores foi uma grande decepo para ela, j que, por isso, fomos obrigados a nos
casar um pouco s pressas, no cartrio.
   ? E mesmo? ? O tom de Howard mostrava descrena. ? Que histria bonita, Dr. Valkov. Tenho certeza de que o senhor no ter objeo se a checarmos.
   ? De forma alguma. Na verdade, se os senhores quiserem, posso chamar minha esposa agora mesmo.
   ? Por favor.
   Nick tirou o telefone do gancho e discou para o ramal de Caroline.
   ? Querida? Sou eu. Est muito ocupada?  que dois agentes do SIN esto aqui no meu escritrio e gostariam de falar com voc. Ficarei muito feliz se voc puder
vir aqui agora. timo. Nos vemos daqui a pouco. ? Ele desligou e virou-se novamente para Howard e Sheffield. ? Ela est descendo.
   ? timo. Enquanto isso, espero que no se importe de responder algumas perguntas.
   ? De forma alguma.
   ? timo. Tome notas, Brody ? Howard comandou o parceiro. ? Bem, Dr. Valkov, como o senhor conheceu sua esposa?
   ? Em nosso trabalho aqui na Cosmticos Fortune. Ela  diretora de marketing. Ns... literalmente esbarramos um dia no corredor quando estvamos indo para uma
reunio. Eu fiquei atrado por ela. E tinha esperanas de que ela sentisse o mesmo por mim, ento me ofereci para cozinhar o jantar para ela um dia.
   ? E ela aceitou seu convite?
   ? Aceitou. Eu a levei at minha casa,  beira do lago, e lhe preparei um pequeno jantar com salada, po francs e estrogonofe de carne. Depois, tomamos uma taa
de vinho e ouvimos msica. Tchaikovsky, eu me lembro.
   ? E h quanto tempo aconteceu isso?
   ? No sei ao certo. Foi h bastante tempo, alguns meses, pelo menos ? mentiu Nick.
   ? E vocs continuaram se encontrando com freqncia desde ento?
   ? Isso mesmo.
   ? E quando ficaram noivos?
   ? Um pouco antes de receber sua carta, na verdade. Ah, Caro, voc chegou, querida. ? Levantando-se da cadeira, Nick saiu de trs da mesa para tom-la nos braos
e dar-lhe um beijo ligeiro na boca. ? Estes so os senhores Howard e Sheffield, do SIN. Senhores, esta  minha esposa, Caroline Fortune Valkov.
   ? Fortune! ? exclamou Sheffield, virando-se para o chefe com os olhos arregalados, perguntando-se, de repente, se, afinal, no haviam cometido um erro.
   ? Sim, isso mesmo ? confirmou Caroline, tranqila, apertando a mo dos dois homens. ? Sou a neta mais velha de Kate Fortune e, com certeza Nick j lhes contou,
diretora de marketing da Cosmticos Fortune. ? Normalmente, ela no dava tanta informao assim espontaneamente. Naquelas circunstncias, no entanto, achou prudente
impressionar os agentes com sua famlia e riqueza. Casando-se com Nick para impedir sua deportao, ela havia, tecnicamente, violado a lei, e poderia, na melhor
das hipteses, ser multada.
   ? Sinto muito se interrompemos seus compromissos, senhora Valkov. No entanto, tenho certeza de que a senhora entende que precisamos fazer-lhe algumas perguntas.
Sente-se, por favor ? Howard apontou para as cadeiras.
   ?  Sim, claro. ? Caroline aproximou-se e sentou-se o mais prximo possvel de Nick, com o pulso disparado, embora eles tivessem j ensaiado essa cena vrias vezes.
   Ela desejou que o cabelo estivesse preso num coque, que tivesse os culos para se esconder por trs deles, que estivesse vestida num terno Chanel feito sob medida
em vez do conjunto Versace colorido que sua irm a convencera de comprar uma vez e Nick insistira que ela vestisse hoje. Ela no tinha a mais vaga idia de que estava
to bonita quanto Cindy Crawford num timo dia, ou mais ainda, e que, apesar de suas suspeitas, os agentes do SIN j achavam que, com aquele visual e o dinheiro
que ela tinha, Nick seria louco se no se casasse com ela.
   Howard prosseguiu com a entrevista, fazendo a Caroline vrias das perguntas que j havia feito a Nick. Para seu alvio, ela sabia que, pelo sorriso incentivador
de Nick, estava indo bem, no havia cometido nenhum erro.
   ? Ento, senhora Valkov, perdoe-me pela intromisso em assuntos pessoais, mas tenho que lhe fazer a prxima pergunta porque geralmente quando duas pessoas se
casam apenas para impedir a deportao de uma delas, quando o casamento  s no papel, pode-se obter uma rpida anulao posteriormente. Ento, a senhora pode me
dizer, por favor, se seu casamento foi consumado?
   Caroline podia sentir o calor em seu rosto. Sem conseguir falar, constrangida, ela balanou a cabea numa afirmativa. E se perguntou, abalada, se essa informao
poderia chegar a sua av e seu pai.
   ? Na verdade, acabamos de voltar de nossa lua-de-mel ? Nick anunciou, sem se alterar. ? Passamos uma semana em Maplewood Lodge, logo depois da fronteira canadense.
Posso lhes dar o endereo e o nmero de telefone se quiserem verificar. Com certeza, eles vo se lembrar de ns. Estvamos no chal nupcial, e nosso aquecimento
quebrou na ltima noite que passamos l.
   ? Sim, obrigado, gostaria muito de ter o telefone ? Howard respondeu, levantando-se. ? No entanto, acho que no haver nenhum problema sobre o casamento de vocs.
Se precisarmos de mais alguma coisa, entraremos em contato.
   ? Os senhores sabem onde nos encontrar. ? Nick entregou a Howard um pedao de papel com o endereo e o nmero do telefone do Maplewood Lodge. ? Ah, e mais uma
coisa. No sei como e de onde os senhores tiraram a idia de que j fui agente da K.GB. Eu sou qumico... e somente qumico. Sempre fui. Pensem nisso. Se eu realmente
fosse um espio da Rssia, por que estaria perdendo tempo numa empresa de cosmticos? Vocs realmente acreditam que eu escondo transmissores em tubos de batom? Cmeras
em miniatura dentro de p compacto? Que falo com Moscou num telefone escondido no sapato? Talvez pensem que tambm chamo Caro de "Noventa e Nove"? Se for isso, eu
diria que os senhores andam vendo muita reprise do seriado Agente 86.
   Sheffield deu uma risada tranqila, imediatamente interrompida pelo olhar firme e irritado de Howard.
   ? Pode ser piada para o senhor, Dr. Valkov, mas ns, americanos, levamos nossa segurana a srio. Que os recm-casados tenham um bom dia.
   Assim que os dois homens saram, Caroline levantou-se e aproximou-se de Nick com o rosto ansioso e ps a mo no brao dele.
   ? Voc acha que eles realmente acreditaram em ns? Que o senhor Howard disse a verdade sobre no haver problema quanto ao nosso casamento?
   ? No sei. Mas tero um trabalho enorme para provar que somos mentirosos e sabem disso. Voc quase disse a eles que estariam enfurecendo toda a famlia e o imprio
Fortune, Caro. O que seria uma perspectiva intimidadora para qualquer pessoa, especialmente aqui nas Cidades Gmeas. Obrigado, querida. ? Nick abaixou a cabea e
deu-lhe um beijo.
   Como ela no protestou nem se afastou, ele aumentou a presso de sua boca sobre a dela, a lngua forando-lhe os lbios a se abrirem, insinuando-se para dentro.
A boca de Caroline ansiava pela dele e um fluxo de desejo corria todo seu corpo. Nick tinha gosto de caf preto e quente e cigarros Player, coisas que ela comeava
a associar a ele. Tinha cheiro de sabonete, colnia e fumaa de cigarro. A lngua dele se contorcia e remexia com a dela. As mos dele se enroscavam na massa encorpada
e brilhante dos cabelos negros dela.
   Quando ele a aproximou de seu corpo, Caroline sentiu a fora e dureza de sua excitao fazendo presso sobre ela. Logo, ele estaria trancando a porta do escritrio,
jogando-a sobre o sof ou sobre o cho. E ela queria aquilo. Mas no podia se render  tentao.
   ? Nick... Nick, no... ? ela murmurou, afastando-se dele, resoluta, pousando as mos trmulas sobre seu peito largo, para se defender. ? Eu... tenho que voltar
ao trabalho e voc tambm. O fato de descer at aqui para conversar com o SIN j atrapalhou os compromissos da minha agenda. Mary teve que cancelar uma reunio e
reagendar outra. Alm disso, voc no acha que as fbricas de boatos j esto trabalhando alm da conta?
   ? Sim, suponho que sim ? ele a soltou, relutante, com um sorriso pesaroso, embora os olhos escuros ardessem como brasas enquanto a olhavam.
   Ela tinha razo. Na ausncia deles, as fofocas se espalharam pela Cosmticos Fortune. Caroline e Nick souberam disso assim que entraram no prdio, pela manh.
Foram observados com olhares especulativos por toda a parte: na garagem do prdio, no elevador, nos corredores. Mais de uma pessoa havia gritado: "Ei, ouvi dizer
que vocs se casaram" ? claramente esperando uma explicao sobre o assunto.
   Nick no havia respondido a ningum. Apenas sorria como um certo ar de gato que engolira um canrio, enquanto Caroline enrubescia de constrangimento por se ver
mais uma vez objeto de fofocas na empresa.
   ? Ah, ia me esquecendo. ? Ela j estava saindo do escritrio, quando voltou da porta ? Vov quer que almocemos com ela ao meio-dia em seu escritrio. Acho que
devemos contar a ela sobre a visita do SIN.
   ? Sim, devemos porque, embora eles paream satisfeitos no momento, nunca se sabe. Pode ser que voltem.
   ?  Espero que no ? retrucou Caro, veemente. ? Um interrogatrio foi mais do que o suficiente para mim! Nos vemos no almoo. ? Ela saiu do escritrio, assustada
pela estranha sensao de que Nick a observava, admirando o balano de seu traseiro enquanto caminhava.
   Ela no ia olhar para trs, disse a si mesma, com firmeza. No ia.
   Ele estava encostado no umbral da porta do escritrio, as mos enfiadas nos bolsos das calas, o olhar de um jeito que qualquer pessoa que o visse saberia no
que estava pensando ao observ-la. Ela deu uma olhada furtiva para trs e ele sorriu para ela, malicioso. Depois, gritou-lhe alguma coisa em russo. Caroline podia
no saber o que era, mas tinha certeza de que fora alguma coisa muito imoral.
   Ela desejou ardentemente que ningum no laboratrio entendesse russo.


   Captulo 14

   Os dias de Caroline e Nick logo formaram um padro. Eles acordavam cedo, revezavam-se para preparar o caf da manh, e passavam um bom tempo lendo o jornal e
assistindo  CNN. Em seguida, ela pegava carona com ele no Mercedes-Benz at o escritrio, j que ele insistia que no havia necessidade de os dois dirigirem at
a cidade.
   ? Eu me preocupo com voc enquanto as estradas estiverem cheias de gelo assim, Caro ? ele declarou, srio, acariciando o cabelo dela. ? No quero que voc dirija
por elas, sozinha, especialmente depois que escurecer.
   Nos dias em que um deles, ou ambos trabalhavam at mais tarde, eles passavam a noite na cidade, no antigo apartamento de Caroline, onde Nick agora tinha tantas
roupas penduradas nos armrios quanto ela. Ou ento, eles voltavam para a casa dele  beira do lago, que ela comeava a adorar e onde tinha acrescentado pequenos
toques pessoais, aqui e ali, de modo que no parecia mais to masculina como antes. Ela e Nick geralmente acabavam preparando o jantar juntos, depois jogavam cartas
ou jogos de tabuleiro, ouviam msica ou liam alto um para o outro em volta da lareira na sala de estar. Para surpresa de Caroline, Nick amava os clssicos e a poesia
tanto quanto ela.
   ? Por que ficou surpresa? ? ele perguntou, quando ela mencionou isso a ele.
   ? Bem, porque a maioria das pessoas, hoje, parece no ler mais tanto os clssicos, e poesia, ento, dificilmente.
   ? Ento elas no sabem o que esto perdendo, no ? Algumas das idias mais bonitas do mundo esto nesses livros, expressos numa linguagem que tem ritmo e msica,
uma alma que  prpria. O que teremos hoje  noite? Wordsworth ou Tennyson?
   ? Tennyson, por favor. Idlios do rei.
   Ele leu para ela com sua voz forte e profunda, enquanto ela se sentava de frente para a lareira tomando uma taa de vinho e se permitindo ser transportada a um
outro tempo, um outro lugar.
   No escritrio, eles continuavam a trabalhar na frmula secreta. Caroline finalizando os detalhes da campanha de marketing, Nick completando os testes no laboratrio.
s vezes, parecia que eram as duas nicas pessoas que ficavam na Cosmticos Fortune depois das cinco horas. Sempre que isso acontecia, Nick costumava aparecer no
escritrio dela com embalagens de comida chinesa ou italiana, que eles comiam  mesa dela antes de voltar ao trabalho.
   Caroline nunca havia sido to feliz em sua vida... nem to desesperada. Apesar de todas as suas boas intenes, como era difcil manter distncia de Nick, dar
um tempo a seu corao, se estava completamente entregue a ele. No sabia como podia ter deixado acontecer uma coisa dessas. Com certeza, no era isso que sua av
e seu pai acreditavam que ocorreria quando sugeriram que ela se casasse com Nick. Apesar disso, ela estava pronta a desafiar os dois, arriscar a reprovao deles,
se realmente acreditasse que seu marido podia am-la, que chegaria a tanto.
   Mas no havia chance de que isso acontecesse, Caroline pensou, desesperanada. Nick a tratava como um marido dedicado faria com sua esposa simplesmente porque
havia prometido a ela que o faria, e no queria se arriscar a perder o emprego ou a liberdade. Ele no queria ser deportado, s isso. E se ele s vezes perdia o
controle e beijava Caroline como se ela fosse sua esposa verdadeira e tentava convenc-la a dividir a cama com ele de novo, bem, aquilo era apenas a atrao fsica
que ele sentia por ela, a qumica, na qual ele era to brilhante.
   Ela simplesmente tinha que tirar tudo isso da cabea, Caroline disse a si mesma, com firmeza. O relacionamento deles estava interferindo no trabalho dela. Ela
no conseguia se concentrar no que devia estar fazendo na Cosmticos Fortune. Duas vezes havia chegado atrasada a reunies e de outra vez havia se esquecido de uma
completamente. Ela s ficava aliviada porque sua av no estava sabendo como ultimamente sua agenda andava desleixada.
   Prendendo a pasta que carregava sob um brao e jogando a garrafa vazia de refrigerante diettico que acabara de tomar em uma das lixeiras prximas, Caroline dirigiu-se
de volta a seu escritrio. Ela havia passado a manh inteira examinando mais trabalhos de arte para os layouts de revista do Rosto Fabuloso. Provavelmente haveria
uma pilha alta de papel sobre sua mesa, pensava, suspirando.
   Ela tambm no havia almoado. Teria que pegar um sanduche numa das mquinas de lanche ou algo assim.
   -Caroline! Caroline, espere!
   Ah, meu Deus, ela gemeu interiormente quando virou-se e viu que Paul Andersen vinha atrs dela pelo corredor. Olhou em volta, na esperana de ver algum outro
empregado, mas o corredor estava vazio. Por isso, ela continuou andando.
   ? Caroline! ? Ele a alcanou e agarrou seu brao, forando-a a parar. ? Sei que me ouviu chamar, por que no parou?
   ? Possivelmente porque eu no quero falar com voc, Paul. A meu ver, no temos nada a dizer um ao outro, nem agora, nem em qualquer outro momento! Portanto, solte
meu brao!
   ? Ora, no me trate desse jeito. S quero alguns minutos do seu tempo, s isso. Acho que me deve isso.
   ? No lhe devo nada. Solte-me, j disse. ? Com um movimento brusco, Caroline conseguiu soltar o brao e voltou a caminhar pelo corredor. Pelo cheiro da respirao
dele, ela suspeitou que o almoo de Paul havia sido  moda antiga, com trs martnis; ele ainda no percebera que agora uma gua tnica ou uma gua mineral eram
de bom tom. E, ao se lembrar do comportamento embriagado daquela noite no apartamento dela, no ia dar sopa para que ele repetisse a performance. ? Se voc no parar
de me irritar, Paul, vou chamar a segurana ? ela insistiu, ao perceber que ele a seguia.
   ? Eu s quero saber se  verdade que voc se casou com Nick Valkov.
   ? Se  verdade ou no, no  da sua conta, Paul.
   ? , sim! Que diabo, Caroline! Voc era minha noiva. Eu pensei... ou melhor, tinha esperana de que seria novamente um dia. Sei que sua famlia a envenenou contra
mim, insistindo que eu s queria seu dinheiro. Mas no era verdade.
   -No?
   ? No.
   ? Por que ser que eu no acredito nisso, Paul? V embora e deixe-me em paz!
   ? Voc est usando uma aliana de casamento, Caroline. A quem est tentando enganar? Voc sabe o que as pessoas esto dizendo a suas costas? Que sua famlia pagou
Nick para se casar com voc, que contrataram um marido porque voc no conseguiria um homem de outra forma! O que eu quero saber ... por que ele? Qual a diferena
entre ele e mim? Eu pelo menos a amava, Caroline, da minha prpria maneira.
   ? Voc  desprezvel ? ela disse, fria, humilhada pelo que Paul acabara de dizer. Com certeza, ele estava inventando aquela fofoca, ou pior, e mais provvel,
ele mesmo havia espalhado aquilo! Ele era maldoso o suficiente para fazer algo assim como vingana, pensou. Ah, meu Deus. Nunca lhe havia passado pela cabea que
todos na empresa ficassem sabendo que seu pai havia pago Nick para se casar com ela. S podia ser suposio de Paul, ou rumores que ele espalhara por puro rancor.
E ela no sabia como rebat-los.
   Caroline havia chegado a seu prprio escritrio, mas Paul ainda estava atrs dela, balbuciando, meio bbado.
   Ele agarrou novamente o brao dela, mas, dessa vez, ela no conseguiu solt-lo.
   ? Paul, voc est me machucando ? disse a ele, com calma. Viu sua secretria, Mary, sentada  mesa junto a seu escritrio, falando ao telefone. Caroline no queria
testemunha para aquela cena feia e mais fofocas se espalhando pelos corredores da Cosmticos Fortune. ? Acho melhor voc ir.  provvel que Mary esteja chamando
a segurana ? ela mentiu, j que na verdade no sabia com quem a secretria estava falando.
   Ela descobriu apenas alguns minutos depois, quando Nick saiu do elevador em direo ao escritrio dela, o rosto sombrio.
   ? Tire suas malditas mos de minha esposa, Andersen, ou vai se arrepender! ? ele resmungou, furioso, dirigindo-se a Paul.
   ? Nick! ? gritou Caroline, aliviada ao ver o marido. -Ele andou bebendo ? disse, tentando explicar a Nick o comportamento de Paul.
   Caroline achou que os dois homens iam sair no tapa, mas o ex-noivo se mostrava covarde demais para isso. Virando o pescoo para olhar Nick, os olhos de Paul se
arregalaram e ele subitamente virou-se e fugiu correndo pelo corredor. Nick quis segui-lo, mas Caroline o conteve, agarrando sua mo.
   ? No, deixe-o ir embora. Por favor, Nick. J foi suficiente ter se livrado dele.
   ? Est tudo bem, querida?
   ? Sim. Ele estava apenas querendo me irritar.
   ? No importa. ? Um msculo contraa o maxilar tenso de Nick. ? Se sua secretria no tivesse me telefonado para avisar o que estava acontecendo, ele podia ter
machucado voc. Vou subir agora mesmo e pedir que Kate o demita. Aquele desgraado no merece trabalhar aqui depois de tudo que fez com voc. Essa foi a gota d'gua!
Tenho certeza de que sua av vai concordar.
   Nada que Caroline dissesse convenceria Nick a agir de outra forma.
   ? No discuta comigo, benzinho. Isso eu no posso suportar. Andersen tentou violent-la antes, e  evidente que ele ainda sente algo por voc e que tem problemas
com bebida. Com freqncia voc trabalha at altas horas, quando no fica sozinha neste andar inteiro. E se ele subisse aqui uma noite dessas e a atacasse? Quem
ouviria seus gritos? No, no vou admitir, e ponto final, Caroline.
   A av, ouvindo tudo o que Nick tinha a dizer, concordou, incisiva.
   ? Por que no me contou sobre Paul antes ? perguntou ela, ponderada. ? Se eu soubesse, nunca teria permitido que ele continuasse a trabalhar aqui. ? Ela pegou
o telefone e ligou para o chefe do departamento de Paul e o instruiu, concisamente, a demitir Paul de imediato. Em seguida, desligou e virou-se para os recm-casados.
? Nick, quero lhe agradecer por vir at aqui e me contar sobre Paul. Fico-lhe verdadeiramente grata. Estremeo s de pensar que de algum modo ele poderia ter machucado
minha neta.
   ? Caro  minha esposa, Kate.  minha obrigao zelar por sua segurana.
   E obrigao dele, Caroline pensou, desanimada.  claro. Por que deveria haver outro motivo, alm de fazer a coisa certa por ela, como ele havia prometido que
faria?
   ? Ento, como esto se dando os recm-casados? ? indagou Kate.
   ? Bem. Muito bem ? respondeu Nick. ? Caro se mudou para minha casa  beira do lago e em poucas semanas conseguiu transform-la num verdadeiro lar. Conseguimos
organizar nossas agendas, e ela vem e volta de carona comigo todo dia, sem precisar ficar dirigindo por estradas no campo depois que escurece. E at agora o SIN
no fez nenhuma outra visita.
   ? Excelente. ? Kate sorriu, embora seus olhos estivessem pensativos quando ela olhou para Caroline, percebendo seu silncio. ? E que tal minha frmula secreta
da juventude? Odeio ficar parecendo um velho papagaio cansado, batendo na mesma tecla a toda hora. Mas, para dizer a verdade, estou to empolgada com Rosto Fabuloso
que quase no consigo me conter.
   Nick deu um largo sorriso irnico.
   ? Sim, j percebi, Kate. Embora no tenhamos completado os testes, vou atualiz-la. Estamos quase certos de que o Ingrediente X ser uma planta que dizem que
s cresce na floresta amaznica. O nome dela em latim floris virginis: flor virginal. Mas os ndios da Amrica do Sul a chamam de flor da juventude, e o que nos
interessa  o que eles descrevem sobre as propriedades que ela tem. Entretanto, no momento no temos nem certeza se ela realmente existe. As histrias que contam
a respeito podem ser apenas isso: histrias, lendas, mitos, o que seja. Ento precisamos fazer uma investigao mais profunda antes que nos empenhemos numa procura
em vo. Atualmente, estamos testando outras plantas com propriedades supostamente semelhantes s da flor virginal, para ver se estamos na trilha certa. Ainda assim,
meu instinto me diz que estamos, portanto no se surpreenda se, num futuro prximo, eu lhe apresentar um pedido para levar uma pequena equipe at a Amaznia, Kate.
   ? No vou me surpreender ? ela respondeu, com tranqilidade. Mas, interiormente, ela pulava de alegria ao pensar: Isso no ser necessrio porque agora que sei
o que voc est procurando, pretendo voar para a Amrica do Sul e eu mesma vou buscar!
   Pouco depois, sem saber de seus planos, Caroline e Nick deixaram o escritrio de Kate, seguindo juntos pelo corredor em direo aos elevadores. Antes que chegassem
l, de repente, Nick tomou a mo da esposa e a levou para dentro de uma pequena sala de reunies do outro lado. Estava vazia e escura, e no ficou muito mais clara
quando ele acendeu as luzes. Aparentemente, havia sido usada pela ltima vez para uma apresentao de vdeo ou slides, e o interruptor estava ajustado para luz baixa,
tornando escassa a iluminao que vinha das lmpadas do teto. Para sua surpresa, no entanto, Nick no aumentou as luzes. Apenas trancou a porta.
   ? Nick, o que voc est fazendo? Por que voc me trouxe at aqui? Algum problema?
   ? Diga-me voc. Eu ia lhe fazer a mesma pergunta.
   ? No estou entendendo...
   ? Voc mal disse duas palavras no escritrio de sua av, Caro. Por causa disso, ela est preocupada que voc esteja infeliz comigo. Voc est infeliz? Foi alguma
coisa que eu disse, alguma coisa que eu fiz que a deixou assim? Voc ficou com raiva por eu ter pedido a demisso daquele desgraado do Andersen? Voc ainda... Deus
que me perdoe... est apaixonada por ele?
   ? No... no, no  nada disso.
   ? Ento, o que foi? Qual  o problema?
   ? Nenhum. Por que deveria haver algum problema?
   ? No sei.  isso que estou tentando descobrir. E tenho um sentimento muito estranho de que voc est mentindo para mim... e eu no gosto disso. No gosto nem
um pouco disso. Se no  por Andersen,  outra pessoa?
   ? No, claro que no. ? Mas Caroline ficou sem graa ao perceber que no conseguia olhar para o marido nos olhos quando respondia. Tinha tanto medo de que ele
percebesse que ela realmente no estava dizendo a verdade, que era como se houvesse algum: ele!
   ? Caroline. Caroline, olhe para mim, droga! ? Ele tomou-lhe o queixo com a mo e forou-lhe o rosto, que resistia, mudo e teimoso, a olhar para ele. ? Pensei
que tnhamos concordado que no sairamos com ningum enquanto durasse nosso casamento.
   ? Sim,  verdade. E no estou saindo, juro.
   ? Que bom, porque mudei de idia. Eu no vou fazer vista grossa. Voc  minha esposa... e no gostei de ver voc sendo tocada pelas mos pegajosas de Andersen!
-Os olhos de Nick ardiam de raiva pela lembrana, enquanto ele olhava para ela com firmeza. Os msculos em seu maxilar se contraam.
   Caroline sentiu um pequeno arrepio dentro de si. Ora, ele estava se comportando como se estivesse com cime! E se estivesse? Aquilo significaria que ele comeava
a sentir alguma coisa por ela, mesmo que ainda no fosse amor.
   Por mais que ela tentasse conter suas emoes, seu corao planava ao pensar nisso. Era possvel que Nick estivesse se apaixonando por ela, como ela estava por
ele?
   ? Paul queria saber se voc e eu estvamos realmente casados ? ela disse, tranqila. ? Parece que ele ainda alimentava esperanas de se casar comigo. E, como
no respondi, ele falou algo sobre meu anel de casamento e que... todo mundo na Cosmticos Fortune sabia que minha famlia havia... pago a voc para se casar comigo,
que eu... no poderia conseguir um marido de outra forma.
   ? Ah, Caro, voc sabe que no  verdade ? insistiu Nick, tomando-a nos braos, beijando-a e acariciando seus cabelos com suavidade.
   ? Talvez no, mas ainda assim  constrangedor e humilhante pensar que Paul estava espalhando rumores como esse sobre mim, pensar que h pessoas na empresa que
possam ter acreditado nele. ? Lgrimas lhe surgiram nos olhos ao pensar naquilo.
   ? Shhh. Ningum vai levar a srio nada do que ele diz. Ele est falando por puro cime e todos sabem disso. Ningum sabe a verdade sobre o nosso casamento, benzinho,
e tenha absoluta certeza de que no vou deixar ningum falar que eu no passo de um marido contratado!
   ? Mas  verdade ? murmurou Caroline.
   ? E isso mesmo que voc pensa de mim, Caroline? Foi por isso que voc no quis dormir comigo de novo quando voltamos do Canad?
   ? No... no, Nick. No me interprete mal. Eu... quis dizer que  verdade que minha famlia pagou a voc para se casar comigo, que voc... provavelmente no ia
me querer de outra forma.
   Os olhos de Nick mostraram que ele comeava a entender.
   ? Ento  isso, Caro?  esse o motivo de sua aflio? Porque, se for, pode tirar essa idia da cabea agora mesmo. Que diabo! Sempre senti atrao por voc, sempre
quis sair com voc, h muito tempo... mas voc nunca me deu uma chance at sua famlia precisar de mim para salvar a frmula secreta de sua av. Caso contrrio,
estaramos saindo juntos h muito tempo. Voc no sabe o que faz comigo, benzinho? ? ele perguntou, com suavidade, antes que seus olhos se enchessem de paixo e
sua boca tocasse a dela.
   No havia nenhuma hesitao nem carinho naquele beijo. Era rspido, urgente, fazia Caroline perder o flego e o sangue rugir em seus ouvidos, o corao batendo
com tanta fora que ela achou que fosse explodir no peito. Ela se grudava a Nick enquanto ele curvava as costas dela, empurrando uma cadeira e apertando-a contra
a mesa de reunies. Sua boca se movia dura e faminta sobre a dela. Um tremor selvagem e eletrizante perpassou seu corpo. O desejo inundava seu ser. Seus dedos apertaram
punhados dos cabelos grossos e escuros dele e, gemendo, ela abriu os lbios para ele, suas lnguas se encontrando, tocando e enroscando.
   A reao dela parecia pr Nick em chamas. Ele puxou-lhe o suter, arrancando-o, em seguida tirou-lhe tambm o suti, deixando seus seios livres. Com as palmas
da mo ele os pegava, possessivo, acariciando-os e esfregando-os, os polegares provocando-lhe os mamilos at que se contrassem. Sua boca desceu para capturar-lhe
um bico de seio excitado, sugando-o, guloso, enquanto ela gemia e se contorcia sob o corpo dele. Ela sentia-lhe as mos deslizando por suas pernas e puxando-lhe
a saia para cima. Caroline achava que meia-cala era uma das peas mais desconfortveis de roupas ntimas, perdendo apenas para o antigo espartilho, por isso seguia
o costume francs de usar meias na altura das coxas.
   Nick no sabia disso at aquele momento, mas ao perceber, ficou selvagem de desejo e cime. Era algo secreto e sexy que descobria sobre sua mulher. Ele nunca
a olharia novamente no escritrio sem pensar que, por baixo da saia, ela usava apenas um par de meias at as coxas e calcinhas finas de corte francs. S de pensar
que, quando ela cruzasse as pernas no escritrio, numa mesa de conferncia, no refeitrio executivo, outro homem poderia dar uma espiada na ponta de uma meia, num
pedacinho de coxa, Nick ardia por dentro. O que fez com que, a partir daquele momento, ele insistisse para que ela s usasse saias recatadas, at os ps, para trabalhar.
   Nick disse isso a ela, mas, para sua surpresa e irritao, Caroline apenas riu.
   ? Ora, o que  essa mudana sbita de pensamento, Nick? ? provocou ela, ainda rindo. ? Foi voc que disse que eu precisava experimentar alguns estilistas como
Versace, Herv Leger e Badgley Mischka. Alm do mais, como posso evitar que atualmente as saias que se usam vo da mini s longas?
   ? No, acho que no pode. Mas dane-se, Caroline! Eu no quero que outros homens saibam que minha esposa circula por a com meias at as coxas o dia inteiro!
   ? Bem, eu certamente no contarei a eles, Nick. ? O pulso de Caroline disparava enquanto ela o encarava. Ele estava com cime. Ela abaixou os clios para esconder
os pensamentos. ? Eu no imaginava que voc achasse essas meias to censurveis. Vou comprar meias-calas, se voc preferir.
   ? Eu no gosto ? ele resmungou, e sua boca passou pelo traado da boca de Caroline antes que ele a beijasse profundamente mais uma vez. Seus dentes pegavam com
gentileza o lbio inferior dela antes que sua boca queimasse seu rosto, suas tmporas e cabelos. ? Porque seno no posso fazer isso ? ele falou, num tom profundo
e calmo, no ouvido dela, a mo escorregando por baixo da calcinha, fazendo com que ela arquejasse. ? Voc est toda molhada, querida. Acho que voc me quer. O que
voc acha? -Como ela no respondeu e ainda desviou a cabea, ruborizada, ele deu uma risada suave.
   Em seguida, ele comeou a acarici-la, deliberadamente, com toques lnguidos, circulares, que a excitavam de uma maneira quase insuportvel. Gemendo, a cabea
tomada por uma sensao de vcuo, ardente, que a sacudia, e a fazia empurrar-se contra a mo dele, querendo, precisando ser preenchida por ele. Mas Nick se recusava
a aplacar sua urgncia, e com os dedos continuou a atorment-la, levando-a  beira do clmax repetidas vezes, apenas para deix-la insaciada.
   E o tempo todo ele a beijava, sua lngua mergulhando profundamente na dela, lambendo-lhe os seios e mamilos, at que ela comeasse a arquejar, frentica. Ela
tentava desesperadamente desabotoar-lhe a camisa e abrir-lhe o zper das calas. Mas, para sua aflio, Nick tomou seus pulsos com a mo livre, agarrando-os acima
de sua cabea, de forma que ela ficou sem defesa contra ele.
   ? Nick... por favor... ? ela resfolegava.
   ? Por favor o qu, benzinho?
   ? Faa amor comigo.
   ? Estou fazendo, querida.
   ? No, voc sabe o que eu quero dizer, o que eu quero, o que eu preciso.
   ? Sei? ? Ele deu mais uma risada suave e depois beijou-a, sua respirao quente bafejando-lhe o rosto e os seios. Ele sugou mais uma vez os mamilos dela, lambendo-os
em movimentos circulares, enquanto continuava a acariciar as dobras midas dela, fazendo seu corao disparar.  Voc me quer dentro de voc, Caroline? E isso? ?
ele perguntou, com a voz rouca.
   ? Sim...fim!
   ? Est bem. ? Ele afrouxou as calas para se libertar, to duro e quente que nem tirou-lhe as calcinhas. Apenas empurrou a parte da frente para o lado e a penetrou.
Ela gozou no mesmo minuto, gritando e se agarrando a ele sem controle, um orgasmo to forte que Nick ficou enlouquecido. Insistente, ele empurrou o membro fundo
dentro dela, seguidas vezes, balanando-a mais forte e mais rpido, at sentir seu prprio clmax.
   Quando tudo acabou, deu-lhe um beijo demorado, e lentamente arrumou-se, fechando as calas. Seus olhos danavam, maliciosos, e um sorriso maroto se esboava em
sua boca, enquanto ficava ali olhando para ela, esparramada sobre a mesa de reunio. Observou os cabelos dela emaranhados pelo rosto e seus lbios, vermelhos e inchados
pelos beijos dele, o suter e o suti puxados para cima, revelando seus seios nus, a saia arregaada em volta das coxas nuas. Ela era maravilhosa, Nick pensou.
   ? Senhora Valkov, sinceramente espero que essa no seja a maneira como conduz suas reunies ? ele disse, preguioso.
   ?  Reunies! Ah meu Deus ? Caroline olhou para o relgio, frentica, ajeitando rapidamente o suti e o suter e descendo s pressas da mesa de reunio. ? Tenho
uma reunio em quinze minutos! No acredito que isso aconteceu! ? Com os dedos tremendo, ela penteou o cabelo, arrebatada. ? Ns conversamos sobre isso, Nick! Que
no faramos isso...
   ? Voc no me deixou parar, Caro. Na verdade, se eu me lembro bem, voc me implorou para continuar.
   ? No devia ter feito isso. Eu no teria, se voc no tivesse... se no tivesse... ? ela se interrompeu, enrubescendo e mordendo o lbio inferior. Nenhum homem
devia ter tal poder sobre uma mulher. Isso ... indecente!
   ? Voc adorou. Eu adorei. Faremos novamente hoje  noite.
   ? No, no faremos ? ela insistiu, desejando, desesperada, ter um espelho para ver como estava sua aparncia. Teria que correr at o escritrio antes da reunio,
para se certificar de que no parecesse que havia acabado de fazer amor louco e apaixonado sobre uma mesa de reunio. Uma mesa de reunio! Meu Deus, ela no conseguiria
mais ver uma sem pensar no que ela e Nick haviam feito. ? No faremos ? reiterou ela, obstinada.
   ? Faremos ? insistiu Nick. ? Como voc viu, posso ser muito persuasivo.
   Caroline no sabia o que dizer. Afinal, no tinha acabado de provar que ele tinha razo ao se gabar que ela no conseguia resistir  investida sobre seu corpo
e seus sentidos? Devia ter vergonha, disse a si mesma, por ser to vulnervel. Devia ter ainda mais vergonha pela forma como as palavras dele a excitavam, a forma
como seu corao disparava. Para esconder sua confuso, ela destrancou a porta da sala de reunies e saiu pelo corredor, com Nick seguindo atrs.
   Caroline ficou completamente horrorizada quando os dois se depararam com a av do lado de fora. Sabendo que naquele momento devia parecer evidente a qualquer
um o que ela e Nick haviam feito, Caroline abriu a boca para se desculpar. Mas, com uma mo levantada, Kate a silenciou.
   ? No, no diga nada. Assim, posso fingir que no vi vocs dois. ? A voz de Kate era ao mesmo tempo satisfeita e incomodada, mas um sorriso se esboava nos cantos
de sua boca e seus olhos brilhavam. ? Mas, recm-casados ou no, no deixem acontecer de novo no horrio comercial. Ah, e Nick, voc pode me chamar de vov se desejar.
? Com esse comentrio surpreendente, Kate prosseguiu pelo corredor, deixando Caroline ali parada, boquiaberta.
   ? Vov no ficou brava ? ela murmurou, atnita. ? Ela no nos censurou.
   ?  E por que diabos deveria? Afinal, voc  minha esposa.


   Captulo 15

   ? Duckie ? a voz baixa ao telefone resmungava com a mesma rouquido de algumas semanas atrs. ? Eu no estou feliz, Duckie. No estou nada feliz. Voc me disse
que tinha alguns conhecidos no SIN. Disse que se livraria do Dr. Nicolai Valkov por mim. Mas ele ainda est aqui, Duckie. E isso me desagradou, me aborreceu tanto
que receio que... sim, receio muito... que no vou poder v-lo mais. Sabe, eu no gosto de pessoas que no mantm a palavra comigo, Duckie. Simplesmente no posso
confiar.
   Desta vez, o senador Donald Devane no estava encostado em sua cadeira grande de couro da Borgonha. Debruava-se sobre a escrivaninha antiga de carvalho macia,
como um garoto na escola preparando-se para levar uma punio. Suava, mas no por um sentimento amoroso. Estava petrificado. E se nunca mais ouvisse a dona daquela
voz rouca novamente? E se nunca mais visse o conjuntinho de lingerie preta? Ou, pior ainda, se alguma ligao annima expusesse seu caso discreto  imprensa? Ele
tinha esposa e famlia em casa, e o pblico americano no aceitava infidelidade em seus polticos. Em breve ele tentaria a reeleio.
   Meu Deus, ele gemia interiormente. Como se deixara envolver por aquela voz enfumaada e sua dona sedutora? Devia estar bbado na hora, ou totalmente fora de si.
O que ele ia fazer? Precisava se salvar e salvar sua carreira!
   ? Eu... voc pode confiar em mim ? gaguejou, xingando a prpria voz, que mais parecia um grasnido, revelando todo seu medo. Ele quase podia ver o sorriso lento
e malicioso que iluminava o rosto do outro lado da linha. ? Eu... eu vou me livrar de Nick Valkov, tal como prometi. E que... apenas que as coisas so... so mais
complicadas,  isso. Ningum esperava que ele se casasse para se salvar da deportao.
   ? Bem, voc devia esperar isso, seu imbecil! ? a voz era rspida e furiosa no ouvido do senador, fazendo com que ele tremesse ao se lembrar, de repente, de todos
os retratos trancados no cofre do quarto que pertenciam quela voz. A imagem dessas fotografias aparecendo nos jornais e na televiso o assustava terrivelmente.
? Nick Valkov  brilhante, um dos principais qumicos do mundo, pelo amor de Deus! Voc pensou que ele ia ficar quieto, esperando enquanto o SIN o rotulava como
suspeito de ser agente da KGB, e o deportasse?
   ? N-n-no. ? O senador Devane tirou o leno do bolso para enxugar o suor profuso da testa, rezando para que a secretria no estivesse ouvindo atrs da porta
aquela conversa furtiva. ? Mas... quem teria sonhado que ele se casaria com algum como Caroline Fortune? Meu Deus! Ele poderia muito bem ter se casado com algum
da famlia Kennedy ou Rockefeller, Koch, Bass, Hunt...
   ? Eu consigo imaginar, Duckie! ? a voz interrompeu, furiosa.
   ? Mas... mas o que voc espera que eu faa? O complexo Fortune est entre as maiores empresas no mundo. Kate Fortune  uma das dez mulheres mais ricas dos Estados
Unidos! E Caroline  a neta mais velha dela. Voc me disse que ningum se importaria se Nick Valkov fosse deportado ? o senador disse, acusador.
   ? E ningum se importa, a no ser aquela donzela encalhada da neta dos Fortune. Ouvi rumores de que os Fortune pagaram Nick Valkov para se casar com ela, j que
ela no conseguiria um marido de outro modo. Sendo assim, o casamento deles no  de verdade, de jeito nenhum.  tudo uma fraude para impedir que Nick Valkov seja
deportado! E no use esse tom comigo, Duckie. Eu no gosto... e voc sabe o que acontece quando eu no gosto de alguma coisa, no sabe?
   ? S-s-sim ? ele gaguejava, nervoso, pensando em todas as pessoas que estavam por cima e tinham sido derrubadas graas  dona da voz que agora estava fria e dura
como um iceberg. ? Mas, com toda justia, eu tentei manter minha palavra. O SIN interrogou tanto Nick Valkov quanto Caroline Fortune. Infelizmente, os dois agentes
do SIN que conduziram a entrevista se convenceram de que o casamento  de verdade.
   ? Bem, eu no estou convencida! Nem um pouquinho! No  de verdade, eu lhe digo!  uma farsa. Ento, sugiro que voc use qualquer influncia que tenha no SIN
para reabrir o arquivo de Nick Valkov o quanto antes. Porque, se no o fizer, Duckie, voc lamentar muito, muito mesmo. Entendeu?
   ? Sim, sim, entendi. ? O senador Devane passou as mos ansiosas pela gravata e afrouxou o colarinho, que parecia o estar sufocando. ? Mas voc ter que me dar
um tempo para resolver esse assunto. Uma vez que os Fortune esto envolvidos, as coisas no vo acontecer da noite para o dia.
   ? No se preocupe com isso. Voc no  o nico recurso que tenho  disposio. Como v, Duckie, voc no  to indispensvel. Ningum . Ento, amanh de manh,
a primeira coisa que voc vai fazer  telefonar para o SIN. Seno, vou ter que fazer algumas ligaes por conta prpria, Duckie... para a imprensa ? a voz anunciou
com falsa doura, para em seguida rir, tranqila, com uma alegria maliciosa antes que a ligao fosse interrompida, deixando um sinal de ocupado no ouvido do senador.
   Depois de desligar, s cegas, o senador Devane abriu com fora a gaveta da mesa, buscando, frentico, um vidro de remdios. Quando finalmente o encontrou, abriu
a tampa e tirou um comprimido. Seu corao martelava de tal forma que ele temia estar tendo um ataque. Amaldioou o dia em que havia posto os olhos na dona daquela
risada cruel. Amanh de manh, ele ligaria para o SIN. Mas, esta noite, esta noite ele pretendia ficar muito bbado, para poder esquecer por algum tempo aquela confuso
horrorosa em que havia se metido.
   Curvando-se na cadeira, ele abriu um par de portinhas oculto sob a abertura da escrivaninha para os joelhos, retirando de l uma garrafa de usque e um copo.
Com as mos tremendo e suando, ele serviu-se uma dose generosa e bebeu-a de um s gole.
   Se no se livrasse de Nick Valkov, seria seu fim, pensou o senador Devane. Arruinado, com a carreira destruda e sua vida familiar em frangalhos. Sua esposa pediria
o divrcio. Seus filhos provavelmente no falariam mais com ele. Ele no podia deixar aquilo acontecer.
   Doesse a quem doesse, Nick Valkov teria que partir.


   Captulo 16

   Minepolis, Minnesota

   O  esquema levara meses para ser concludo, mas sempre havia elos fracos em qualquer corrente: funcionrios aparentemente decentes que tinham problemas pessoais
e precisavam desesperadamente de dinheiro; funcionrios insatisfeitos que cultivavam um secreto rancor contra os chefes, e ex-funcionrios cheios de dio por haverem
perdido o emprego que s queriam se vingar dos antigos patres. Mais de um daqueles elos havia sido utilizado, embora o homem que entrava furtivo no prdio da Cosmticos
Fortune no soubesse disso. Os motivos e os mtodos da pessoa que o havia empregado no importavam. Tudo o que ele sabia ou o que lhe importava era o fato de que
estava sendo generosamente pago pelo trabalho desta noite.
   Em uma caixa de correio obtida apenas para esse fim, ele havia recebido uma cpia do mapa do prdio da Cosmticos Fortune, os horrios do pessoal da segurana
e da limpeza, e um carto de identificao que lhe permitia acesso s reas mais sensveis da empresa, por exemplo o laboratrio. Esse era seu principal objetivo
quela noite. Mas, primeiro, ele se dirigiu at o poro, onde conseguiu circular por reas de acesso geralmente limitado  equipe de manuteno. Ali, depois de tirar
a bolsa de equipamentos dos ombros e deix-la de lado, ele se ocupou em desligar a vlvula principal que controlava o fornecimento de gua do edifcio.
   O intruso no tinha muito tempo. A qualquer momento, algum descobriria que o prdio estava sem gua. Poderiam achar que uma tubulao na cidade havia se rompido.
Por outro lado, algum poderia ser brilhante ou estar irritado o suficiente para mandar algum da manuteno ao poro para verificar o problema.
   Colocando a bolsa de equipamentos novamente sobre os ombros, ele correu para o hall dos elevadores de servio e pressionou o boto de subida. Olhou para o relgio
de pulso. Era quase meia-noite. Ele imaginou que todos os funcionrios j tivessem ido para casa. Vrias das equipes de limpeza tambm j teriam terminado o expediente.
No entanto, outros ainda estariam trabalhando; assim, por precauo, ele usava um uniforme de zelador. No bolso, carregava culos de esqui, caso precisasse esconder
o rosto. Era provvel que no houvesse necessidade, j que ele tinha um carto de identificao da Cosmticos Fortune. Ainda assim, era melhor ser cauteloso.
   Quando o elevador parou, as portas pesadas se abriram e ele entrou. Relaxou ligeiramente a postura alerta, quando viu que estava vazio. Mesmo assim, seus nveis
de adrenalina continuavam altos. Sempre havia uma chance de ter algum dentro dele. Entrou e apertou o nmero do andar onde ficava o laboratrio.

   Apesar da hora em que chegara em casa, Nick estava em xtase. O trabalho daquela noite representava um marco importante. Ele tinha certeza de que o ingrediente
X que faltava na frmula de Kate era a misteriosa flor virginal, encontrada somente na floresta amaznica. Se ela no existisse, se fosse somente uma lenda, havia
outras plantas que podia usar. Mas seu instinto lhe dizia que a flor virginal era a que ele realmente queria.
   Com um bocejo, comeou a verificar mais uma vez os nmeros que havia inserido no computador em que estava trabalhando. Salvou a informao no disquete e apertou
o boto para retir-lo, colocando-o no bolso do jaleco. Depois, arrumou todo o aparato que havia usado para executar os testes daquela noite e terminou de arrumar
o laboratrio.
   No escritrio anexo, ele abriu o cofre da parede e ps dentro o disquete, fechou a porta pesada e girou o disco algumas vezes para no deixar marcado o ltimo
nmero da combinao. Ps a chave do cofre no bolso e apagou as luzes. Deixou o laboratrio e caminhou at o corredor, para esperar o elevador para os andares superiores.
   Pobre Caroline. Ela provavelmente estava dormindo no sof do escritrio, esperando por ele. Embora continuasse a se defender dele, s vezes, tarde da noite como
agora, Nick a acordava de um sono profundo e conseguia convenc-la a fazer amor com ele. Nas semanas que haviam se passado, ele havia se tornado um especialista
em sentir quando ela se mostrava vulnervel, suscetvel a seus avanos amorosos. Bem no fundo, ele achava que aquilo no era muito cavalheiresco de sua parte. Mas
quando ele pesava aquilo contra o desejo de ganhar o corao dela, nem se importava. Ela era sua esposa, e de maneira alguma ele ia perd-la.
   Chegando ao escritrio dela, tirou a chave do bolso e destrancou a porta. Desde o incidente com Paul Andersen, Nick insistia sempre que ela trancasse o escritrio
depois das seis da tarde. Agora, ao entrar, ele via confirmadas as suas suspeitas: sua mulher estava dormindo no sof. Parecia muito jovem: metade mulher, metade
criana, pensou, enrascada num cobertor.
   Ele aproximou-se, curvou-se e beijou a boca de Caroline. Quando ela se contorceu e sorriu para ele, Nick soube, com o desejo lhe apertando a virilha, que essa
noite teria sorte novamente.

   Saindo do elevador de servio, o intruso passou sorrateiro pelos corredores parcamente iluminados at o laboratrio. Como j previa, estava trancado. Mas aquilo
no era problema. Era para isso que servia o carto de identificao da Cosmticos Fortune. Olhando pelo corredor, ele tirou o carto do bolso. Virou-o de lado e
inseriu-o no mecanismo da fechadura da porta, enfiando a tarja magntica pela abertura. No painel, a luz mudou de vermelho para verde, e ele empurrou a porta para
abri-la, prendendo a respirao por um momento, como se esperasse ouvir soar um alarme. Mas nada aconteceu.
   Furtivo, dirigiu-se ao escritrio de Nick Valkov. Sob a luz da lanterna, ele pde ver que o cofre na parede estava exatamente onde devia estar. Sorriu, satisfeito.
Era sempre um bom sinal quando a informao que recebera se mostrava correta. Ele examinou o cofre. No seria tarefa fcil, mas podia perfur-lo. Ps a sacola de
equipamentos no cho, abriu-a e retirou um dispositivo em forma de cone, que afixou ao disco do segredo. Alguns minutos depois, conseguiu retirar o disco e comeou
a desparafusar o aro. Em seguida, escolhendo uma broca apropriada para trabalho pesado, ele a inseriu na furadeira e comeou a perfurar o cofre. A placa atrs do
disco era feita para enganar ladres. Ele estimava que levaria pelo menos meia hora ou mais para perfur-la.

   Caroline pensava que devia ser a pessoa mais sem vontade prpria para sempre se render ao marido. O tempo todo ela dizia que no faria isso. No entanto, era o
que acabava fazendo. Era como se Nick soubesse quando sua capacidade de defesa estava baixa. Mesmo agora, que as mos dele passeavam por seu corpo nu, ela o queria
novamente, sentia as coxas trmulas se abrirem para ele como se tivessem vontade prpria. Com a palma da mo, ele apalpou-lhe o pbis, os dedos brincando com os
plos escuros, deslizando sobre sua fenda macia e frgil, enfiando-se para dentro dela, excitando-lhe mais ainda o corpo que palpitava.
   ? Nick... ? ela tomava flego.
   ? Hummm? ? Ele beijava sua boca, fungava em sua garganta e seios.
   ? Eu... disse a voc... isto tem... que acabar...
   ? Ento? Faa-me parar. ? Ele prendeu o mamilo dela gentilmente entre os dentes, puxando-o e provocando-o com a lngua. ? Apenas diga que no quer que eu continue,
e eu paro. ? O polegar dele encontrou o pequeno centro oculto entre as dobras sensveis dela, comeando a circul-lo e esfreg-lo, fazendo com que ela se dobrasse
involuntariamente contra ele e um gemido baixo escapasse de seus lbios.
   Caroline sabia que ele estava dizendo a verdade, que pararia a qualquer momento que ela pedisse. O problema  que ela no queria pedir. Toda vez que abria a boca
para falar, ele a beijava, seus lbios e lngua silenciando qualquer coisa que ela quisesse dizer, deixando-a sem flego e ansiando por ele. Ele sabia que ela o
queria dentro dele. O corpo bronzeado dele cobria-lhe o corpo plido, e ele se empurrava para dentro dela e a preenchia, provocando-lhe um suave arquejo.
   O ritmo que ele seguia j lhe era conhecido, ela ansiava por ele e o recebia. Caroline envolvia a cintura dele com as pernas, trazendo-o fundo para dentro enquanto
ele entrava e saa de dentro dela, levando os dois a um clmax surdo e irracional.
   Mais tarde, eles se vestiram, e Nick trancou o escritrio enquanto Caroline chamava um elevador para que descessem. Quando ele chegou, os dois entraram. Mas,
em vez de apertar o boto da garagem, ela acionou o nmero do andar do marido, o que agora havia se tornado hbito.
   ? Droga! ? ela praguejou baixo. ? Agora vamos parar no laboratrio. Desculpe. Devo estar mais cansada do que pensava.
   ? Est tudo bem, benzinho. S perdemos alguns minutos. ? Nick a puxou para si, apoiando a cabea dela em seu ombro e apertando o boto certo. ? E voc pode dormir
no carro a caminho de casa. Vamos ficar no apartamento esta noite.
   O elevador desceu, parou e as portas se abriram, mostrando o laboratrio ao fim do corredor. Sem avisar, o brao forte de Nick impediu o movimento das portas,
que comeavam a se fechar.
   ? Qual o problema? ? perguntou Caroline, olhando para ele, confusa. ? Voc esqueceu alguma coisa?
   ? No. Tem algum no laboratrio. ? O rosto e a voz de Nick estavam sombrios. Ele apertou o boto de emergncia do elevador. ? Caro, pegue o telefone do elevador
e chame a segurana. Depois, volte para o seu escritrio pela escada de emergncia. Tranque-se l e no abra a porta para ningum, a no ser para mim. Entendeu?
   ? Sim, mas onde voc vai? O que est planejando fazer, Nick?
   ? Pegar quem estiver no laboratrio, seja l quem for.
   Antes que ela pudesse protestar, ele ja havia se afastado, tirado o carto de identificao do jaleco e passado pela abertura da fechadura da porta do laboratrio.

   O intruso terminara de perfurar o cofre. Direcionando o foco da lanterna potente para dentro do buraco que fizera, ele observou as engrenagens girarem internamente,
enquanto ele movia o miolo do disco, at elas se alinharem e pararem de se mover. Pegando um jogo de chaves do bolso, inseriu uma no buraco e manipulou-a com destreza
at conseguir encaixar o ferrolho.
   ? Voil! ? ele sussurrou pra si mesmo, com um sorriso largo. Abrindo a porta do cofre, retirou o nico disquete que continha e o enfiou no bolso. Arrumou as
ferramentas de volta na sacola e a pendurou no ombro. No laboratrio, ele olhou  volta para ver que substncias inflamveis estavam  mo. Pegando recipientes aleatoriamente
das prateleiras, ele espalhou o contedo pelo cho.
   Ele se preparava para riscar um fsforo e pr fogo em tudo, quando, do outro lado do corredor, as portas do elevador se abriram, mostrando um homem e uma mulher.
   E o homem viu o intruso.
   Nick estava despreparado para o que aconteceu quando abriu a porta do laboratrio. Uma exploso diante de seus olhos cegou-o e fez com que recuasse, chamuscado.
No pensou na prpria segurana, mas na de Caroline e da frmula secreta. Ao longe, ele ouviu o grito de Caroline e percebeu que ela havia desobedecido suas instrues.
   O intruso passou por ele correndo. Uma mscara de esqui cobria seu rosto, proteo contra as chamas e a fumaa que consumiam o laboratrio. Nick correu atrs
dele, pensando apenas que o homem podia atacar Caroline e us-la como refm. Ela valeria uma fortuna de resgate, e o intruso poderia mat-la. Mas no corredor ao
lado do laboratrio, foi Nick quem o atacou, rolando atracado com ele pelo cho. O intruso tentou escapar, mas Nick agarrou-lhe o tornozelo e o arrastou de volta,
dando-lhe um murro no maxilar.
   Caroline ficou ali olhando, abalada, enquanto o alarme de incndio emitia um apito ensurdecedor. De repente, ela se deu conta de que os sprinklers no estavam
funcionando, que no jorrava gua do teto para conter as chamas no laboratrio. Em pnico, correu pelo corredor e abriu o painel do extintor de incndio que havia
em cada andar. O cilindro era to grande e pesado que ela quase no conseguia levant-lo; Caroline arrastou-o pelo corredor at o laboratrio.
   Leu as instrues no extintor, tentando ignorar o fato de que Nick e o intruso ainda estavam atracados numa briga brutal a apenas alguns metros de distncia.
Abriu o pino e a espuma saiu. Com ela, Caroline comeou a apagar as chamas que consumiam o laboratrio. Uma fumaa de cheiro forte subiu pelo ar, fazendo arder seus
olhos e nariz, provocando-lhe tosse e levando-a a arquejar, enquanto lutava contra o fogo. Com o corao na mo, ela percebeu que seus esforos no seriam suficientes
para salvar o laboratrio, e era possvel que todo o prdio acabasse em chamas.
   ? Nick! ? ela gritou. ? Nick!
   Ele ouviu o grito de Caroline. Uma rpida olhada para o laboratrio o avisou do perigo. Mas, com o movimento, Nick acabou por soltar o intruso, que o chutou para
o lado, pondo-se de p em seguida e fugindo pelo corredor antes que pudesse alcan-lo. Mas, ao escapar, o disquete roubado escapuliu de seu bolso. Ele xingou com
raiva. No havia tempo de recuper-lo. Nick corria atrs dele pelo corredor. Ainda xingando, o intruso correu at a escada de emergncia e desceu em disparada.
   Nick o deixou escapar. Pegou o disquete e o colocou no bolso do jaleco. Abriu, ento, o painel do outro lado do corredor e retirou o extintor de incndio, correndo
de volta para ajudar Caroline. Naquele momento, o pessoal da segurana que ela havia chamado estava chegando, junto com as equipes de limpeza.
   ? Um de vocs desa at o poro! ? gritou Nick, esguichando espuma pelo laboratrio. ? O invasor deve ter desligado a gua no registro principal e os sprinklers
no esto funcionando. O restante de vocs, tranque o prdio todo. Chamem a polcia. Chamem a senhora Fortune. O intruso desceu as escadas.
   Um dos seguranas correu at o poro. Outros dois foram para a escada, enquanto um terceiro pegava o celular preso no cinto para chamar emergncia. Informaram-lhe
que o corpo de bombeiros j estava a caminho, em resposta ao alarme. Alguns minutos mais tarde, o sistema de sprinklers comeou a funcionar, ajudando a apagar as
chamas, para alvio de Caroline. Ela largou o extintor, quase sem flego pelo esforo.
   ? Querida, est tudo bem? ? perguntou Nick, colocando de lado o extintor que tambm tinha nas mos e aproximando-se de Caroline, a testa franzida de preocupao.
Ele a abraou. ? Voc no se machucou?
   ? No, s estou cansada.
   ? Graas a Deus! Por que diabos voc no fez o que eu falei? Aquele homem podia t-la atacado, levado como refm, ferido... ou coisa pior! E se isso acontecesse,
eu nunca me perdoaria! ? Sem se importar se algum estava olhando, Nick a beijou com fervor, soltando-a apenas quando os policiais e bombeiros surgiram em cena,
seguidos por Kate e Sterling Foster.
   ? Nick, o que aconteceu aqui? ? Kate perguntou, rspida, olhando para a destruio no laboratrio, enquanto os policiais e bombeiros tomavam depoimentos dos que
estavam presentes.
   ? Um intruso invadiu o meu escritrio e tentou roubar o disquete que contm a equao para a frmula secreta da juventude. No, no se preocupe, Kate. Ele no
o levou. Mas poderia ter levado se Caro e eu no estivssemos aqui at to tarde. Ele ps fogo no laboratrio. Lutei com ele, mas tive que deix-lo escapar para
ajudar Caroline a conter o fogo, que poderia ter se espalhado por todo o prdio. Sinto muito se no fiz melhor.
   ? No diga isso ? Kate respondeu. ? Voc fez a coisa certa, Nick. Se o prdio tivesse pegado fogo, pessoas poderiam ter se ferido ou morrido. Estou to feliz
que isso no aconteceu. Voc salvou o Rosto Fabuloso, e o laboratrio pode ser reconstrudo. A equipe de limpeza est a caminho. Amanh, teremos melhor idia dos
estragos. Enquanto isso, por que voc e Caroline no vo para casa? Caroline mal se agenta em p ? observou Kate, abraando a neta.
   ? Sinto muito, vov ? Caroline conteve um bocejo.
   ? Est tarde. Voc est exausta, e teve uma experincia horrvel. Nick, leve-a para casa.
   ? Vou levar. Vamos, benzinho ? ele murmurou. ? Vamos para casa e para a cama. Boa noite... vov.
   Kate sorriu, com olhos calorosos e gentis.
   ? Boa noite, Nick, Caroline. Vejo vocs amanh.
   ? Vov? ? Sterling olhou para Kate numa indagao. -O que quer dizer isso?
   ? Isso, meu querido amigo, quer dizer que encontrei o homem certo para minha neta.
   ? Como assim?
   ? Voc sabe o que Nick fez com o bnus que Jack lhe pagou para casar-se com Caroline?
   ? No. ? Sterling balanou a cabea. ? O qu?
   ? Depositou num fundo para os filhos dele com Caroline.
   ? Voc est brincando! ? O advogado estava boquiaberto com a notcia.
   ? Viu! Nunca duvide da intuio de uma mulher, Sterling. ? Kate deu uma risada. ? Eu lhe disse que teria pelo menos dois netos por conta desse acordo. E terei.
Agora encontre o detetive encarregado dessa confuso. Quero que o responsvel pelo incndio seja encontrado e punido. Alguma empresa concorrente ouviu falar da minha
frmula secreta, tenho certeza disso! Esto tentando roub-la, e isso eu no vou tolerar, Sterling. Ningum toma o melhor de Kate Fortune. Ningum!


   Captulo 17

   Nick levou Caroline para o apartamento na cidade. Apesar de ser muito tarde, tomaram banho juntos. Estavam cobertos de fumaa e da espuma seca dos extintores.
Depois foram para a cama juntos, Nick abraando Caroline; parecia sentir que ela queria apenas ficar abraada a ele.
   ? Estou to preocupada, Nick ? ela falou baixinho, passando os dedos nos plos escuros do peito dele. ? Depois dessa noite, acho que sua suspeita de que algum
tenha lhe feito falsas acusaes para que o SIN se livrasse de voc e a frmula secreta da vov no fosse terminada, estava certa. Por que outro motivo algum teria
invadido o prdio, entrado no laboratrio e tentado roubar o disquete?
   ?  No consigo pensar em nenhum outro motivo, benzinho. Acredito que temos que considerar a possibilidade de alguma empresa concorrente ter descoberto sobre o
Rosto Fabuloso. Se for isso, receio que teremos que conduzir uma investigao interna para descobrir quem  o espio entre ns.
   ?  to terrvel, Nick, pensar que existe um... traidor trabalhando na Cosmticos Fortune! Eu me pergunto quem ou o que pode ser o prximo alvo. E se forem atrs
da vov ou algo assim?
   ? No h razo para pensarmos nisso, querida ? respondeu ele, acariciando o cabelo dela. ? Alm do mais, tenho certeza de que, depois de hoje  noite, tomaremos
medidas de segurana adequadas. Voc com certeza vai tomar, Caroline. Voc teve uma tremenda sorte de que o intruso no a tenha agarrado. Foi muita coragem sua ficar
ali tentando me ajudar, combatendo o fogo. Mas voc poderia ter se machucado ou mesmo morrido. Se necessrio, eu mesmo vou contratar um segurana particular para
voc.
   ? Voc... quer dizer um... guarda-costas?
   ? Sim, isso mesmo.
   ? Ah, Nick. Acredita mesmo que quem estiver por trs disso tudo chegaria a me seqestrar ou... a algum da famlia? ? Caroline assustou-se s de pensar.
   ? No sei, benzinho. Mas, no que diz respeito a voc, no vou dar chance ao azar. Voc  minha esposa. Minha responsabilidade. Que tipo de marido... ou homem...
eu seria se deixasse alguma coisa lhe acontecer? ? Nick no acrescentou o quanto a idia de perd-la partia seu corao, o quanto ficara abalado ao ouvi-la gritar
aquela noite, ao v-la to corajosa combatendo o fogo, e pensar o quanto aquele intruso estivera perto dela. Nick sabia que, se tivesse sido necessrio, ele teria
entregue a frmula para salvar a vida de Caroline. Mas como podia lhe dizer isso, contar-lhe que a amava? Apesar do fato de que, quando ela estava vulnervel, ele
s vezes a persuadia a ir para a cama com ele, ela no tinha nenhum outro sentimento por ele alm de desejo. Pelo menos era o que ele achava.
   Mas ele estava errado. Deitada ali abraada a ele, Caroline no sabia o que se passava na cabea do marido. No havia ouvido nada a no ser a palavra responsabilidade.
Era a prova de que, no importa o que ela tivesse feito, nem como ela havia cedido ao desejo de Nick por mais de uma vez, mesmo contra seu prprio julgamento, ainda
no havia conseguido ganhar o corao dele. Perceber aquilo desmotivou-a. Ela no sabia mais o que dizer, o que fazer.
   Embora tivesse mudado a aparncia para agrad-lo, por dentro, ainda era a mesma. Tmida e insegura, cheia de incertezas no que dizia respeito aos homens devido
 forma como fora magoada por Paul Andersen no passado. Ela no era uma mulher fatal. E sabia disso. Talvez, apesar do que o marido dissera, ela no o houvesse satisfeito.
Talvez ele a quisesse apenas porque, durante o tempo em que estivesse casado com ela, no haveria nenhuma outra mulher disponvel para ele.
   Caroline sentia que devia se envergonhar por ter to pouco orgulho que estava disposta a aceitar Nick da forma que pudesse, nos termos que ele ditasse. Mas seu
amor por ele era to grande que ela nem se importava mais.
   Bem pior era o fato de que ela havia deixado que ele fizesse amor com ela sem que nenhum dos dois tomasse precaues contra gravidez. Apesar de ela ter dito que
no estava tomando nenhum anticoncepcional, ele no pareceu se importar. Ento, ela achou que, depois da conversa que tiveram, Nick devia ter pensado que ela houvesse
comeado a tomar plula. Caroline sentiu-se culpada por engan-lo, mas queria ter um beb com o marido. Mesmo se depois ela e Nick se divorciassem, sabia que ele
no era o tipo de homem que deixaria de amar e ser pai de uma criana. E ela merecia alguma coisa do casamento, pensava, uma parte de Nick que seria dela para sempre,
amada e apreciada.
   ? Nick, voc acha que Paul teve alguma coisa a ver com o que aconteceu hoje  noite? ? ela perguntou, baixinho. -Ele estava com raiva do nosso casamento e mais
ainda por ter sido demitido. Certamente deve pr a culpa em voc. E por isso o laboratrio e a frmula secreta foram o alvo.
   ?  Isso tambm me veio  cabea.  por isso que, de manh, vou contratar um detetive particular para investigar Andersen. Mas por que voc no est dormindo,
benzinho? ? Preguiosamente, Nick passou a mo sobre a manga curta e aveludada da camisola dela, acariciando-lhe o ombro. ? Pensei que estivesse exausta.
   ? E estou. Mas minha mente est to aflita que no consigo dormir.
   ? E compreensvel nas atuais circunstncias. Quer beber alguma coisa? Um chocolate quente?
   ? Hummm. Gostei da idia.
   ? Ento,  para j. ? Nick acendeu a luminria da mesinha-de-cabeceira e levantou-se da cama, sem perceber que Caroline o observava enquanto ele se dirigia 
cozinha. Ele usava apenas cuecas de seda, e ela no podia deixar de admirar sua figura alta e musculosa e o contraste da cor do tecido contra sua pele bronzeada.
Nick voltou um pouco depois e entregou a ela uma caneca fumegante.
   ?  Ah, voc ps at marshmallow ? ela exclamou, estranhamente comovida pelo gesto. ? No tomo um desses desde que era criana.
   ? Bem, o que  uma xcara de chocolate quente sem marshmallow?
   ? Acho a mesma coisa. Voc  um homem que quer meu corao, Nick? ? perguntou, dando um gole na bebida forte e doce.
   ? Sim, sou ? ele respondeu, do mesmo modo casual. Mas os olhos escuros flamejaram ao olhar para ela, transmitindo um tremor de excitao e fazendo disparar uma
pequena, sbita, chama de esperana dentro dela.
   Era possvel que ele estivesse falando srio? Caroline se perguntava. Ela no sabia, tinha medo de ser rejeitada se perguntasse, e de contar-lhe que seu corao
j era dele.


   Captulo 18

   A invaso do laboratrio, a tentativa de roubo da frmula secreta da juventude e o incndio convenceram Kate de que ela no podia mais esperar, e que enviar uma
equipe da Cosmticos Fortune at a floresta amaznica s chamaria a ateno para o Rosto Fabuloso, alertando no apenas quem estivesse por trs das armaes contra
Nick e a empresa, mas tambm outros concorrentes no mercado. Ela mesma tinha que ir, e hoje. Jake teria que tomar conta dos assuntos da Cosmticos Fortune na sua
ausncia, providenciar para que o laboratrio fosse recuperado e que medidas adicionais de segurana fossem tomadas imediatamente. Ela ditara um longo memorando,
detalhando os passos que queria que Jake tomasse, com cpia para Sterling. O filho e o advogado poderiam lidar com todos esses assuntos.
   Quando a empregada demonstrou preocupao com tudo o que havia ocorrido, Kate a ignorou:
   ? Tudo isso, por mais infeliz que tenha sido, me dar uma cobertura perfeita. Voc pode ligar para o escritrio agora de manh e informar que no vou trabalhar
hoje. Pode sugerir discretamente que como estou "Velhinha" ? a voz de Kate ficou mais seca, e ela continuou, irritada: ? o choque  minha sensibilidade foi considervel,
que eu tive uma noite horrvel, e que, por conta disso, estou descansando.
   ? Sim, posso manter essa histria por alguns dias. Mas e depois? A senhora certamente no acha que vai voar at a Amrica do Sul, caminhar pela selva e encontrar
esta planta, que sem dvida  apenas um mito, em menos de uma semana!
   ? No, claro que no. Apenas preciso tomar a iniciativa. Uma vez na Amrica do Sul, com os arranjos para a jornada j providenciados, entro em contato com Jake
e Sterling. Da, ser tarde demais para interferirem nos meus planos. Estarei desbravando a floresta amaznica antes que eles faam qualquer coisa para me impedir.
   ? Ainda no estou gostando nada disso, senhora Kate ? disse a senhora Brant com firmeza. ? Como sabemos que h uma empresa concorrente por trs disso tudo? Como
sabemos que no foi o imbecil do Paul Andersen que fez isso para se vingar, por exemplo? Como sabemos quem ou o que ser o prximo alvo? Poderia ser a senhora. 
melhor que a senhora fique em casa e contrate um guarda-costas. A senhora  uma mulher rica e famosa. Pode ser vtima de seqestro. Algum poderia pegar a senhora
por causa da frmula secreta. E na selva a senhora no ter nenhuma proteo!
   ? Sim, mas tampouco viro me procurar aqui. Ento, no se preocupe. Estarei perfeitamente segura. Agora, vamos para o aeroporto. Voc j telefonou para que o
jato da empresa esteja com tanque cheio e me esperando?
   ? Muito contra minha vontade, sim.
   ? timo. Vamos, ento.
   Pela expresso determinada no rosto de Kate, a senhora Brant se deu conta de que nada que ela dissesse ou fizesse ia persuadi-la a mudar de idia. Relutante,
ordenou que pusessem a bagagem no carro. Alguns minutos depois, Kate estava a caminho do aeroporto.

   ? Estou dizendo, h alguma coisa errada. ? Para reforar sua concluso, Jake bateu com a mo na mesa de mogno de Honduras, na sala de reunio onde havia convocado
Caroline, Nick e Sterling. ? Mame nunca fica doente, e, por mais que estivesse chateada com os acontecimentos desta noite, ela nunca teria ficado de cama como uma
velha desamparada! Era mais fcil que sasse pela cidade  caa do invasor.
   ? Papai, mesmo que seja difcil de lembrar, ela tem setenta anos ? Caroline falou com calma, embora tambm estivesse preocupada. No conseguia se lembrar de outras
ocasies em que a av no tivesse chegado ao escritrio na cobertura na Cosmticos Fortune antes das oito da manh.
   ? No, concordo com Jake ? declarou Sterling, a testa franzida de preocupao. ? Mesmo se Kate estivesse doente, ela no se recusaria a atender o telefone ou
a se encontrar com qualquer um de ns. Ora, eu e ela jantamos juntos pelo menos trs vezes por semana desde que Ben faleceu. No sou apenas o advogado de Kate...
sou seu melhor amigo! ? O advogado ainda estava inconformado com o fato de que na noite anterior a senhora Brant se recusara a abrir a porta da casa de Kate para
ele.
   ? Jake e Sterling tm razo, Caro. Este suposto mal-estar no condiz com a personalidade de sua av ? insistiu Nick, acariciando-lhe a mo, sabendo o quanto ela
estava ansiosa pelo bem-estar de Kate. ? Acho que um de ns devia ir at a casa dela e se recusar a ir embora at ter algumas respostas.
   ? Tambm acho ? Jake balanou a cabea. ? Mame est tramando alguma coisa! Aposto minha vida! Meu Deus ? Jake suspirou. ? Espero que ela no tenha se aventurado
por a atrs do invasor. No duvido que ela esteja pelas ruas de Minepolis agora mesmo, disfarada de lavadeira, empurrando um carrinho e interrogando todo mundo
que ela ache que possa ter alguma pista!
   A realidade era bem pior, descobriram os quatro ao chegar a casa de Kate e pressionar a senhora Brant para deix-los entrar.
   ? Amaznia! ? gritou Sterling, abalado com o paradeiro de Kate e desabando sobre uma cadeira, como se tivesse perdido o cho sob os ps.
   ? Est dizendo que mame est perdida na selva amaznica? ? Jake perguntava, furioso e aflito. ? Por que diabos ela mandou Buck lev-la at l no jato da empresa?
-Bucky era o principal piloto da Cosmticos Fortune.
   ? Bucky no a levou, senhor Jake. A senhora Kate foi pilotando ? a senhora Brant admitiu, relutante, sabendo a consternao que a informao causaria. ? Acredite,
fui contra essa viagem desde o comeo. Fiz tudo o que pude para convencer a senhora Kate a no ir. Mas vocs sabem como ela  quando est determinada a fazer alguma
coisa. No houve como impedi-la. Ela estava muito chateada com a invaso na empresa e decidiu que no ia mais esperar que o Dr. Valkov conclusse os testes para
a frmula. Ele tambm achou que enviar uma equipe at a floresta amaznica atrairia uma ateno desnecessria sobre a Cosmticos Fortune, revelando Rosto Fabuloso
a toda a indstria antes que ele estivesse pronto.
   ? Ento, ela quis resolver tudo por conta prpria ? disse Nick, sombrio. ? De todas as idias imprudentes que Kate j teve desde que a conheo, essa foi a pior.
Ns nem sabemos se a tal da flor existe. No quero alarmar ningum, mas a verdade  que ela pode ter partido numa busca intil e se metido numa enrascada.
   ? O que quer dizer com isso, Nick? ? O rosto de Caroline empalideceu de ansiedade. Ela estivera passando mal pela manh e ainda no se sentia disposta. Uma reao
retardada a tudo o que havia acontecido na noite anterior na Cosmticos Fortune, pensou.
   ? Querida, como o invasor conseguiu escapar, no sabemos quem ou o que est por trs desse ataque. E tambm no sabemos quem ou o que pode ser o prximo alvo.
Podemos teorizar que  por causa da frmula secreta, mas no podemos ter certeza. Poderia ser Kate. Alm disso, nem todas as tribos indgenas da Amrica do Sul so
amistosas. No passado, seus artefatos de guerra variaram desde dardos banhados em veneno de sapo a flechas envenenadas com curare. Uma infinidade de pessoas foram
para a floresta amaznica e nunca voltaram. Uma expedio como essa precisava ser organizada com muita cautela. E no ser uma jornada improvisada em poucos dias
? afirmou Nick.
   ? Um de ns ter que tomar um vo comercial para a Amrica do Sul. ? Jake estava extremamente abalado. ? Sterling, acho que voc devia ir. Apesar de estar preocupado
com mame, sei que ela nunca me perdoaria se eu deixasse a Cosmticos Fortune sem pr em prtica todas as novas medidas de segurana.
   ? Concordo. ? Virando-se para a senhora Brant, Sterling a instruiu a ligar para as companhias areas e reservar um lugar no primeiro vo para o Rio de Janeiro,
o mais rpido possvel. ? Mas no tenho certeza se vai adiantar alguma coisa ir at l, se vou conseguir seguir a trilha de Kate. Ela pode estar em qualquer lugar.
   ?  verdade ? concordou Nick, pensativo. ? Quando estiver ligando para o aeroporto, senhora Brant, descubra se Kate arquivou algum plano de vo. Se o fez, ento
pelo menos teremos alguma idia de seu destino.
   ? Boa idia, Nick ? disse Caroline, sem perceber que procurava a mo do marido em busca de conforto.
   Nos ltimos dias, seu amor por ele se aprofundara ainda mais. Ele havia entrado para a famlia com a facilidade de quem sempre pertencera a ela. E havia lidado
com a invaso e o incndio no laboratrio com a autoridade de algum que h muito tempo estava acostumado ao comando. Agora, sua preocupao pelo bem-estar de Kate
era evidente e sua avaliao da situao e as sugestes que fizera eram inteligentes. Ela sabia que ele conquistara o respeito e admirao tanto de seu pai quanto
de Sterling, algo que Paul Andersen jamais conseguira.
   ? Bem, acho que isso  tudo que podemos fazer agora, ento  melhor voltarmos ao escritrio. ? Jake esfregou as tmporas, como se comeasse a ter uma dor de cabea.
-Tenho certeza de que no preciso lhe dizer o que penso de seu comportamento, senhora Brant. Sei o quanto  leal a minha me, mas, num caso como esse, a senhora
devia ter me chamado.
   ? Sim, senhor Jake. Talvez o senhor tenha razo ? a empregada admitiu. ? Se algo acontecer a senhora Kate, eu nunca me perdoarei.

   A vasta floresta amaznica se espalhava l embaixo em uma mirade de tons de verde, cortada pelo enorme rio que tinha o mesmo nome da selva. Era uma viso espantosa,
de tirar o flego, pensava Kate ao olhar pela janela do jato da empresa.
   Ela no havia feito a viagem toda de uma vez s. Em vez disso, dividira o vo em etapas, dizendo a si mesma que era a coisa mais sensata a fazer. Mesmo agora,
ela no queria admitir que talvez a senhora Brant estivesse certa: ela no era mais jovem como no passado.
   Apesar disso, ali estava ela. Aterrissaria no aeroporto do Rio de Janeiro, e em seguida comearia a organizar a expedio. Com os planos concludos, ela entraria
em contato com Jake e Sterling. Mas era tal seu entusiasmo com a aventura, com a idia de que, depois de tanto tempo, Rosto Fabuloso estava a ponto de se tornar
realidade, que Kate no foi capaz de resistir a sobrevoar a floresta.
   Confiante, Kate nem se incomodara em verificar o interior do jato naquela manh. Ela no sabia que, durante a noite, um seqestrador havia invadido a aeronave
e se escondido na parte de trs do avio. E tampouco percebeu sua presena quando ele saiu do esconderijo e se aproximou do painel de comando.
   Antes que Kate se desse conta do que estava acontecendo, o seqestrador tinha uma pistola automtica apontada contra sua mandbula.
   ? Oua bem, sua velha ? disse, com uma voz dura, provocando-lhe um arrepio na espinha. ? Porque sua vida depende de fazer exatamente o que eu disser. Entendeu?
   Engolindo em seco, Kate concordou com um movimento de cabea, sem dizer nada, determinada a controlar o medo. Devia ser o mesmo homem que invadira a Cosmticos
Fortune e ateara fogo no laboratrio, pensou. O homem que havia tentado roubar sua frmula. Como ele havia embarcado, ela no sabia. Mas uma coisa era certa: ele
no ia aproveitar-se dela! Ela podia ser velha, mas no estava morta. Na verdade, Kate pensava, a idade s vezes trabalhava a seu favor, pois, sem dvida, o homem
acreditava que ela era frgil e desamparada. Bem, pois ele logo saberia o quanto estava errado!
   ? Quero que d uma olhada e encontre um lugar onde possamos aterrissar com segurana ? ele ordenou.
   ? E onde sugere que eu aterrisse? ? ela perguntou, mordaz. ? Voc pode ver que h muito pouco espao l embaixo, especialmente um trecho grande o suficiente para
que um jato como este possa aterrissar. No estou pilotando um Piper Cub, entende?
   Ele bateu com a arma no crnio dela, como aviso.
   ? Nunca gostei de ruivas. Ento, no brinque comigo ou estouro seus miolos ? resmungou. ? Agora, pouse este avio!
   ? Muito bem ? Kate concordou, firme. ? Ali, onde os nativos esto derrubando e queimando a floresta, parece haver uma clareira. Vou tentar descer. Mas no me
culpe se algo der errado. Este no  o tipo de avio que possa pousar em qualquer lugar, e eu tambm no sou uma piloto exmia.
   ? Apenas pouse o avio, sua velha! ? ele gritou, rude. Sem retrucar, Kate manejou os controles do jato que comeou a descer. O tempo todo, as engrenagens de seu
crebro giravam furiosas. Sem dvida, o seqestrador no sabia pilotar um avio. Seno, no precisaria que ela permanecesse viva. Mas, uma vez no solo, ela podia
no mais lhe ser til, e mesmo se fosse, no dava para dizer o que ele pretendia fazer com ela. Kate teve vises de todos os tipos de horror: o pior de todos foi
ser mantida sedada e desamparada para que finalmente se tornasse uma mulher senil.
   Ela preferia estar morta. Portanto, quando o jato se nivelou e pousou sobre o solo, ela subitamente arrancou a arma do bandido, arremessando-se do assento. O
avio deu solavancos na estrada de terra ? que na verdade no passava de uma trilha ? e balanou. As asas comearam a sacudir e o motor a fazer presso num barulho
insuportvel. O jato estava fora de controle, mas no havia nada que Kate pudesse fazer, j travava uma luta frentica com o bandido.
   A pistola deslizou pelo cho do avio, assim como Kate e o seqestrador. Mas ele era jovem e mais forte. Segurando-se num assento, ele conseguiu se endireitar
e tentou alcanar a arma. No momento seguinte, ele a tinha apontada diretamente para ela, e Kate sabia que atiraria. Foi seu ltimo pensamento coerente, antes que
um movimento brusco do jato a atirasse contra a porta. Com o impacto, a porta se abriu, e ela foi lanada violentamente para fora.
   Ela caiu no cho e rolou, sentindo uma dor sbita e aguda no quadril, o que a fez arquejar e gemer. Segundos depois, uma sbita luminosidade a cegou quando uma
das asas do avio foi arrancada por uma fileira de rvores. O jato comeou a rodopiar desgovernado, explodindo em seguida num barulho ensurdecedor e atirando destroos
em todas as direes. Alguma coisa atingiu Kate na cabea, e ela nunca soube o qu ? uma nuvem escura a envolveu.
   Os nativos que assistiram  queda do avio e encontraram o corpo de Kate inconsciente eram amistosos e tinham algum conhecimento em medicina. Eles a deitaram
numa maa improvisada e a carregaram para sua aldeia no meio da floresta amaznica.


   Captulo 19

   ? Caroline, meu amor, o que houve? Qual  o problema? ? perguntou Nick, correndo para a cozinha da casa  beira do lago, ao ouvi-la berrar e cair em lgrimas.
   A mo dela tremia ao desligar o telefone, e lgrimas corriam por seu rosto. Sem enxergar, ela foi ao encontro dos braos dele.
   ? Ah, Nick! Nick! ? ela soluava. ? Vov est... morta!
   ? Morta? No, no pode ser! Voc... tem certeza, Caro?
   ? Sim, era papai ao... ao telefone. Sterling telefonou... da Amrica do Sul. Eles localizaram o jato da empresa. Vov deve ter... ter... tido um problema no motor,
algo assim, porque estava tentando... pousar na selva. Ah, Nick, ela... bateu, o... o avio explodiu! Eles encontraram... o corpo em meio aos escombros... ou pelo
menos o que restou dele. Sterling disse que... estava queimado... no dava para reconhecer. Ah, Nick!
   ? Calma, benzinho. Sinto muito... muito mesmo. Sei o quanto voc amava sua av. Vamos, vamos l para cima, voc se deita e eu preparo alguma coisa para voc beber.
   Caroline saiu da cozinha como que anestesiada. Chorava tanto que, sem enxergar por onde caminhava, tropeou. Sem dizer nada, Nick pegou-a nos braos e carregou-a
escada acima at o quarto dele, onde a deitou na cama. Fechou as cortinas por causa do sol que a cada dia brilhava mais intenso  medida que o inverno dava lugar
 primavera. Entrou no banheiro, molhou uma toalha e, depois de torc-la, voltou ao quarto e a colocou sobre a testa de Caroline. No criado-mudo a um canto do quarto,
pegou uma pequena garrafa de conhaque, serviu uma dose e insistiu para que ela tomasse. Depois, deitou-se ao lado dela, abraando-a e confortando-a at que finalmente
ela caiu num sono profundo.
   Ao olhar para a esposa que dormia, a testa de Nick franziu-se. Ela no parecia bem desde a noite da invaso. E, embora no tivesse lhe dito nada, ele suspeitava
que ela estivesse grvida. Ele imaginou que tivesse havido algum problema com seus mtodos contraceptivos e que a razo para ela no lhe contar era porque no queria
o beb e planejava deix-lo. E Nick poderia at ser condenado, mas no deixaria que isso acontecesse. Se, para impedir, ele tivesse que amarr-la e sentar-se em
cima dela nos prximos nove meses, ele o faria.
   De repente, seus pensamentos se voltaram para Kate Fortune. Ele no conseguia acreditar que ela havia partido, que no havia conseguido enganar a morte. Ela,
que era sempre to vibrante, to indomvel. Mas no havia motivo, supunha, para duvidar da identificao do corpo, j que no havia mais ningum a bordo do jato
da empresa. Ele se perguntava se o avio, que aparentemente havia sofrido alguma falha mecnica, teria sido sabotado. Sem dvida, a mesma idia havia ocorrido a
Sterling, o que ele logo verificaria.
   Sendo realista, no havia nada que Nick, de onde estava, pudesse fazer a no ser manter Caroline segura. Seus braos envolveram o corpo dela. Ele mataria qualquer
um que tentasse fazer mal a ela ou ao beb, pensou.

   Caroline sentia que praticamente tudo, desde o comeo do ano, estava dando errado, a comear pela tentativa do SIN de deportar Nick. Agora, pouco depois da notcia
da morte da av, chegou outra carta do SIN, insistindo para que ela e Nick comparecessem ao escritrio local do SIN para uma entrevista formal e uma investigao
sobre o seu casamento.
   ? O que vamos fazer, Nick? ? ela perguntou, depois que ele leu a carta.
   ? No vejo o que mais podemos fazer, querida, seno comparecer ? respondeu ele, ponderado. ? Quero dizer, no podemos agir como se estivssemos nos escondendo.
Alm do que, se eu realmente fizesse alguma coisa como fugir, o SIN tomaria isso como motivo para que legalmente eu nunca me tornasse cidado dos Estados Unidos.
Mas no precisa se preocupar, Caro. O SIN no pode provar que nosso casamento no  genuno. No entanto, receio que isto signifique que no poderemos nos divorciar
em breve. ? Na verdade, nunca, se eu puder fazer algo a respeito!, Nick pensou, embora no tenha pronunciado alto estas palavras.
   ? Eu... sinto muito ? Caroline disse, mordendo o lbio inferior, angustiada pelo pensamento de que ele devia estar ansioso para que se separassem. ? Eu... sei
que isso o aborrece muito, e o quanto... o quanto voc anseia ter de volta sua liberdade.
   ? Sem dvida, voc sente o mesmo ? respondeu Nick, ofendido e irritado pelo fato de que ele parecia significar pouco ou nada para a esposa, apesar de terem dividido
a cama e de ela sem dvida estar carregando um filho seu.
   ? Bem, no  como se eu acreditasse que nosso casamento duraria para sempre ? ela chamou ateno para o fato, virando-se de costas para que ele no visse as lgrimas
que lhe surgiam aos olhos.
   ? No, no  ? ele concordou, mas falou para um aposento vazio. Caroline havia deixado a cozinha e corrido para o quarto.
   Resoluto, Nick subiu as escadas atrs dela. Mas ela havia entrado no banheiro, trancado a porta e aberto a torneira do chuveiro, para no ouvi-lo bater, ele pensou.
Ele no sabia que ela estava com a gua aberta apenas para esconder o som de seus soluos. Ele estava fora de si, desesperado em salvar seu casamento, em segurar
a mulher que amava. Olhou em volta do quarto que ela havia escolhido. Aquilo era parte do problema, ele pensou, furioso. Sem pensar, abriu a porta do armrio e comeou
a tirar, sem cuidado, as roupas de dentro.
   Quando Caroline reapareceu algum tempo depois, encontrou seu quarto numa total desarrumao. Seu armrio estava vazio, as gavetas abertas, as roupas espalhadas
por todo o quarto.
   ? Nick, o que est fazendo? ? gritou, atnita.
   ? Voc no pode continuar neste quarto ? ele respondeu, enquanto juntava mais uma monte de roupas para lev-las para seu prprio quarto. ? E se o SIN fizer uma
visita de surpresa? Se eles descobrirem que temos quartos separados no vo acreditar em nada que dissermos. Voc quer que isso acontea?
   ? N-n-no,  claro que no. ? O corao de Caroline martelava forte em seu peito. Ele queria que ela se mudasse permanentemente para a cama dele tambm?, ela
se perguntou.
   Ela recebeu a resposta mais tarde, aquela noite, quando ela e Nick se recolheram. Quando ela se virou no corredor em direo a seu prprio quarto, ele agarrou-lhe
a mo e sem que ela pudesse impedir, perguntou:
   ? Aonde voc pensa que vai, benzinho?
   ? Para... para a cama ? ela gaguejou, nervosa, um misto de susto e excitao pela expresso no rosto bronzeado do marido enquanto seus olhos escuros e brilhantes
a olhavam de cima a baixo, com interesse.
   ? Sim, voc vai para a cama, Caro. Mas no aqui. No mais ? ele disse em tom suave, mas uma pontinha inconfundvel de dureza cobrindo a seda de sua voz. Ento,
como se ela quisesse protestar, ele a tomou nos braos e a carregou pelo corredor at seu prprio quarto.
   O pulso de Caroline disparou, descontrolado, enquanto ela se agarrava firme ao pescoo dele. Ela se sentiu como uma prisioneira, levada por um cossaco determinado,
que pretendia rapt-la. O pensamento era assustador e arrepiante. Nick a atirou na cama, no quarto ainda escuro, iluminado apenas pela luz prateada da lua que penetrava
peIas janelas de cortinas abertas. Ele fechou a porta do banheiro e trancou-a.
   ? Tire a roupa, Caroline ? ele comandou, desabotoando a camisa.
   As mos dela tremiam de nervosa expectativa enquanto, sem dizer nada, obedecia s ordens dele. Ento, puxou o lenol da cama e deslizou para baixo dele, com o
corao pulsando to forte que pensou que fosse explodir. Ela tentou cobrir-se com os lenis, mas Nick a impediu. Nu, ele deitou-se na cama a seu lado, o colcho
oscilando sob seu peso e fazendo-a deslizar involuntariamente para os braos dele.
   ? No, no se cubra para mim. Quero v-la inteira enquanto fao amor com voc ? ele murmurou antes que sua boca tomasse a dela, sua lngua mergulhando fundo,
alvoroando seus sentidos e forando sua rendio.
   Gemendo do desejo que ardia dentro dela, ela abriu os lbios, suplicando e querendo que ele os invadisse, oferecendo-se em silncio. As mos dela agarraram os
cabelos grossos e escuros dele, querendo e precisando dele, amando-o com todo o corao. De alguma forma, ela o faria entender, pensou vagamente, em algum canto
distante da mente, mesmo que no conseguisse se forar a dizer as palavras em voz alta.
   Ela no sabia que o mesmo pensamento enchia tambm a cabea de Nick enquanto ele a beijava e acariciava com fervor.
   ? Sua pele  to macia e delicada. Adoro a maneira como a sinto sob minhas mos ? ele disse, deslizando as mos possessivamente pelo corpo dela, tocando, explorando,
excitando-a at faz-la perder o controle. ?  minha, cada centmetro dela. Voc sabe disso, no sabe, Caro?
   ? Sim, Nick... ? ela suspirou, arrepiada pela nsia dele. Ele agarrou-lhe os seios, pressionou-os com a boca, os dentes e lngua, numa provocao torturante.
Pequenas ondas de deleite corriam por todo o corpo dela, que pulsava  medida que ele lhe estimulava os mamilos at que eles se contrassem sob os lbios e as mos
dele. E ele se demorava ali, lambendo e sugando com avidez.
   Caroline se sentia quente e febril, desorientada como se tivesse sido tomada por um delrio. Mal se dava conta dos gemidos suaves que emanavam de sua garganta,
da maneira como suas mos passeavam sem descanso pelo corpo de Nick, traando a dura curva dos msculos que se agrupavam sinuosos sob suas palmas. Ela massageava-lhe
as costas, as ndegas, apertava a boca em sua garganta e peito. A pele dele, encharcada de suor, tinha gosto de sal, cheiro de almscar e dos cigarros Player que
ele fumava; seu hlito quente deixava em sua prpria pele o aroma da vodca que ele bebia, todas as coisas masculinas que a incitavam e intoxicavam.
   Ela podia sentir seu sexo duro e vigoroso esfregando-se nela, uma promessa, quando ele abriu-lhe amplamente as pernas para passar a mo que buscava-lhe as pregas
macias, provocando-a at que Caroline ardesse de ansiedade por ele. Mas ele ignorou-lhe os gemidos de splica, a forma como ela arqueava o corpo e se contorcia junto
a ele, buscando satisfao.
   ? Nick, por favor... ? ela implorava.
   ? Por favor, o qu? ? ele murmurou, beijando-lhe a boca e os seios, enquanto deslizava os dedos profundamente dentro dela, retirando-os em seguida, provocando-lhe
sensaes de calor. Nick repetiu o movimento de forma lnguida, hipnotizadora. ? Se h algo que voc queira, meu bem, ento, pegue.
   Caroline sentiu-se chocada com a prpria audcia. Mas em seu estado de excitao, no chegou a se importar muito com isso. Ela o empurrou, e, colocando-se por
cima dele, empalou-se sobre seu sexo, a respirao ofegante na garganta ao senti-lo pulsante deslizar para dentro dela, preenchendo-a profunda e completamente. As
mos dele se fecharam firmes na cintura dela. Seus olhos escuros brilhavam de triunfo e satisfao quando ele comeou a balanar o corpo dela de encontro ao dele,
parecendo intuitivamente saber como segur-la, de forma que cada empurro tornava-se puro tormento para ela, levando-a  loucura.
   Ele podia sentir a mar de sensaes assomar dentro dela de maneira incontrolvel. Como se, onda aps onda de um prazer to intenso a fizessem perder o flego.
Ela gritou, e ele a apertou contra o prprio corpo, virando-lhe bruscamente o corpo e mergulhando dentro dela at que seu prprio jorro veio com a mesma violncia,
deixando-o tambm sem flego.
   Ele ento beijou seus lbios, puxando-a para ele e encostando-a contra seu peito. Com a mo livre, ele se esticou at a mesinha-de-cabeceira, pegou um cigarro
do mao de Player's, acendeu, tragou e soltou uma nuvem de fumaa no ar. Acariciando o cabelo de Caroline, ele se perguntou no que ela estaria pensando.
   ? Lamenta que eu a tenha trazido para c? ? perguntou ele finalmente.
   ? No. ? A resposta dela foi to baixa que ele quase no ouviu. Mas ouviu e seu corao deu um salto de esperana. ? Voc... vai mesmo me manter aqui, Nick?
   ? Sim. ? Ele pensou que ela poderia protestar, mas no o fez. E tampouco protestou quando ele, depois de uma ltima tragada no cigarro e de esmag-lo no cinzeiro,
comeou a beij-la e acarici-la novamente, querendo-a de novo.
   Era apropriado, porm irnico, Caroline pensou, que a entrevista deles com o SIN tivesse sido agendada para hoje, primeiro de abril. Porque s podia ser mentira
que ela havia se apaixonado por seu marido e se rendido inteiramente a esse sentimento. Se ela no estava grvida antes, certamente agora estava. Pelo menos era
o que lhe informara naquela manh o kit de teste de gravidez que havia comprado no supermercado no comeo da semana. Ela no se arrependia pelo beb; queria a criana
de todo corao. Mas realmente se desesperava ao pensar que, apesar de tudo, Nick nunca lhe dissera nenhuma palavra de amor.
   Em tamanho turbilho interno, Caroline mostrava-se totalmente alheia aos olhares admirados de vrios funcionrios do SIN quando ela e Nick caminhavam pelo prdio.
O marido, no entanto, encarava irritado cada homem que olhava para ela; deixando claro que ela estava acompanhada.
   Como os senhores Howard e Sheffield tivessem provado que haviam se deixado facilmente enganar, o caso de Nick havia sido transferido para uma superior, a senhora
Penworthy. Ela era uma mulher grande, de aparncia formidvel, com cabelos e olhos cinza metlico. No parecia que algo pudesse escapar  sua percepo ou que ela
seria enganada por algum.
   Quando Caroline e Nick entraram no escritrio, a senhora Penworthy deu uma olhada dura para eles e, numa petulncia que rivalizava com Kate Fortune em seu melhores
dias, instruiu-os a sentar. Eles obedeceram; a expresso de Nick era desafiadora, a de Caroline, nervosa. A senhora Penworthy abriu uma pasta grossa e passou os
olhos lentamente em seu interior.
   ? Eu no vou perder tempo fazendo aos senhores as mesmas perguntas que j lhes foram feitas anteriormente pelos senhores Howard e Sheffield ? ela comeou, sem
se alterar. ? Aparentemente, os senhores os deixaram satisfeitos quanto  validade de seu casamento. No entanto, esto aqui hoje porque, desde ento, o SIN recebeu
denncias ainda no confirmadas de que, na verdade, se casaram somente para que o Dr. Valkov evitasse ser deportado de volta  Rssia. Que sua permanncia nos Estados
Unidos era to vital para a Cosmticos Fortune que lhe pagaram um bnus para aceitar esse casamento de fachada. Isto  verdade?
   ? No ? Nick mentia de forma bem direta.
   ? Ento, Dr. Valkov, talvez o senhor tenha a gentileza de explicar por que, no dia do seu casamento, o pai da senhora Valkov, o senhor Jacob Fortune, transferiu
a quantia de meio milho de dlares para sua conta bancria pessoal, fato descoberto pelo SIN durante a investigao do caso.
   ? Se os senhores descobriram isso, ento deveriam estar informados de que, logo depois, usei a mesma quantia para estabelecer um fundo de famlia para meus filhos
com Caroline, senhora Penworthy. O dinheiro era um presente para esse propsito ? anunciou Nick, impassvel, por mais que no fosse verdade.
   Ao ouvir isso, Caroline no conseguiu conter um pequeno arquejo repentino. Nick no havia ficado com o bnus de cinco dgitos para si mesmo? Ele no queria dinheiro
algum para se casar com ela! Oh cus!, ela pensou, quando se deu conta, subitamente, da importncia das palavras dele. Filhos!, ele disse. Filhos deles!  O olhar
da senhora Penworthy parecia querer penetrar a moa.
   ? A senhora parece surpresa, senhora Valkov ? observou a agente do SIN, seca.
   ? Estou... um pouco ? Caroline confessou, ansiosa. ? Eu... bem... no tinha me dado conta at agora de como papai havia sido generoso. Nick controla toda as nossas...
finanas.
   ? Senhora Penworthy, vamos esquecer toda essa lengalenga e ir direto ao ponto ? insistiu Nick, ajeitando-se na cadeira. ? Os relatrios que a senhora recebeu
so uma tentativa, creio eu, de alguma empresa concorrente para causar problemas a Cosmticos Fortune. A senhora sem dvida ouviu falar na morte da av de Caroline,
Kate, em um trgico acidente de avio na Amrica do Sul. Acredito que essa morte tenha sido causada por algum que sabotou o jato da empresa. Deveria ser visvel
para a senhora que Caroline e eu somos legitimamente casados... e muito felizes, devo acrescentar.
   ?  Por favor, senhora Penworthy! ? Caroline gemeu, baixinho, quando a agente do SIN no pareceu tocada pela declarao de Nick. ? Eu amo meu marido! Realmente,
eu amo! E ns... vamos ter um beb! ? Ela despejou tudo, sem pensar, movida por uma terrvel sensao de desespero. Percebendo o que havia dito, ela ficou vermelha
e mordeu o lbio inferior, perguntando-se o que Nick pensava e totalmente incapaz de encar-lo naquele momento.
   Mas para sua surpresa e total contentamento, ele se esticou e pegou-lhe a mo.
   ? E eu amo minha esposa com todo o corao. E estou to orgulhoso e satisfeito com o beb que vou distribuir charutos durante meses! Se for menina, estamos planejando
lhe dar o nome de Katherine Fortune Valkov.
   ? E se for menino? ? A senhora Penworthy indagou, olhando para Caroline e esperando sua resposta.
   ? Alexander... Sasha... o nome do pai de Nick.
   Pela primeira vez desde que comeara a entrevista, a expresso dura da agente do SIN se suavizou.
   ? Bem, acho que no h mais nada a perguntar aos senhores. E preciso ser cego para no perceber o quanto vocs dois realmente se amam. Por favor, aceitem minhas
desculpas em nome do SIN pelo transtorno. Estou satisfeita quanto  validade de seu casamento e convencida de que realmente deve haver alguma trama contra a Cosmticos
Fortune na origem dessa histria. O SIN no os incomodar novamente.
   Do lado de fora do prdio do SIN, Nick ajudou Caroline a entrar no Mercedes-Benz, e sentou-se no banco ao lado, inserindo a chave na ignio. Mas, em vez de ligar
o motor, ele virou-se para ela, ponderando; os olhos escuros buscavam algo e estavam cheios de uma luz estranha e esperanosa.
   ? Caroline, voc realmente quis dizer o que disse... sobre me amar?
   ? Sim ? ela confessou, com suavidade. ? Eu realmente amo voc, e eu... sinto muito se isso o deixa irritado, Nick, mas  realmente verdade que ns... vamos ter
um beb.
   ? Eu sei. No tinha tanta certeza at hoje de manh. Mas, querida, mesmo se no fosse qumico, eu saberia ler os resultados de um kit de teste de gravidez to
bem quanto qualquer um. Acho que voc no pensou nisso quando o jogou no lixo. Estou muito feliz pelo beb. ? Abaixando-se, ele encostou a mo delicadamente na barriga
dela. Espero que seja o primeiro de vrios... porque ns no vamos nos divorciar, Caroline. Eu tambm amo voc, e quero muito permanecer seu marido.
   ? Ah, Nick... ? A voz dela foi ficando mais fraca  medida que ele a beijava profunda e apaixonadamente.
   Finalmente, depois de um longo momento, acariciando o cabelo dela e apertando-a, carinhoso, em seu peito, ele perguntou, em tom provocador:
   ? Ento, o que voc acha, senhora Valkov? Consigo o cargo de seu marido ou no?
   Ela sorriu para ele e todo o amor que havia em seu corao transpareceu em seus olhos.
   ? Sim, Dr. Valkov. O senhor com certeza est contratado... para sempre!

   Fim
Sempre-Lendo, o melhor grupo de troca de livros da Internet!
